Prepare-se: o pedantismo dos Los Hermanos – e de seus fãs – vai aumentar

Estadão

10 de setembro de 2012 | 06h47

Marcelo Moreira

Assim como a Legião Urbana, a banda carioca Los Hermanos sempre mereceu um tratamento diferenciado e laudatório por grande parte da imprensa e de apreciadores de MPB e rock insípido, inodoro e incolor. Algum desavisado ou mesmo desinformado cometeu o disparate de dizer que a banda dos barbudinhos tinha o mesmo peso da Legião para os fãs dos anos 2000.  E muita gente acreditou nisso.

Los Hermanos praticamente acabou, mas vive ameaçando voltar e nos aterrorizar com coisas intragáveis do tipo “Anna Júlia”. De vez em vez a banda se reúne para shows esporádicos. Mas seus integrantes não nos deixam em paz. Rodrigo Amarante decidiu formar o Little Joy com o baterista do intragável Strokes e uma cantora americana ruim.

E eis que o álbum “Ventura”, do quarteto carioca, foi eleito por leitores do jornal O Estado de S. Paulo, do portal Estadão.com e do site Território Eldorado – todas empresas do Grupo Estado – como o melhor álbum de música brasileira de todos os tempos. Sinal dos tempos… Leia mais sobre o assunto clicando aqui.

Resultado absurdo? Sim. Mediocrização total? É possível que sim. O resultado é pavoroso e assustador, mas nem um pouco surpreendente. Pois é, a internet propicia surpresas incompreensíveis – não é que a Fifa promoveu uma votação pela web anos atrás para saber quem foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos? Claro que deu Maradona, pois os jovens da época jamais tinham visto Pelé jogar…

Marcelo Camelo, um dos líderes da banda, se travestiu de bardo e já lançou três CDs solo misturando a melancolia chatíssima de seu pop insosso com o pior da MPB cafona. Parece que é impossível para os ex-integrantes da banda se livrarem da síndrome de Renato Russo.

Não bastasse o pop rock ruim,as letras pseudoromânticas de gosto duvidoso e os “cabecismos” quase indecifráveis de algumas músicas, ainda temos de aguentar a pose de intelectuais de tais músicos, como se pode perceber na inacreditável entrevista de Camelo à Rolling Stone Brasil de abril de 2011 (com Ronaldinho Gaúcho na capa).

O cantor desfila uma série de citações cabeçudas para mostrar sapiência e intelectualidade, e posa de intelectual incompreendido e sensível, “em busca da arte perfeita e do som puro”, seja lá o que isso for.

Apesar da qualidade sofrível do pop rock do Los Hermanos, Cameloe Amarante eram músicos diferenciados quando davam entrevistas. Nem um pouco deslumbrados quando estouraram com a indefectível “Anna Júlia”, falavam com segurança e desprendimento aos jornalistas, mostrando que tinham referências, que tinham algum conteúdo, fugindo da terra arrasada que era a seara intelctual do rock brasileiro no final dos anos 90 e começo dos anos 2000.

Enfim, mostravam-se artistas diferentes, com ideias e coisas interessantes para falar, mes mo que o primeiro CD não fosse lá essas coisas, para ser generoso. O sucesso fez mal aos garotos que queriam ser emos antes mesmo do surgimento destes.

As misturebas de pop rock com MPB e samba confundiram os fãs e não levaram a banda a lugar algum. Apesar disso, o tom das entrevistas mudou, com a complacência de parte expressiva da imprensa embasbacada. O pseudointelectualismo começou a dominar as conversas, e os integrantes da banda realmente acharam que estavam fazendo um trabalho musical revolucionário, quando na verdade era o contrário.

A implosão do grupo não foi suficiente para amenizar os discursos fora de contexto e de ordem, em um momento em que se valoriza cada vez mais a simplicidade.

Eu fiz questão de escutar o último trabalho de Marcelo Camelo, “Toque Dela”, e os mais recentes dos Los Hermanos, incluindo “Ventura”. São trabalhos fracos. Não tenho interesse nem apreço pelo gênero muscial praticado por ele e sua banda e estou convencido que devo me afastar de qualquer trabalho do grupo e de seus integrantes. E faço pregação aos amigos e pessoas que demonstram algum tipo de bom gosto musical – e quem sabe um cérebro funcionando…

Mas é chato constatar que as entrevistas de artistas que ao menos tinham alguma coisa a dizer no passado hoje nada mais são do que reflexos diretos do pedantismo que dominou parte expressiva dos trabalhos dos Los Hermanos.

P.S.: O texto acima não representa a posição oficial do Combate Rock a respeito do grupo Los Hermanos, embora parte expressiva da equipe endosse as opiniões.

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