Por que o rock brasileiro não produz mais grandes hits?

Estadão

07 Setembro 2013 | 07h01

Ricardo Alexandre – Blog Ricardo Alexandre – MSN.com *

Pode não parecer, mas já se vão QUATORZE anos desde as últimas músicas com guitarras a se tornarem sucesso popular no Brasil. E quero dizer “popular” mesmo, dessas que tocam por toda parte e no verão seguinte se tranformam em música de levantar a malta no carnaval baiano. Foram “Mulher de fases”, dos Raimundos, lançada em abril, e “Anna Júlia”, primeiro single do grupo carioca Los Hermanos, enviado às rádios em setembro do mesmo ano.

A música dos Raimundos apresentava o disco Só no Forévis, disco projetado para encerrar um período sombrio que incluiu a morte de oito fãs durante um show em Santos, numa tragédia que feriu outras 63 pessoas. Os shows do grupo, que vinham pontuados de músicas cada vez mais pesadas, agora eram proibidos para menores de 18 anos. Em vez de responder com rancor, a banda respondeu com humor. O novo álbum veio divertido como havia muito a banda não era, irônico em relação aos ritmos dominantes nas paradas (sua capa com a banda vestida de pagodeira é um clássico) e não podia haver melhor cartão de visitas que “Mulher de fases”. Uma base country ultraveloz, modulações espertíssimas, um riff memorável do guitarrista Digão e uma das letras inacreditáveis de Rodolfo, desta vez sobre as instabilidades de humor feminino.  E ainda havia o clipe, igualmente bom e igualmente sem noção. E ainda havia em Só no forévis outro clássico da união de peso e melodia, “A mais pedida”, o segundo maior hit dos Raimundos, tematizando a habilidade de produzir música para tocar “nas AM, FM e nos elevadô”. Era uma fase altamente inspirada da banda, não resta dúvida.

“Anna Julia” representou a maior novidade do rock brasileiro desde meados dos anos 1990, porque superava a “corrente da mistureba”, e também sua ideologia. Curiosamente, o Los Hermanos começara exatamente como todas as bandas do circuito indie carioca: tocando no Garage, misturando hardcore com alguma outra coisa (no caso deles, ska, música latina e um certo “ideologia” de marchinha de carnaval). Mas “Anna Julia” não era nada disso. Era só um rock-balada, um iê-iê-iê daqueles que o Weezer faz brincando e o Teenage Fanclub faz à sério, uma declaração de amor, estrofe-refrão-estrofe-solo-refrão e pronto. Surgido como a aposta jovem da Abril Music, a música foi fogo num palheiro cujo rastro ainda nos levaria à cena “emo” de bandas fazendo pose de pesada e cantando romances como se fossem o Zezé di Camargo.

Raimundos mandando um salve às paradas de sucesso e o Los Hermanos na revista “Capricho”: o rock brasileiro era feliz, alguns sabiam e outros não 

E por que o rock se calou desde então? Por que o ouvinte casual, o jovem urbano preocupado com trivialidades da vida, não teve sua atenção fisgada por nada remotamente semelhante ao rock? Por que ninguém com uma guitarra dependurada no pescoço sentou-se desde então para compor “um som que ultrapassasse a barreira das AM, FM e dos elevadô?” Não sei, sinceramente, mas algumas possibilidades parecem sinalizar uma resposta. Se me dão licença, são essas:

a) A internet facilita a criação de microcelebridades. Nos anos 80 e 90, qualquer banda precisaria passar pelo esgana-gato de encarar um público que não era o seu, na casa noturna, na FM, no programa da TV aberta. Com o surgimento das redes sociais, qualquer banda maluquete inviável arregimenta “fãs”, baba-ovos e seguidores que compactuam de seu mesmo compromisso com o fracasso. E a sensação de sermos microcelebridades anula qualquer necessidade de comunicar-se com um público maior.

b) A crise de oportunidades leva todo mundo a se fechar. Não dá para negar que o século 21, a reboque a inversão de expectativas em relação ao mercado fonográfico, recebeu todo o universo pop como uma grande crise de oportunidades. A revista Bizz fechou no ano 2000. O caderno Zap! durou até 2002. As rádios de perfil roqueiro acovardaram-se e pouco lançavam. A MTV “abriu” sua programação para os gêneros mais populares antes de entender que a saída era des-musicalizar sua programação. As casas de shows médias das grandes capitais fecharam. Ou seja, sem as plataformas de dez anos atrás, diversos talentos surgiam e não tinham retorno estético para seu trabalho, nem espaços mais ousados editorialmente para se lançar. A única opção artística tornou-se o underground e a movimentação lateral (festivais, eventos regionais). E o underground, como sabemos, não só não precisa do pop, ele o repele.

c) As facilidades tecnológicas. Se nos anos 70 e 80 você precisava negociar dolorosamente com uma grande gravadora e submeter seu trabalho a uma série de indivíduos de camisa pólo e sapatênis, nos anos 2000 os bons estúdios tornaram-se cada vez mais acessíveis, até chegar ao ponto de qualquer um conseguir gravar em seu próprio notebook. Você pode, como João Marcello Bôscoli, acreditar que o grande artista precisa naturalmente saber comunicar sua arte pura ao grande público. Eu duvido. Se me deixarem criar livremente, serei sempre umbigocêntrico, auto-referente e produzirei música para mim e meus amigos que pensam como eu. É exatamente o que as boas bandas de rock fazem atualmente.

d) Os millenials. Aqui vou chutar ainda mais alto, em direção a uma característica geracional. E acredito que meus leitores que ocupem cargos de gerência ou direção em empresas das áreas de humanas hão de entender: A chamada geração Y, criada sob as regras do self-service, das entregas em tempo real, da internet, das escolas construtivistas, do antropocentrismo e dos três itens acima, não é chegada à parte chata e empírica de todo trabalho. À parte trabalhosa que coloca qualquer idéia inspirada de pé. E o rock, i minentemente jovem, funciona de acordo com as regras da juventude de seu tempo. Pop é inspiração, mas também é trabalho. Chega a ser engraçada a quantidade de vezes em que Paul McCartney em sua biografia Many years from now descreve clássicos dos Beatles que John Lennon começou e abandonou e ele, Paul, tomou, trabalhou e retrabalhou até que se tornasse um clássico. John é o impulso, o rock’n’roll. Paul é o trabalho, a carpintaria, é o pop. Sem trabalho, não existe sucesso.

O destino daria uma última chance ao rock quatro anos depois. Foi o ano de “Equalize”, uma inventiva balada com guitarras hendrixianas defendida pela estreante Pitty, e “Vou Deixar”, um rock rápido e límpido que acabou se tornando o maior sucesso do Skank, ombro a ombro com “Garota nacional” de 1996. Mas esta era obra de uma banda conhecida havia dez anos por sua carpintaria pop, apenas executando seu ofício com êxito levemente superior. Aquela era uma balada romântica, cuja própria autora, ainda tímida e vinda da muralha protetora do circuito hardcore, confessava-se envergonhada de cantar ao vivo. Faltava a ambas aquele aspecto rompedor, inesperado, como um iê-iê-iê que trouxe de volta sentimentalismo ao rock, ou de um country-metal falando sobre TPM com um espírito absolutamente rock’n’roll.

Para ser dolorosamente justo, não dá para esquecer aquelas sacaroses sertanejas de bandas como Restart e NxZero que conseguiram entrar nas FMs populares em versões acústicas, ainda mais sem potência que seus originais com guitarras. Mas queria manter o universo desse livro restrito aos personagens humanos, não aos action figures robotizados que tentam há anos se fazer passar por rock’n’roll.

* Ricardo Alexandre é jornalista e escritor, é autor do ótimo “Dias de Luta”, a melhor obra que retrata o rock brasileiro dos anos 80. Este texto é um capítulo de seu próximo livro, “”Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar”.