Pagando pouco, coma bem e curta ótimo jazz em New Orleans

Estadão

24 Fevereiro 2013 | 18h32

de O Estado de S. Paulo

Esta prometia ser a viagem econômica mais fácil de todos os tempos: cinco dias com comida barata, bebida mais ainda e música de graça na amigável – também para bikes – New Orleans. Para facilitar o desafio, me proibi de gastar dinheiro no French Quarter, o bairro mais turístico do destino, até mesmo durante o aquecimento para o Super Bowl, que a cidade sediou no dia 3 de fevereiro, e no Mardi Gras, em 12 de fevereiro.
Mas, como eu aprendi logo, havia uma pegadinha. Mais de sete anos após o furacão Katrina, a cidade está cheia de bairros vibrantes, cada um com seu próprio conjunto de atividades de baixo custo. Fiquei hospedado no TheLookout Inn, um pequeno e agradável hotel na área de Bywater, a uma curta pedalada do agitado French Quarter. Usando uma bicicleta e, em seguida, um carro (choveu boa parte do tempo em que eu estive lá), achei fácil se locomover pelo destino.

O desafio era me encaixar em todas as atividades disponíveis. Meus dias assumiram um ritmo empolgante, mas frenético: começando, por exemplo, com um prato de beignets locais de US$ 2 em Park City, antes de correr para saborear um Martini de US$ 0,25 durante o almoço no Garden District para, mais tarde, me deleitar gratuitamente com a música hipnotizante do trombonista-estrela do bairro Marigny.

Talvez, então, o melhor seja separar meus favoritos nas três categorias que New Orleans se destaca: comida, cultura local e, obviamente, música, por onde começarei. Trilha sonora. Seria difícil imaginar que, nesta cidade de músicos lendários, a protagonista da minha viagem seria uma estação de rádio, a onipresente Wwoz FM. Ela me foi recomendada no meu primeiro dia na cidade, e rapidamente a percebi em todos os lugares. Qualquer cantinho com um rádio parecia sintonizado na frequência, era a estação favorita de todos com quem eu conversei. Logo tornou-se a minha também.

Eu bem que poderia ter planejado minhas noites com base nas playlists da Wwoz (que são lidas no ar e também estão disponíveis online), mas já estava acompanhando as dicas de Jay Mazza, escritor de música que cobre a cena local para o blog thevinyldistrict.com.

Seu primeiro conselho foi valioso: pagar couvert artístico muitas vezes vale a pena em New Orleans. Desembolsei US$ 10 na minha primeira noite, em um show em prol da reconstrução de uma igreja que havia desabado, no antigo bairro de Irish Channel. Além de ajudar na renovação do lugar, a quantia também me permitiu escolher entre três bebidas: vinho, cerveja ou coquetel com rum. No palco, um cantor e tocador de ukulele chamado Philip Melancon apresentava versões engraçadas de melodias clássicas. “Ele conta o número de grisalhos no salão e toca músicas que vão conhecer”, me disse uma mulher.

Mas o melhor show que eu vi não me custou nada. E foi naquele que deve ser o melhor palco de New Orleans, o Three Muses (thethreemuses.com), na Frenchmen Street , em Seventh Ward, pertinho do French Quarter. Por quê? O lugar é intimista, mas não lotado. E o artista era Glen David Andrews, trombonista familiar para a maioria dos moradores e fãs da série Treme, da HBO – mas não para mim. Vestido impecavelmente com um terno bege de três botões, empolgou a multidão com tanta delicadeza quanto seu instrumento.

Em certa hora, ele disse: “Meu nome é Wynton Marsalis”, fazendo todos rirem. Me virei para o cara ao lado e perguntei: “Quem é esse cara?”. Ele respondeu: “O melhor intérprete de New Orleans”. E eu: “Então, por que toca de graça?”. Eis que me diz: “Porque aqui é New Orleans”.

Glen David Andrews arrasando no Three Muses

Glen David Andrews arrasando no Three Muses – Reprodução

Na verdade, até o final do show eu havia gasto US$ 22 , sendo US$ 5,50 pela India pale ale da cervejaria Nola Brewing Company, US$ 1,50 de gorjeta e US$ 15 pelo CD do Andrews, Live at Three Muses.

E eis que chegou domingo, minha última noite na cidade. Comecei num bar alternativo chamado Basin Street Lounge, onde um homem barbudo conhecido como Big Chief Darryl Montana conduzia a tribo dos Pocahontas amarelos com seu tambor num ensaio para o Mardi Gras. Foi um achado também graças a Jay, pois tudo que envolve a tradição indígena do Mardi Gras é difícil de encontrar.

Do Basin Street Lounge segui para a Frenchmen Street, onde a banda The Palmetto Bug Stompers tocava num bar chamado d.b.a. (dbabars.com). Uma festa particular havia sido realizada ali horas antes, então não apenas não tinha couvert artístico como o bufê com aperitivos de carne de porco, cozido de frango e cookies de chocolate era à vontade. Jantar grátis!

Em seguida, minha última parada envolvia uma viagem ao norte da cidade, até uma casa de shows chamada Maple Leaf (mapleleafbar.com). Ali, as noites de domingo significam show do The Joe Krown Trio, que toca R&B e funk, com a participação do guitarrista Walter “Wolfman” Washington, de 69 anos. Nada menos que “o último de uma geração”, segundo Jay.