Punks x skinheads: quando a delinquência se transforma em espetáculo

Estadão

06 de setembro de 2011 | 06h39

Marcelo Moreira

Existe diferença entre as turminhas de classe do ginásio que brigam na hora do recreio e os bandos de animais que se matam nos estádios de futebol e na frente de casas de show? A resposta é óbvia: não há nenhuma diferença. O grau de infantilidade é o mesmo, o que varia é a intensidade da delinquência.

Quando ocorrem brigas estúpidas promovidas por arruaceiros e bandidos de todos os calibres somos soterrados por dezenas e dezenas de explicações e teorias sociologizantes nos jornais e TVs que tentam “explicar” o fenômeno que ocorre há pelo menos 30 anos em várias partes do mundo.

Essas explicações não podem ser desprezadas, pois muita gente boa e com currículo invejável estudou e produziu trabalhos importantes a respeito. O problema é que tais explicações acabam banalizadas diante do show de horrores e de falta de informação que vemos em quase todos os veículos.

 A cada vez que um punk é espancado ou morto por skinheads e vice-versa começa a onda de preconceito e desinformação total cravando na testa de todo roqueiro a pecha “vagabundo”, “desajustado”, “violento”, “drogado” e outras coisas mais.

Desavisados que assistiram à TV no final de semana não tiveram dúvidas: qualquer evento de rock é sinônimo de desordem, confusão e mortes. A consequência é que fica cada vez mais difícil convencer certa parcela da sociedade que isso é uma estupidez, haja vista que ocorrem com frequência no Brasil todo brigas com mortes em eventos envolvendo forró, axé, pagode, funk e até mesmo sertanejo.

Johni Galanciak é preso em manifestação contra o prefeito Gilberto Kassab em frente a uma escola no bairro de Pinheiros, em 2006 (FOTO: HELVIO ROMERO/AE-29/10/2006)

O caso envolvendo a briga no último sábado no Carioca Club, em São Paulo, antes do show da boa banda punk Cock Sparrer, é antes de mais nada um caso de polícia, assim como os recentes episódios de brigas entre torcedores do Palmeiras e do Corinthians.

Delinquentes e bandidos se encontram em algum ponto e começam a brigar. Simples assim. A diferença agora é que a internet é a agenda para a marcação dos encontros. Não passam de bandidos e arruaceiros que acreditam ser glamouroso jogar um pouquinho de verniz pseudo-ideológico para mascarar a indigência intelectual e o fracasso pessoal de suas existências insignificantes. 

Qualquer coisa além disso é tentativa inócua e inútil de romantizar a delinquência nem tão juvenil dessas turmas de malfeitores. Brigar por causa de uma banda de rock, um artista qualquer ou time de futebol não é só infantil, mas é totalmente insano.

Não há qualquer motivo que justifique esse tipo de comportamento em pleno século XXI, pois que sejam despejadas um monte de “sociologias” a cada briga com morte entre punks e skinheads.

O cidadão que morreu após ser espancado na briga do Carioca Club, Johni Raoni Galanciak, não era um moleque ensandecido que foi no embalo da turminha. Aos 25 anos, sabia exatamente o que fazia e com se metia. Procurava encrenca e sabia onde encontrá-la. Em 2006 foi preso por tentativa de agressão contra o prefeito Gilberto Kassab (PSD) – tentou alvejá-lo com ovos em um protesto.

 Mais do que ficar teorizando sobre a suposta “sociedade doente”, “perda de valores”, “deterioração da condição social” e outros conceitos supostamente acadêmicos, as brigas de gangues antes de mais nada são uma questão simples de polícia. É de segurança pública.

 

Marcas de sangue na calçada da avenida Cardeal Arcoverde, em local próximo ao Carioca Club (Foto: WERTHER SANTANA/AE)

Enquanto não houver uma ação clara de repressão e desbaratamento de agrupamentos que incitam e abrigam criminosos, como as gangues de punks, de skinheads e algumas torcidas organizadas de times de futebol, tais episódios continuarão ocorrendo com frequência cada vez maior.

A impunidade é um combustível potente para a delinquência, em qualquer setor da sociedade. E o recado está mais do que claro: oito pessoas foram presas pela Polícia Militar nas imediações do Carioca Club após a briga, mas todos foram liberados horas depois por falta de provas. E será sempre assim enquanto não houver vontade política e interesse da polícia em combater o problema.

Triste o tempo em que você pode apanhar e morrer apenas por ter assistido a um show de rock, um jogo de futebol ou a uma reunião de partido político. Não se trata mais de uma sociedade doente, mas sim de omissão e ausência criminosas do Estado.

Cronologia dos enfrentamentos recentes envolvendo punks e skinheads

Abril de 2011 – Uma pessoa foi esfaqueada em briga de punks e skinheads na Praça Júlio Prestes durante o show da banda norte-americana Misfits, na Virada Cultural

Fevereiro de 2011 – Três skinheads foram presos após agredirem pelo menos quatro punks na praça Antônio Menck, em Osasco, na Grande São Paulo

Janeiro de 2010 – Três skinheads foram presos na zona norte, após agredirem e arrastarem com um carro o estudante Maxwel Daltivo Cardoso de Sá, de 15 anos, que usava um corte de cabelo moicano

Novembro de 2008 – O punk Genésio Mairuzzi Filho, de 25 anos, foi condenado a 27 anos por matar o francês Gregor Erwan Landouar, em julho de 2007

Junho de 2008 – Seis integrantes dos grupos Devastação Punk e Carecas do ABC foram presos, acusados de espancar quatro pessoas na Rua da Consolação, em 2006

Abril de 2007 – Ricardo Sutanis Cardoso, de 22 anos, foi morto durante uma briga entre gangues na Rua Augusta. O rapaz teria entrado para um movimento neonazista antes de morrer

Março de 2007 – Dois punks foram assassinados por um jovem do movimento street punks, na Rua Betari, na zona leste da capital

Setembro de 2006 – Um jovem de 20 anos foi esfaqueado por um adolescente de 16, em briga entre punks e skinheads a poucas quadras da Galeria do Rock, no centro

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