Os vampiros atacam São Paulo na Virada Cultural

Estadão

20 de maio de 2013 | 22h00

Marcelo Moreira

São Paulo foi atacada por vampiros na madrugada de 18 para 19 de maio de 2013, coincidentemente durante a realização da Virada Cultural paulistana mais violenta das últimas quatro edições. É o que é possível interpretar dos vários textos ideologizados e repletos de fantasia escritos e disseminados pela internet por gente que defende a atual administração atual do PT e por gente que defende incondicionalmente o partido, mesmo que isso torture e estupre os fatos e as notícias.

Para muitos destes, os problemas foram localizados “entre 1h e 5h” do dia 19 de maio, e foram “pontuais” (houve ser execrável que teve coragem de escrever tal coisa) e que, em um universo de milhões de pessoas, até que o evento saiu “no lucro”… ou seja, quem não foi furtado, agredido, roubado, espancado, esfaqueado ou morto saiu no lucro por ter sobrevivido aos “vampiros” e ter chegado ileso em casa. E ninguém avisou que estavam filmando os seriados norte-americanos “True Blood” e “Walking Dead” na capital paulista…

A reclamação desse povo equivocado e enviesado – de forma deliberada? – é que os principais jornais da cidade, assim como TVs e portais de internet, bem como emissoras de rádio, destacaram a violência ocorrida durante o evento. Para esse tipo de gente, “só duas mortes e alguns furtos” acabaram sendo um “golaço” a favor da Virada e da administração, como chegou a escrever um cidadão desprovido – momentaneamente? – de bom senso.

Afinal o que são duas mortes, mais de 30 feridos, incontáveis brigas generalizadas e dezenas de arrastões quando se observa que “4 milhões de pessoas” estiveram na Virada Cultural? E como é curioso ver que essa mesma gente de orientação esquerdista, que sempre defendeu incondicionalmente o partido do prefeito de São Paulo e que sempre metralhou o uso indiscriminado da estatística – na maioria das vezes com razão – agora usa a mesma estatística para rebater as críticas aos problemas graves do evento.

A Virada Cultural não foi um desastre, mas esteve anos-luz de distância de ter sido um sucesso. Um evento onde gente morre, espectadores são agredidos, assaltados e furtados com frequência preocupante, entre outros delitos, jamais pode ter sido considerado nem ao menos razoável. E isso tudo foi admitido pelo prefeito da cidade e pelo secretário municipal de Cultura.

A organização não foi boa, assim como o esquema de segurança foi péssimo, como foram relatados pelos repórteres do Estadão, Estadão.com, Folha de S. Paulo, UOL, Diário de S. Paulo, IG, Terra, revista Rolling Stone Brasil e emissoras de rádio – e, para desespero dos defensores do evento e da atual administração, até mesmo pela emissora de televisão “hegemônica” e que apoiou a Virada e ajudou a massificar o evento. Os principais tejejornais de segunda-feira da mesma emissora cobriram o evento e desatacaram os graves problemas e segurança.

De forma oportuna, vereadores de oposição ao PT na administração municipal cansaram de exigir a extinção do evento por conta “da violência” – a mesma violência que está descontrolada por contra da péssima gestão da péssima administração do péssimo PSDB no péssimo governo do Estado de São Paulo liderado pelo inominável Geraldo Alckmin. Esqueçamos essas bobagens e as motivações desses seres que não merecem o mínimo respeito.

A continuidade ou não da Virada Cultural precisa ser discutida com seriedade. Sua extinção deve sim ser levada em consideração face aos problemas de incompetência na organização e de incapacidade do poder público – prefeitura e governo do Estado – de garantir a segurança da população. Os mesmos problemas ocorreram em 2007, 2011 e 2012, mas em 2013 atingiram proporções alarmantes.

A ideologização de qualquer discussão relevante é o primeiro passado, atualmente, para destituí-la de qualquer relevância. Não faltaram equivocados úteis para bradar contra o preconceito de cor e de geografia por parte da suposta “classe média” paulistana.

“Pregar o fim da Virada Cultural é um preconceito enorme contra a população da periferia, ignorada e carente de opções de lazer e cultura, que quando tem uma oportunidade de curti algo de graça é estigmatizada”, escreveu um dos equivocados úteis que adoram aplicar aquilo que  leram em alguma orelha de livro ruim de sociologia até mesmo em briga de vizinho ou de torcidas organizadas de futebol.

O fato é que a “população da periferia, ignorada e carente de opções de lazer e cultura” foi tão vítima da violência quanto outros supostos grupos sociais – se é que para sociologizar a questão em termos rasteiros… Essa mesma população correu tantos riscos quanto todos os outros grupos de habitantes que pretenderam assistir na paz a um show ou evento cultural.

Nas redes sociais há fartura de relatos de vítimas da violência e de quem presenciou arrastões e assaltos, bem como espancamentos de pessoas indefesas por grupos alucinados. Houve gente que nem conseguiu sair da estação de metrô por volta das 20h30 de sábado, dia 18, por conta das brigas, vandalismo e destruição gratuita. Esse pessoal deu marcha à ré e voltou casa.

Quando parte da população, ainda que não seja a expressiva maioria, é impedida de ir à festa por conta de problemas graves de segurança – que muitos engajados insistem em ignorar -, a festa não é completa. Pelo contrário, não cumpriu a sua função. Quando arrastões foram a tônica dos problemas, e sem que a PM esboçasse reação, é porque o evento não só não cumpriu a função primordial, mas representou risco considerável a quem foi participar.

A segurança deve ser o tema principal das discussões sobre a continuidade do evento ou não. Qualquer outro elemento é secundário.

Quando um deputado federal petista tem de subir ao palco e implorar, por meio de música, para que lhe devolvam o celular e a carteira, esse evento não pode ter sido um sucesso – pelo contrário. Quando um cantor de rap famoso, da periferia brava da zona sul,  chega a elogiar, ainda que bem de leve, a polícia e critica quem promovia badernas só pro “zoeira”, não dá para considerar que o evento deu certo.

 

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