Que país é este? A trilha sonora filmada de Brasília

Estadão

21 de outubro de 2011 | 17h02

Luiz Carlos Merten

Você não precisa ser especialmente fã de Renato Russo ou do Legião Urbana para gostar do novo documentário de Vladimir Carvalho, mas é verdade que isso ajuda bastante. Depois de inúmeras tentativas, o cinema brasileiro finalmente concretiza abordagens do artista, e da banda.

O importante é que Carvalho usa o rock para prosseguir sua investigação sobre a identidade cultural brasilense. Rock Brasília fecha o que não deixa de constituir uma trilogia. Começou com Conterrâneos Velhos de Guerra, prosseguiu com Barra 68.

O que tem as ver filmes tão diversos entre si? Um sobre os candangos que, sem segurança nenhuma e trabalhando como escravos, construíram a Capital Federal. Outro sobre a invasão da Universidade de Brasília durante o regime militar. O centro da cultura e do saber profanado pela violência. O terceiro, sobre o que é ser exilado na própria terra.

Que País é esse?, pergunta, ou grita, Renato Russo e a interrogação, transformada em rock, eletriza a multidão, vira palavra de ordem. Vladimir Carvalho, como cidadão e artista, não tem cessado de se fazer a mesma pergunta. Seus filmes interrogam o Brasil, tentam nos entender (e devassar).

Numa recente entrevista com o diretor, na abertura do Festival de Brasília, o crítico fez uma afirmação temerária, considerando-se o currículo (e a fama) do autor. Rock Brasília é seu melhor filme. O Engenho de Zé Lins, sobre o escritor da Paraíba, já possuía uma qualidade especial, mas Rock Brasília consegue ser melhor. O próprio Carvalho brincou – “Depois de 50 anos fazendo cinema, a gente termina por aprender.”

Wladimir Carvalho, diretor do filme Rock Brasília (FOTO TIAGO QUEIROZ/AE)

Rock Brasília soma horas de entrevistas a gravações (ou filmagens) antigas, que Carvalho já havia feito, ou comandado, como professor na UnB. Ele exortava seus alunos a pegarem a câmera paras documentar a cidade. Esse material precioso foi resgatado e montado de forma dar um testemunho.

Quem foram os jovens que fizeram o rock brasiliense? Qual o seu legado? Eles vieram da classe média, filhos de funcionários, professores, diplomatas. Formaram suas bandas nos prédios das superquadras. E, de repente, à sombra do poder, nos anos de chumbo e da abertura política, estavam refletindo sobre o mundo que os cercava.

O cinema não precisa ser, necessariamente, emocionante. E emocionar-se também não significa se alienar. São as lições de Rock Brasília. Os jovens de 20/30 anos atrás voltam-se sobre o próprio passado, os pais de alguns somam suas vozes para contar as histórias de repressão.

Momentos permanecem – o quebra-quebra no show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha, em junho de 1988; e o grande show do Capital Inicial, na Esplanada dos Ministérios, em 2008, quando Dinho levantou o público cantando o refrão de Renato Russo Que País É Esse?. Rock Brasília é, por assim dizer, geracional.

Vladimir Carvalho colocou na tela a voz de sua geração. Ao fazê-lo, dialoga com o público atual. Em Paulínia, Brasília e no Festival do Rio, as sessões de seu filme foram lindas. A expectativa é de que seja, também, nesta nova fase que se abre com o lançamento nas salas.

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