Preconceito e discriminação como 'armas sociais'

Estadão

01 de julho de 2012 | 23h00

Marcelo Moreira

O norte-americano Spike Lee é um dos grandes cineastas do nosso tempo, explorando como ninguém e com sensibilidade temas incômodos e perturbadores. Negro e nascido em Nova York, conhece de perto o preconceito e a discriminação.

Uma de suas críticas mais contundentes foi feita em “Summer of Sam” (“O Verão de Sam”, título em português), filme que teve pouca repercussão no Brasil e que foi lançado em 1999 e tinha no elenco John Leguizamo, Mira Sorvino e o então pouco conhecido Adrien Brody (ganhou o Oscar pelo filme “O Pianista”, em 2003).

Com perspicácia e sagacidade, conseguiu retratar todo o painel cultural e social da Nova York de 1977 contando a história de personagens influenciados pelo medo de um assassino serial à solta no verão daquele ano.

Medo e preconceito se misturam na vida cotidiana de gente simples, trabalhadora, que começa a ter acesso a uma nova realidade cultural, enquanto tem que conviver com os velhos dramas das questões sociais inflamadas nos bairros pobres habitados por negros, latinos, italianos e alguns irlandeses.

A temperatura sobe no final do filme quando a polícia se mostra incapaz de capturar o assassino conhecido como Sam, que mata preferencialmente casais que namorar à noite em carros pela periferia da cidade.

Enquanto a nova realidade cultural pop se impõe, com a ascensão da disco music e do punk, os personagens começam a destilar ódio e preconceito a partir do momento em que o medo do assassino domina o ambiente, desencadeando todo o tipo de paranoia.

E quem mais sofre é o único punk da região (o movimento naquele momento ainda era uma novidade, especialmente a versão inglesa, mais violenta). Ritchie (Brody) é um desempregado que tenta aprender a tocar guitarra e custa a conseguir convencer os amigos a montar uma banda punk.

Com seu visual diferente e assustador – seu corte de cabelo moicano leva as pessoas a atravessar a rua –, começa a atrair a curiosidade e depois o ódio da vizinhança. Vinny (Leguizamo), líder informal de uma turma de trabalhadores braçais latinos, que conta também com alguns desocupados, que vive totalmente mergulhado na cocaína e no álcool, desconfia de que o punk na verdade é Sam, o assassino, “porque ele é esquisito, feio, solitário e folgado”.

 

Adrien Brody momentos antes de gravar uma cena de 'Summer of Sam'

O resultado é que Vinny consegue convencer a turma de que o punk é o criminoso procurado pela polícia. Atraído para uma armadilha, Ritchie é espancado no meio da rua pelo bando de drogados, até que sua namorada busca a ajuda do sogro, que resgata o filho de arma em punho. O pai de Ritchie dispersa os agressores com tiros para o alto e anuncia que dez minutos antes a polícia de Nova York anunciara a captura do verdadeiro Sam.

O roteiro de “Summer of Sam”  e a direção criativa e segura de Lee mostram com maestria até que ponto o preconceito e a discriminação podem ser perniciosos e contaminar ambientes diversos, que aparentam normalidade e harmonia. E esse roteiro guarda algumas semelhanças perturbadoras, no que se refere a preconceito e discriminação, com a história de um professor roqueiro paulistano que o Combate Rock vai relatar na manhã desta segunda-feira.

 

Brody (esq.) e Leguizamo em foto promocional do filme

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