Please Please Me: os Beatles nascem de verdade – parte 3

Estadão

31 de março de 2013 | 06h43

Irapuan Peixoto – site HQRock

As gravações começaram às 10h da manhã, com o produtor George Martin e o engenheiro de som Norman Smith, dupla que trabalharia com a banda pelos próximos três anos. Na sessão da manhã foram gravadas apenas duas canções. Começaram com There’s a place, canção reflexiva de Lennon, na qual canta e faz a gaita. Na verdade, a gaita foi deixada para depois e a banda executou os instrumentos tradicionais (duas guitarras, baixo e bateria), com a voz de Lennon e os backings de McCartney.

Lennon e McCartney se distinguiam por produzir o próprio material.

Lennon e McCartney se distinguiam por produzir o próprio material.

A segunda faixa foi a explosiva I saw her standing there, cantada por McCartney com Lennon no backing.

Na hora do almoço, o grupo decidiu não sair e permaneceu ensaiando enquanto os funcionários do estúdio foram lanchar em um pub da vizinhança.

Às 14h30, as gravações reiniciaram e a banda precisava correr, pois só duas faixas havia sido tentadas. A primeira foi uma valsa tipicamente britânica chamada A taste of honey, cantada por McCartney. Foi a única canção do dia que ganhou um overdub (sobreposição) de vocais, na qual McCartney cantou duas vezes e as vozes foram fundidas para ficar um resultado mais forte. Depois, voltaram a mais um número original, Do you want to know a secret?, de Lennon & McCartney, mas cantada por George Harrison.

Em seguida, veio uma parada para sobreposições. Além da citada A taste of honey, a banda gravou um acompanhamento de palmas para I saw her standing there e a gaita de There’s a place.

As canções propriamente ditas foram retomadas – já no fim da tarde – com Misery, outra balada de Lennon e McCartney, cantada em dueto. Houve uma pausa para o jantar e, agora, a banda parou para descansar um pouco.

Capa do compacto de Please please me na Itália.

Capa do compacto de Please please me na Itália.

A sessão noturna começou 19h30 com o R&B Hold me tight. Apesar das 13 tentativas, apenas duas ficaram completas. A banda ainda pensou em unir os takes 7 e 9 para formar uma só faixa, mas terminaram desistindo dela e passando adiante. Esta canção não entraria no disco, sendo regravada para o segundo álbum do grupo mais tarde.

A etapa final das sessões correu rápido, com gravações dos covers que o grupo escolheu para compor o disco. Como tocavam essas canções constantemente nos palcos, todas foram gravadas bem rápido: Anna (go to him) em apenas 3 takes; Boys, com vocais do baterista Ringo Starr em um único take; Chains em 4 takes; e Baby it’s you em 3 takes.

Nesta última, a voz de John Lennon já está bem falha, perceptível na versão final em sua rouquidão. Quando a terminaram, já eram 22h e estava próximo do encerramento das atividades do estúdio. Tinham meia hora para finalizar e faltava uma canção.

O grupo fez uma pequena pausa e foi com Martin e Smith à cantina do estúdio para discutir que canção seria esta e como fazê-la. Tinham dúvidas em qual escolher. A preferida da banda era Twist and shout, que havia sido gravada pelos Isley Brothers, mas na interpretação dos Beatles virara uma explosão de energia. Porém, era Lennon quem fazia os vocais principais e sua voz já estava comprometida.

John Lennon toca gaita em várias das faixas.

John Lennon toca gaita em várias das faixas.

O cantor, contudo, achou que deviam arriscar. Tomou mais pastilhas e bebeu leite para acalmar a garganta e toda a banda se concentrou para fazer o registro mais certeiro possível da canção que animava o final de seus shows. Cansados, mas concentrados, a banda fez a contagem e registrou uma única tentativa de Twist and shout. E é ela que se ouve no disco e nos aparelhos de som até hoje!

Com a voz rouca, Lennon apenas grita a letra a plenos pulmões de uma maneira incrível; McCartney e Harrison dão tudo de si nos poderosos backing vocals e Starr faz uma bateria forte e matadora. É uma gravação explosiva, cheia de energia e urgência, um dos melhores registros da história do rock e uma das interpretações mais famosas dos Beatles. E foi tudo feito ali, às 22h30 da noite, após um dia inteiro de gravações e em uma única tentativa. Preste atenção que ao final da canção ainda é possível ouvir Lennon tossindo longe do microfone.

Na verdade, a banda ainda arriscou um segundo take de Twist and shout, mas a voz de Lennon já havia sumido. Então, o take 1 foi usado mesmo.

No final das contas, foram 10 canções finalizadas em menos de 10 horas. Uma maratona.

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