Paul McCartney revisita as suas origens

Estadão

25 Fevereiro 2012 | 23h05

Roberto Nascimento

Dizem, dos grandes atores, que são tão bons que teríamos prazer em assisti-los lendo uma lista telefônica. É mais ou menos esta a sensação que se tem ao ouvir Sir Paul navegar pelo cancioneiro tradicional norte-americano em Kisses on the Bottom, seu 15º álbum solo. Não há nada de especial nos arranjos destes clássicos de Harold Arlen, Cole Porter e Fats Domino: a guitarra é mansa, as escovinhas do baterista são bem-educadas, as cordas vibram com polidez cinematográfica. Tudo é tão padronizado que se McCartney desse um cano no dia da gravação, poderiam chamar Rod Stewart para cobri-lo.

Mas é impossível ignorar o carisma com que Paul veste suas sílabas ao cantar I’m Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter. Isto talvez seja porque sua voz, mesmo fragilizada pela idade, está embutida em nosso inconsciente coletivo, integra o DNA da música pop.

Assim, a impressão que fica, e que blinda Paul de críticas negativas, é de que há um carinho sincero pelas melodias – separado por anos, o mesmo carinho em Bye Bye Blackbird, que o da gravação de Blackbird. São canções escolhidas por serem as preferidas do músico em sua infância, e ouvi-lo cantá-las nos faz refletir sobre suas influências.

O blues e a síntese melódica das canções da Broadway, que são ecos tão constantes no cancioneiro dos Beatles. Fora este apreço pela tradição, um solo de gaita por Stevie Wonder e uma guitarra de Eric Clapton, não há muito mais o que se esperar de Kisses on the Bottom. Mas Paul nada tem a nos provar.

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