Plebe Rude e a trilha sonora do nosso tempo

Estadão

22 de agosto de 2013 | 07h08

Marcelo Moreira

Nas ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo, era fácil ouvir músicas como “Até Quando Esperar” e “Proteção” embalando os protestos de junho, seja nas caixas de som ou nas vozes de milhares de manifestantes. Com orgulho de ser “alternativa” e de não fazer concessões, a banda Plebe Rude virou trilha sonora de jovens de uma geração que aprende na marra a fazer com que suas opiniões sejam ouvidas – e que também aprende muito com letras intensas e músicas agressivas de grupos que tinham bastante a dizer nos anos 80 – Inocentes, Cólera, Garotos Podres, Ratos de Porão e a própria Plebe Rude, provavelmente o expoente mais agressivo e intenso do rock de Brasília.

“Até que enfim! Tudo aquilo que cantamos e tocamos há 25, 30 anos se materializou nos protestos de junho. Não há como não ficar orgulhoso de as pessoas ouvirem e se identificarem com músicas que retrataram uma época intensa e importante politicamente, e que ainda continuam atuais, infelizmente”, diz um empolgado Philippe Seabra, guitarrista, vocalista e mentor da Plebe Rude, que está mais ativa do que nunca 32 anos depois de seu primeiro show.

Essa foi apenas uma das boas surpresas que 2013 reservou para o músico, que também produtor e compositor/criador de trilhas sonoras. Trabalho é o que não falta para Seabra, já que o quarteto de Brasília segue cada vez mais requisitado para shows. E as grandes novidades ficaram para 2014, com o lançamento até março do novo CD de músicas inéditas e o DVD com um documentário sobre a Plebe Rude.

Longe de ser irônico o fato de que o grupo viva possivelmente seu melhor momento em todos os sentidos, a Plebe Rude é a prova de que é possível sobreviver no selvagem mercado musical-fonográfico mantendo princípios éticos e coerentes, ainda que isto signifique caminhar à margem por muitos e muitos anos enfrentar uma trajetória conturbada internamente e os constantes litígios com gravadoras. O respeito e o reconhecimento são alguns do grandes prêmios de mais de 30 anos de dificuldades e de muita intensidade.

“A integridade tem o seu preço, mas jamais deixou de ser o nosso maior objetivo, o que nos deu credibilidade e valeu o reconhecimento do nosso trabalho e da importância da trajetória da Plebe Rude. Mesmo que houvesse intransigência entre os membros da banda, nunca houve o pensamento de mudar a postura”, diz o guitarrista.

A coerência e a integridade que sempre acompanharam a Plebe Rude estiveram presente nos dois projetos cinematográficos que Seabra participou nos últimos meses. Como um nome importante do rock brasiliense dos anos 80, atuou como consultor no filme “Somos Tão Jovens”, filme que narra parte da vida de Renato Russo, cantor da Legião Urbana, tendo como pano de fundo o rock da cidade. No filme “Faroeste Caboclo”, com roteiro inspirado na letra da música homônima da mesma Legião, ficou responsável pela elogiada trilha sonora.

Como consultor do longa-metragem dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, Seabra orientou atores, diretores e roteiristas sobre os fatos em que ele próprio participou, além de zelar pelas características do período e dos amigos retratados. “Foi importante a minha presença na produção. Pude esclarecer vários fatos e ajudar na caracterização dos personagens, mostrando exatamente como falávamos e que discutíamos para garantir a fidelidade. E, é claro, para mostrar como era a Plebe Rude naquele tempo. Foi instigante trabalhar na produção, até faço uma ponta.”

Em “Faroeste Caboclo”, fita dirigida por René Sampaio, Seabra se sentiu mais à vontade ao ser convidado para montar a trilha sonora. Produtor conceituado em Brasília e compositor respeitado de trilhas sonoras de produções nacionais, é responsável por alguns dos grandes trabalhos de bandas brasilienses desde os anos 90. Para embalar a saga romântica de Maria Lúcia e João Santo Cristo, procurou fugir do óbvio ao mesmo tempo em que imprimiu sua marca em um roteiro dramático e dominado pela tragédia.

Como ele mesmo diz, tentou evitar as coisas caricaturais, aproveitando elementos que foram usados nas criações de cada perfil dois personagens. As origens nordestinas de Santo Cristo, em certo momento, fizeram um contraponto com a vida classe média da amada, um mundo mais cosmopolita e com maior circulação de informações. Enquanto os temas acústicos predominam quando o personagem masculino é retratado, as guitarras aparecem com força no mundo de Maria Lúcia.

Com habilidade, Seabra manobrou os dois mundos, tornando a música parte integrante de quase todas as cenas principais – quando não uma autêntica personagem. “A trilha deu muito trabalho, tivemos de comprar fonogramas originais, inclusive com a inclusão de uma música punk inglesa Buzzcocks.   Queria situar as pessoas no tempo pela música. Claro que temos a cenografia, o figurino, mas a música também é importante. E acatei a decisão do diretor do filme de só usar a música ‘Faroeste Caboclo’ no final da fita.”

Mesmo difícil, a trilha foi bem divertida para o músico da Plebe Rude. Há uma versão de uma música do Aborto Elétrico, Tédio (com um T bem grande pra você)”, com uma banda que representa a primeira incursão de Renato Russo no rock – é a cena de uma festa em Santo Cristo entra – e também houve espaço para uma versão diferente do hit da própria Plebe, “Até Quando Esperar”, executada em outra festa. nada como revisitar a própria história e resguardar, na medida do possível, seus pontos de vista. “Fiz parte daquela história, era amigo de Renato Russo, creio que minha contribuição foi interessante.”

Plebe Rude: André X (esq.), Philippe Seabra (centro) e Clemente (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Terminada a maratona cinematográfica, Philippe Seabra se voltou para as mudanças administrativas na Plebe Rude. Com novo gerenciamento, agora a cargo da empresa Base 2 Produções, da empresária Monika Cavalera, a banda assinou contrato com um novo selo/gravadora, a Substancial Music, de São Paulo, que deverá se encarregar do lançamento do próximo álbum. Para 2015, há planos de convidar vários artistas para regravarem músicas da Plebe Rude, em uma espécie de CD tributo, além da regravação do mítico álbum “O Concreto Já Rachou”, que estará completando 30 anos de seu lançamento. Também está previsto o relançamento do último álbum gravado, “O R ao Contrário), de 2004.

Os projetos são vários, mas a vida plebeia continua no underground, como tem de ser, de acordo com Seabra. A cena rock mainstream não o interessa, até porque ele a considera “uma lástima”. “A cena independente é como se fosse uma volta aos anos 1980, mas sem a característica do som ou moda. No início dos anos 1980, não tinha mercado, não tinha perspectiva de viver de música. O que servia de motivação era a ânsia de se expressar. Ninguém pensava em ter uma carreira. Nos anos 90 a coisa mudou, as pessoas passaram a pensar só nas consequências: em quantos discos vendiam, em quantos shows faziam. Esqueceram da canção. Agora, com o falecimento da indústria, vejo um retorno desse espírito. As pessoas voltaram a ver a música com urgência, e só posso ficar muito feliz por isso. A música volta a ser o mais importante. É com esse espírito que vejo a Plebe Rude hoje, e é legal que somos referência para muitas bandas, e acredito que a entrada do Clemente (Nascimento, dos Inocentes) como segundo guitarrista em 2004 foi crucial para mantermos o pique e até mesmo para a banda continuar.”

 

 

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