Pérolas do guitarrista que recusou os Stones

Estadão

22 de outubro de 2010 | 08h12

Marcelo Moreira

A maior banda do mundo perde um de seus guitarristas em meio a uma maré de baixa criatividade e abusos hométicos de álcool e drogas. Apesar de o guitarrista “demitido” ser excelente e um prodígio, ninguém se preocupa. Afinal, são os melhores e qualquer outro instrumentista de altíssimo nível bateria na mãe para assumir o posto.

Só que um irlandês maluco recusou e preferiu ficar tocando blues com seu trio em palcos menos nobres no interior da Irlanda e da Inglaterra. E garantiu até o final de sua vida prolífica que não se arrependeu de descartar logo de cara o que ele chamou de “sondagem”.

Rory Gallagher é o nome da figura. A lenda diz que ele foi convidado a substituir Mick Taylor nos Rolling Stones na virada de 1974 para 1975. Keith Richards, o mestre das seis cordas da banda, estava irado com o que chamou de petulância de Taylor ao tentar “ensinar” aos outros membros como tocar.

 Após a saída pouco amigável do colega, afirmou a uma revista inglesa que a banda tinha convidado Gallagher. Posteriormente, desmentiu e disse que os empresários dos Stones apenas fizeram uma sondagem. O irlandês nunca gostou de tocar no assunto. Sempre afirmou que foi apenas sondado, mas em algumas vezes disse que recebeu um convite formal de Mick Jagger.

O maluco mas virtuoso guitarrista Rory Gallagher, um dos maiores talentos subestimados do rock, ganha uma justa homenagem neste mês com o lançamento de uma preciosidade: “The Beat Club Sessions” é uma reunião de algumas das participações de Gallagher no famoso programa de televisão alemão, que esteve no ar entre 1965 a 1972 recebendo bandas como The Who, os próprios Rolling Stones e o Led Zeppelin para apar~ições ao vivo.

O guitarrista apareceu quatro vezes entre 1970 e 1972, sendo uma delas com sua primeira banda, o Taste. Logo abandonou o grupo para encarar a carreira solo, embora fosse tímido ao extremo. E a compilação capta o melhor das perfomances de Gallagher, que era muito melhor ao vivo – ouça e adquira de qualquer forma os álbuns “Live in Europe”, de 1972, e “Irish Tour”, de 1974.

As perfomances ao vivo foram elogiadas poer gente como Ritchie Blackmore e Roger Glover, do Deep Purple, Rod Stewart e Ron Woods, dos Faces (este último herdaria a vaga nos Stones) e por Pete Townshend, do Who. eEa um guitarista de poucos efeitos, mas de muito feeling e muita energia, com um conhecimento absurdo de timbragens e amplificadores.

Foram 16 álbuns em 30 anos de carreira, desde o surgimento do Taste, em 1965, até a sua morte, em 1995, causa por uma infecção hospitalar após um malsucedido transplante de fígado – era um beberrão de primeira e alcoólatra assumido.

Quando de sua morte, a revista Rolling Stone norte-americana colheu alguns depoimentos de músicos não muito importantes na história do rock: “Rory foi um dos grandes guitarristas de todos os tempos e um grande cavalheiro, uma pessoa muito simples”, declarou Bono Vox, líder do U2, outra banda irlandesa.

Correm pela internet textos com versões de uma suposta declaração de Jimi Hendrix a respeito do irlandês maluco. Ninguém nunca atestou a veracidade, mas é excelente com lenda. Após a apresentação de Hendrix no Festival da Ilha de Wight de 1970, que também teve o Taste atração, um repórter perguntou: “Como é a sensação de ser o melhor guitarrista do mundo?” Hendrix não perdeu tempo: “Eu não sei. Vá perguntar a Rory Gallagher.”

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