Quadrophenia, a ópera-rock do Who revisitada

Estadão

30 de junho de 2013 | 07h43

Coluna Sound – jornal Diário do Nordeste

Enquanto a confirmação a nova turnê do The Who segue incerta no Brasil, a coluna Sound acompanhou, em Londres, o show do lendário disco “Quadrophenia”, que completa, em 2013, 40 anos

Beatles e Rolling Stones podem até ocupar lugares cativos na realeza da música britânica (é fácil constatar tal fato nas ruas de Londres), mas a contribuição do The Who para o rock do Reino Unido foi tão crucial quanto o legado deixado por seus contemporâneos.

Roger Daltrey (vocal) e Pete Townshend (guitarra) Fotos: Alex Barron-Hough

Membros também da famosa Invasão Britânica, que estourou em todo o mundo nos anos 60, Roger Daltrey (vocal), Pete Townshend (guitarra), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) se reuniram há quase 50 anos para formar uma das bandas mais influentes de sua geração e que posteriormente iria angariar uma lista interminável de fãs ilustres!

Gigantes como o The Clash, Led Zeppelin e Rush e músicos como Brian May (guitarrista do Queen), Bono Vox (frontman do U2) e Eddie Vedder (o cover do Pearl Jam de “Baba O´Riley” já é conhecido!) já deram declarações públicas de terem bebido na fonte do som do quarteto inglês.

Com a formação original, o The Who seguiu por quase 15 anos. O primeiro a deixar o grupo foi o excêntrico Keith Moon, um talento insano e destrutivo das baquetas que acabou sendo vítima de uma overdose.

Depois, a banda até chegou a lançar três álbuns de estúdio (“Face Dances”-1981, “It´s Hard”-1982 e “Endless Wire”-2006), fora os discos ao vivo, coletâneas, trilhas sonoras… Desde então, houve encontros pontuais para participações em festivais ou breves turnês. A tour comemorativa de 40 anos do conceitual “Quadrophenia”, que virou filme em 1979, marca o retorno dos veteranos (ou seriam sobreviventes?) Daltrey e Townshend aos palcos.

O show

Depois de seu lançamento, o espetáculo foi retomado nos anos 90 com Entwistle ainda vivo. Mas, o que se tem dito pela imprensa britânica é que só agora a ópera-rock (gênero no qual o The Who é mestre e lançou outra obra épica, “Tommy”, em 1969), ganhou uma superprodução à altura de sua genialidade.

O vocalista Roger Daltrey arrasou, como nos velhos tempos

Ou seja, a performance que vi no sábado (dia 15), no O2 Arena, que contou com ingressos esgotados também no domingo (16), foi realmente inédita: seja pela qualidade técnica e estrutura, passando pela nova – e competente – banda que acompanha a dupla remanescente, às participações “especiais e holográficas de Moon e Entwistle – que “cantaram” e “emocionaram”, respectivamente, com “Bell Boy” e “Is It Me?”.

Engenhosidade

Cerca de 90 minutos do show, que durou pouco mais de duas horas, foi dedicado, obviamente, à ópera-rock, que tem como cenário a capital da Terra da Rainha nos conturbados anos 60, quando os mods e rockers – grupos de jovens rebeldes de gangues distintas do rock – se estranhavam pra valer… O contexto cultural e político do período são marcantes em “Quadrophenia”.

Nos quatro grandes telões, imagens de momentos históricos e personalidades relevantes intercalavam com o grupo que executava ao vivo a obra. Além da crítica social, a peça faz referência à esquizofrenia, adaptada na trama como uma doença de personalidade múltipla.

O perturbado protagonista sofre de personalidade quádrupla, cada uma delas associadas a um dos integrante do The Who (daí o título “Quadrophenia”): segundo o encarte do álbum, um cara durão (Daltrey); um romântico (Entwistle), um maldito lunático (Moon); e um mendigo e hipócrita (Townshend). Que doido, hein?

Confira vídeo do show

Popularidade

Mesmo para quem não viveu àquela época, impossível não se arrepiar com as cenas envolvendo guerras, protestos, tragédias, fome… Talvez por isso, grande parte do público ser composto por cinquentões e sessentões (até setentões), que fizeram questão de comparecer ao espetáculo. Alguns senhores, simpáticos, chegaram até a perguntar: “Mas o que você está fazendo aqui? Você é tão jovem!” ou “Que bom que você está curtindo tanto o show!”.

Keith Moon, baterista do The Who, ganhou homenagem especial durante o show do lendário disco da banda, a ópera-rock Quadrophenia
Foto: Divulgação

Para muitos desses fãs “maduros”, era uma surpresa que alguém tão mais novo, ainda mais vinda do Brasil, pudesse apreciar tanto e entrar no clima do musical. Não era apenas eu. Uma galera com os seus vinte a trinta e poucos anos marcou presença, sozinhos ou acompanhados dos pais, avós, etc. Sim, eles também estavam lá pelo mesmo motivo: a grandiosidade da banda, que mostra sua força atravessando gerações.

A apresentação começou com “I Am The Sea” e seguiu fielmente a tracklist do disco, que não é assim tão fácil de digerir para quem estava lá esperando os sucessos. A impressão que se teve, às vezes, era que o público ficava meio parado. Seria encantado, observando o espetáculo, um marco do rock clássico? Ou estaria meio perdido?

Deve ter tido gente desses dois tipos, mas o que se sabe também é que os europeus não são assim tão calorosos quantos os brasileiros…

Até concordando com os ingleses, as canções mais vibrantes da primeira parte do concerto foram “Bell Boy”, “The Rock”, “5:15” e “Love, Reign O´er Me” (essas duas últimas, em especial). O coro de vozes cantando as canções e os aplausos não deixavam dúvidas.

Cartaz do show que marcou os fãs da banda britânica. A imagem faz referência à obra musical que depois viria a dar origem a um filme

Após o “cabeçudo” set de “Quadrophenia”, o The Who presenteou a multidão com um “best of” dos seus maiores sucessos. O grupo foi até generoso visto que o foco do show era a ópera-rock. Nos últimos 30 minutos, pode-se dizer o ponto alto da noite, Daltrey e Townshend incendiaram a plateia com as irretocáveis “Who Are You”, “You better You bet”, “Pinball Wizard”, “Baba O´Riley” e “Won´t Get Fooled Again” e a não tão empolgante “Tea & Theatre”, estranhamente escolhida para fechar o repertório… Vai entender. Ao fim da performance, a sensação que ficou, para os caras, foi de dever cumprido.

A energia e entrega da dupla, hoje com 68 e 69 anos, era admirável. O vocalista pode até não pular ou correr mais como antigamente, mas sua voz segue grossa (não rouca!), quase intacta, como nos velhos tempos.

Notável foi ainda ver a sintonia e o respeito mútuo do duo ao vivo. Daltrey mostrou que não tem problemas em dividir os holofotes com Townshend. Sabe quando se retirar e dar a vez para o parceiro assumir o microfone.

O baixista John Entwistle é traduzido em Quadrophenia como o cara romântico do quarteto que viraria referência musical para grandes bandas da atualidade

O que dizer do impetuoso guitar hero, que adorava quebrar seus instrumentos em seus rompantes em pleno palco? Mais comedido hoje, porém não menos afiado, chegou a brincar com a plateia ao agradecer por ter sobrevivido todos esses anos. Ainda bem!

Para os espectadores, até mesmo para os ponderados britânicos, a noite foi, em todos os sentidos, quente e inesquecível. Agora, é torcer para que os brasileiros também tenham a chance de ver esse encontro, verdadeiramente único.

Set list – Quadrophenia – Londres, junho de 2013

I Am the Sea
The Real Me
Quadrophenia
Cut My Hair
The Punk and the Godfather
I´m One
The Dirty Jobs
Helpless Dancer
Is It in My Head?
I´ve Had Enough
5:15
Sea and Sand
Drowned
Bell Boy
Doctor Jimmy
The Rock
Love, Reign O´er Me
Encore:
Who Are You
You better You bet
Pinball Wizard
Baba O´Riley
Won´t Get Fooled Again
Tea & Theatre QWuadr

Tudo o que sabemos sobre:

The Who

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.