Quando o jazz encontra o King Crimson

Estadão

19 de outubro de 2010 | 08h19

Marcelo Moreira

Outro dia mencionei aqui o Blue Floyd, banda de formação instável de músicos importantes do blues-rock sulista norte-americano que toca músicas do Pink Floyd. Um projeto parecido surgiu há algum tempo nos Estados Unidos, mas recriando em formato jazzístico as músicas de outro gigante do rock progressivo inglês, o King Crimson.

O Crimson Jazz Trio tem uma proposta que foi além daquela criada pelos bluseiros norte americanos. Não só tocam músicas da banda inglesa, mas literalmente as recriam, com novos arranjos inusitados, na maioria transformando as criações em outras canções. Ou seja, não é apenas uma banda cover.

A ideia surgiu em 2004 com o baterista Ian Wallace, conceituado músico de estúdio nos anos 80 e 90, mas que teve passagem curta pelo próprio King Crimson entre 1971 e 1972, substituindo Andy McCulloch (que tinha entrado no lugar de Mike Giles).

Ao lado de Tim Landers (baixo) e Jody Nardone, Wallace gravou dois álbuns, “The King Crimson Songbook vol.1 e 2” entre 2004 e 2006, além de fazer duas turnês pelos Estados Unidos. Os dois trabalhos foram relançados no final do ano passado pela gravadora Knot Records.

O terceiro álbum nem chegou a ser iniciado, pois Ian Wallace morreu em 2007 em consequência de um câncder no esôfago, aos 60 anos. Não se sabe se há material de sobra para a edição de mais um álbum.

Sobre o King Crimson, foi talvez a mais vanguardista das bandas inglesas de rocm progressivo entre as que conseguiram sucesso e notoriedade. Surgiu das cinzas do trio Giles, Giles  Fripp em 1969 e fez sua estreia nos palcos em julho daquele ano, abrindo nada menos o concerto dos Rolling Stones no Hyde Park em homenagem ao guitarrista Brian Jones, morto um mês antes.

Liderado pelo guitarrista Robert Fripp – gênio, genioso e completamente maluco -, o grupo teve em sua formação inicial nada menos do que Greg Lake, que era o vocalista e o baixista. O impacto do surgimento da banda foi o mesmo causado pelo Pink Floyd com suas perfomances fantásticas entre 1966 e 1967.

Os dois primeiros álbuns, “In the Court of the Crimson King” (1969) e “In the Wake of Poseidon”  (1970) foram elogiados pela crítica, mas não tiveram boa resposta do público. Foi a deixa para que Greg Lake saísse da banda, já que não suportava mais a liderança lunática, autoritária e esquizofrênica de Fripp.

Não deu uma semana e formou o trio Emerson, Lake and Palmer, ao lado do tecladista Keith Emerson (ex-The Nice) e Carl Palmer (ex-Atomic Rooster). O sucesso do trio foi estrondoso naquele ano de 70, que quase teve o ingresso de Jimi Hendrix em setembro daquele ano – o guitarrista queria entrar na banda, que se chamaria Help, e negociava a questão, mas morreria dez dias depois após a primeira reunião para tratar do assunto.

Formação do King Crimson em 1971

O King Crimson teve inúmeras mudanças de formação até 1974, quando acabaou pela primeira vez. Voltou em 1980 tendo Adrian Belew nas guitarras e voz, Tony Levin no baixo e Bill Bruford na bateria (este saíra do Yes em 1972 para substituir Ian Wallace no Crimson).

A formação durou até 1985, quando Fripp alegou esgotamento criativo para abortar o projeto – o mesmo argumento de 11 anos antes. Em 1994 a mesma formação de 1980 voltou a se reunir, ams de forma intermitente, e com a adição temporária de mais dois músicos – o percussionista e baterista Pat Mastelotto e o baixista Trey Gunn.

O King Crimson como um sexteto, em 1995

O sexteto tocou várias vezes juntos, mas também nos formatos de trio e quartetos, variando sempre de acordo com a agenda cheia solo de seus integrantes. Gravaram vários EPs e o álbum “The Power To Believe”, de 2003, e o ao vivo “EleKtriK: Live in Japan”, de 2004, antes de nova pausa – desta vez, não houve separação, apenas o famoso tempo.

A volta veio em 2007, com nova formação. Tony Levin, que não tocou nos álbuns de 2003 e 2004, volta, mas Bill Bruford não aceita o retorno e decide se aposentar. O substituto é Gavin Harrison, que já tocou com o Porcupine Tree. Vários shows foram realizados nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas nada  de novo álbum. A banda deu nova parada no fim de 2009.

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