Punk cigano do ucraniano quase carioca

Estadão

22 Setembro 2013 | 08h20

Jotabê Medeiros

Líder do grupo, Eugene Hutz fala sobre novo disco e seu show no Rock in Rio no próximo fim de semana. Atração que levantou poeira no Lollapalooza de 2012, o grupo multicultural Gogol Bordello, o famoso “punk cigano”, já está de volta: é uma das atrações do Rock in Rio, no Palco Sunset. E vem com novíssimo álbum na bagagem, Pura Vida Conspiracy (lançado no País pela Som Livre), que deverá mostrar no festival.

O ucraniano (radicado em Los Angeles) Eugene Hutz, que tocou com seu grupo na quinta-feira, falou ao Estado sobre esse caso de amor com o Brasil (morou no Rio e é um habitué da Lapa), sobre manifestações de rua e oportunismo político. Contou que, no Rock in Rio, pretende de novo tocar uma música brasileira (já agitou com Tropicana, de Alceu Valença, e com o funk Tapinha Não Dói, no passado), como de hábito, mas fez mistério – disse apenas que vai ser algo das ruas.

Como é a sensação de estrear no Rock in Rio?
Nós tocamos no Rock in Rio Madri, mas tocar no festival do Rio é algo que eu esperava há muito tempo. Amo o Rio, nossa banda tem muita afinidade com o Brasil.

O seu disco tem a participação do brasileiro Pedro Meirelles, tocando cavaquinho. Ele poderá participar do show?
É uma grande ideia! Pedro tem sido importante colaborador musical nesses anos em que vivi no Brasil, seja pelo lado do eletrônico, seja como coprodutor, e me ajudou no jeito de compor, gravar demos e produzir faixas. Ele tem um estúdio no Rio que virou um point de bandas amigas que vêm ao Brasil, como o System of a Down. Muitas bandas vão ali ensaiar, pesquisar. O Rio é um belo lugar para intercâmbios culturais, e Pedro é um cara que conseguiu capturar a essência do Gogol Bordello, além de compositor talentoso.

O novo disco não é tão punk cigano como o anterior, nem faz a colcha de retalhos cultural que havia no último. Parece mais influenciado por Ennio Morricone…
Você está certo, é mais melódico e sinfônico. O sentimento das letras, em geral, retrata o que sinto nesse momento: tudo se tornou uma grande família.

Também não há, como se esperaria de você, política explícita no álbum. Quero dizer: está quase todo mundo fazendo música com referências às manifestações de rua. O que pensa delas?

Há muito perigo no que está acontecendo. Nós protestamos e as pessoas se apropriam do protesto e distorcem o seu sentido. Não estou interessado em fazer da crítica política um marketing. Isso torna nossa capacidade de protestar inútil. Há muito de política no disco, mas está sendo tratada de outra forma, como na primeira música, We Rise Again, que é a representação do que penso. Somos uma banda do mundo, não somos de nenhum país em especial, de um lugar em particular. Vejo o mundo como a morada do ser humano. Combato essa ideia de que o conforto de alguns tem de ser sustentado pela exploração de muitos. Não há sentido em apregoar a substituição de um grupo por outro, uma nação por outra. Isso é ilusão.

Vocês fazem uma saudação, nas notas do disco, a uma série de grupos: Rage Against the Machine, Iggy and the Stooges, System of a Down e até Forró in the Dark.

São nossos amigos, bandas com as quais dividimos palcos pelo mundo. Somos todos bandas de rock, e, particularmente esses que você citou, são grupos que requerem energia de sua audiência. De todos, para mim, um que foi particularmente importante é The Stooges. Eram meus ídolos de adolescência e se tornaram amigos. É grandioso estar no mesmo palco que um ídolo.

No fim do disco, se o ouvinte deixa correndo o CD, chega a uma “faixa secreta”, a 13ª, que é meio metal com flamenco…

Na verdade, é mais hardcore com cumbia. Costumávamos usar essa canção como aquecimento. É uma história meio nonsense. No final, ela não estava de acordo com o conceito do disco e estava ficando de fora, mas a gente gosta tanto dela que a pusemos como brinde para os fãs.

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