Por que o Rio de Janeiro continua como o túmulo do rock?

Estadão

14 de março de 2011 | 08h30

Marcelo Moreira

O Iron Maiden tinha acabado fazer um show debaixo de muita chuva no estacionamento do Anhembi, em São Paulo, para mais de 30 mil pessoas, em dezembro de 1998. Poucas pessoas sabiam, mas aqueles shows pela América do Sul eram a despedida do vocalista Blaze Bayley – nem ele mesmo sabia disso.

A banda voou para o Rio no dia seguinte, onde tocaria na enorme casa noturna que muda de nome a cada patrocinador (Claro Hall? ATL Hall? Imperator?). Foram colocados 10 mil ingressos à venda, mas nem 8 mil foram vendidos. O evento quase deu prejuízo aos produtores, que definiram ali mesmo: Iron no Rio novamente, só em festival, e olhe lá.

Um outro produtor de shows conhecido no mercado decretou algo que o músico Lobão sempre disse em relação à cidade do Rio de Janeiro: é o túmulo do rock. Nos últimos 15 anos, foram incontáveis as turnês internacionais que passaram pelo Brasil, com bandas de grande, médio e pequeno portes, e ignoraram o Rio. Quem insistiu, teve shows cancelados, como a excelente banda de thrash Death Angel, em outubro passado.

Até mesmo o Anvil, banda canadense que voltou à cena e a ter manchetes por conta de um maravilhoso documentário sobre a sua carreira, tocou em São Paulo e em Catanduva, mas ignorou o Rio. Os shows internacionais são cada vez mais esporádicos, e isso acontece há muito tempo.

E olha que 2010 nem foi tão ruim assim, com shows de gente como Manowar, Epica, Marduk e Blaze Bayley. O chato é que o público em todos os shows foi pequeno, muito aquém do esperado para atrações desse nível – parabéns para os heróis que promoveram esses eventos.

Para a grande sorte do roqueiro carioca, parece que o cenário rocker, que começou a ser ressuscitado no ano passado, promete retirar o gênero da tumba na terra do carnaval. Neste primeiro semestre tocam na cidade Ozzy Osbourne, Avenged Sevenfold, Doro Pesch, Tarja Turunen e D.R.I., entre outros. Será que serão suficientes para resgatar o interesse do público da cidade pelo rock? Acho difícil, mas a torcida será grande.

O chato é que bandas brasileiras de rock de nível internacional, como Angra, Korzus, Shaman, Krisiun e Hangar, tocam bem menos do que deveriam na cidade. Renato Tribuzy, vocalista e responsável pelo projeto Tribuzy, que gravaou CD e trouxe a São Paulo uma constelação de craques para um show – Ralf Scheepers, Bruce Dickinson, Kai Hansen e vários outros – é carioca, mas pouco se ouve falar de seus projetos na cidade.

Prejuízos

Por que o cidade natal do Rock in Rio despreza tanto o gênero quando ele resolve se manifestar fora do festival? Sobram teorias e explicações das mais diversas e contraditórias, mas o consenso está cada vez mais distante. Uma coisa é certa: produtores de shows de grande e médio portes, se puderem, fogem da cidade.

“O prejuízo é certo. Se não for um megaevento histórico, como Rush, Paul McCartney, U2, AC/DC, Rolling Stones, que vêm ao Brasil a cada cinco ou dez anos, esqueça o Rio. É mais garantido investir em Curitiba ou Porto Alegre, com um público cativo de rock. Até mesmo Belo Horizonte é mais interessante. Para shows de médio porte, o Rio perde até mesmo para Brasília, Goiânia e várias cidades do interior paulista”, diz um experiente produtor de nível internacional que atua no Brasil e na Argentina, mas que pediu para não ser identificado.

Só um gigante como Paul McCartney para lotar um estádio no Rio (REUTERS/Mario Anzuoni)

Ele evita perder tempo em procurar explicações. “Não faz diferença. Existe um fato: o carioca gosta menos de rock do que o paulista e o gaúcho, que são povos mais aficionados, e mais ligados na música internacional, mais curiosos com o que vem do exterior. Enquanto quase todos os shows de grande porte acabam tendo show extra em São Paulo, o memso evento raramente vende 70% 08 80% dos ingressos no Rio em local bem menor – isso quando o evento também é marcado para a cidade. A diferença é abissal.”

Rock sepultado

Lobão, carioca que se mudou para São Paulo em 2007, filosofa na hora de falar sobre o assunto, mesmo que em tom gerenalista. “O principal fator para eu sair do Rio foi ter sentido que a cidade perdeu o ‘tom’ do rock’n roll. O cenário do rock e tudo que se refere ao gênero estão em São Paulo. Se São Paulo é o túmulo do samba, o Rio é o túmulo do rock”, afirmou à revista Quem em 2009 e ao Jornal da Tarde em 2010.

Eric Mattos tem quase 30 anos e já pasou por Curitiba antes de se estabelecer em São Paulo há sete anos. Deixou Niterói, onde nasceu e tocou em quase 20 bandas de metal e punk, para trabalhar com música e computação em outro lugar.

“Há roqueiro de monte no Rio e em Niterói, mas não há cena. Há é muita preguiça e falta de interesse. Cansei de tocar para 20 pessoas em boteco e praça na minha cidade, sabendo que todos os meus amigos preferiam estar na praia ou vendo jogo de futebol de várzea. Nem meus primos, que são todos roqueiros e tocam instrumentos, iam me ver tocar como eu ia vê-los. Chega uma hora que não dá”, diz o músico fluminense.

Em Curitiba não tocou profissionalmente, mas não perdia um show de rock aos finais de semana. “Dependendo da banda, tinha de implorar por um ingresso, de tão lotado que ficava. Tudo bem, nem eram tantos lugares assim com shows de rock, mas havia público para todos, até mesmo para os batidos covers de rock nacional. Em vários shows de bandas locais não consegui entrar no bar. Jamais vi isso em Niterói ou no Rio, onde existem bandas espetaculares, mas que não tocam mais”, afirma Mattos.

Em São Paulo, ele tenta conciliar o trabalho de programador com o de integrante da produção de vários shows internacionais. “Nem dá tempo para pensar. Há show de tudo quanto é tipo em São Paulo, as opções são tantas que fica difícil acompanhar. Claro que nem todos são um sucesso, há aqueles com pouco público, mas assim mesmo é vantajoso para quem trabalha nesta área, para quem investe. Não tem público hoje, mas tem amanhã. E as bandas locais conseguem ao menos levar uma galera para seus shows. As melhores bandas de Niterói nem sonham com uma cena dessas.”

Longe da perfeição, mas sem comparação

Claro nem tudo é a maravilha que se pensa em São Paulo, ao menos em relação aos shows menores. Não é por outro motivo que o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, divulgou dois manifestos recentes a respeito da dificuldade que bandas brasileiras de metal em geral encontram para tocar com regularidade, seja em São Paulo, seja no resto do país.

Os paulistanos do Kavla suaram bastante quando reformaram a banda, em 2005, para divulgar EP “Impersonal World”. Os santistas do Shadowside também tiveram de batalhar muito para conseguir tocar com regularidade em São Paulo entre 2006 e 2008. E assim caminha o esforço de quem faz rock de qualidade.

Os gaúchos do Holiness e do Hangar colhem agora o resultado de muito trabalho nos últimos três anos e têm conseguido um público considerado muito bom em shows em São Paulo, tanto na capital como interior, e no Paraná.

O Hangar atrai bom público com seus workshows (FOTO: ANTONIO ROSSA/DIVULGAÇÃO)

 O Hangar até conseguiu um onibus de turnê de um patrocinador para levar seus “workshows” a vários lugares do Brasil. Lamentavelmente, as aparições das duas bandas no Rio são cada vez mais raras. “No Rio, só workshop mesmo do Aquiles Priester (bateria), e para poucas pessoas. Show ou workshow não dá para programar”, disse um produtor paulista de bandas nacionais, que também prefere o anonimato.

Resignação

O tema é tão incômodo que os músicos carioca de rock e metal evitam falar no assunto. Pelo menos quatro artistas – de quatro bandas diferentes – foram procurados pelo Combate Rock para falar sobre o assunto, mas, educadamente, se esquivaram. Um deles apenas comentou resignado: “Se para ir a show legal tenho de ir a São Paulo, imagina então esperar por público para a minha banda…”

Das muitas conversas que tive nos últimos tempos com amigos jornalistas cariocas, com produtores e músicos ainda em busca de um espaço no mercado, deu para fazer um pequeno apanhado de explicações esparsas sobre o pouco público roqueiro no Rio – e só para registrar, foram pouquíssimos os que discordaram da minha tese:

– O Rio historicamente é uma cidade com diversidade cultural muito grande, assim como Salvador e Recife. Há atrações culturais regionais e locais em grande quantidade. Haveria, então de certa forma, uma autossuficiência neste quesito;

– Assim como Salvador e Recife, o Rio é uma cidade que tem praia, o que por si só já é uma atração e tanto. Muita gente fica muito tempo na praia, que um local de diversão gratuito e com estrutura, seja ela qual for, barata, ou até mesmo gratuita. As pessoas procuram ali mesmo por diversões culturais com baixo custo. Isso explicaria, de certa forma, o “ecletismo” do carioca, que teria menos preconceito em relação a ir a um show de rock e também a um de pagode. A questão é de cunho financeiro;

– O cosmopolitismo do Rio de Janeiro, tão acentuado como o de São Paulo, não foi suficiente para abrir espaço grande para o rock, que encontrou uma sólida cultura arraigada de samba e pagode – e o funk carioca dos morros surgiu para acentuar eesa característica. Para complicar ainda mais, são todos segmentos culturais que, se não são de baixo custo, apresentam custos bem menores do que o rock.

]- Um show internacional, por mais barato que custe, não sai por menos de R$ 50 no Rio. Por esse valor, o carioca médio assiste a pele menos cinco apresentações de artistas representativos de outros estilos – quando não esses eventos são gratuitos. Shows de metal de bandas brasileiras de qualidade não custam menos de R$ 30 o ingresso. As apresentações de bandas locais, por sua vez, têm dificuldade de concorrer com outras atrações de baixo custo, como ensaios de escola de samba ou rodas de samba em bairros importantes como Vila Isabel e Tijuca.

– Assim sendo, o ecletismo e a tolerância com várias manifestações culturais acabam prejudicando o rock. A cultura urbana do Rio, assim, teria sido direcionada culturalmente para valorizar as atrações locais e de baixo custo, enquanto que a cultura urbana paulistana, sem tantas opções “naturais”, abriu-se mais para o cosmopolitismo e para manifestações culturais estrangeiras com mais assiduidade.

Pode ser tudo isso ou nada isso, por mais que algumas explicações façam sentido. Ainda sigo em busca de uma explicação para o pouco caso com o rock na Cidade Maravilhosa. Alguém quer acrescentar algo?????????

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