Paul McCartney, careta e carente

Macca virou mesmo um saudosista carente. Este vovô de 68 anos, mais disposto que muito moleque, quer mais é encher estádios de famílias e ser aceito pelo grande público que cantarola Hey Jude. Mas o bom e velho fã merecia ouvir seus rocks de primeira e baladas sem a sensação de déjà vu

Estadão

13 de agosto de 2010 | 08h24

Lúcia Camargo Nunes

Neste primeiro post no conceituado blog “Combate Rock” peço licença para uma breve apresentação. Nasci nos anos 70, no meio da febre do rock progressivo e pop. Aos 12, descobri na coleção do meu irmão o bolachão ‘Venus and Mars’ de uma banda bem anos 70 chamada Wings. Até eu descobrir que aquele carinha ali foi dos Beatles e daí para curtir o quarteto foi um pulo. Cresci ouvindo Beatles, além de obras solos de Paul McCartney e George Harrison.

Tive a sorte e o privilégio de assistir a todas as apresentações de sir Macca no Brasil – dois shows do Maracanã, um no Pacaembu e outro em Curitiba. Em 2005, fui a dois shows em Boston e, no ano passado, me aventurei em Nova York quando ele reinaugurou o estádio dos Mets – o lendário Shea Stadium.

Pois bem. Foram seis shows de Paul McCartney, um modesto currículo. Pouca coisa, mas o suficiente para lamentar boa parte do repetitivo repertório nesses 20 anos. Se você comprar um CD ao vivo dos anos 90 ele estará bem parecido com o material de NY do ano passado.

Com tanta música bacana na bagagem, de hits a desconhecidas, passando por faixas ‘lado B’ excelentes dos Beatles e carreira solo, por que o cute beatle insiste em manter aquele repertório digno de bandas cover? Desde os anos 90 ele não deixa de tocar Let it Be, Yesterday, The Long and Winding Road, Get Back e Hey Jude, entre outros superhits, nas suas turnês. De uns tempos para cá, metade do show é de canções dos Beatles, parte de hits de Wings (Jet, Band on the Run e Live and Let Die) e pouca coisa atual.

Para quem acompanha sua carreira sabe que há preciosidades recentes – o álbum de 2005 ‘Chaos and Creation in the Backyard’ é uma verdadeira obra-prima – e outras nem tão conhecidas, porém excelentes, que poderiam ser exploradas nessas apresentações. 

Macca virou mesmo um saudosista carente. Este vovô de 68 anos, mais disposto que muito moleque, quer mais é encher estádios de famílias e ser aceito pelo grande público que cantarola no melhor estilo ‘chaleira’ o refrão ‘nãnãnãnã’ de Hey Jude: ‘Agora só as mulheres… nãnãnãnã, hey jude… agora quero ouvir só os homens… e agora vamos todos juntos.’

Claro, para quem gosta, encontrá-lo tão perto vale a pena até se ele não abrir a boca (eu já fiz isso, contarei numa próxima oportunidade). Mas acho que o fã, aquele que o conhece tanto que se sente no direito de criticar, merece vê-lo fazendo rock de primeira e baladas encantadoras sem a sensação de déjà vu.

Esta é a primeira música da atual tour: Venus and Mars/Rock Show. Isso sim é seu velho e bom rock’n’roll! (filmado por fã em Los Angeles, 30/3/2010)

Tudo o que sabemos sobre:

BeatlesPaul McCartney

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: