Os dois lados de Lee Ranaldo, um herói alternativo

Estadão

17 de julho de 2013 | 07h00

ROBERTO NASCIMENTO – O Estado de S.Paulo

      Violão fez Lee retomar a verve de compositor - Divulgação

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Violão fez Lee retomar a verve de compositor

A canção e o conceito são vertentes que o guitarrista Lee Ranaldo, formado em artes visuais, explora paralelamente desde que o Sonic Youth decolou e chegou ao mainstream durante o boom de bandas alternativas liderado pelo Nirvana, no início dos anos 90. “Me interesso bastante pela polarização entre o popular e o experimental, entre o concreto e o abstrato”, conta Ranaldo, que já publicou diários de viagem, livros de poesia (um deles baseado na linguagem spam que pragueja nossas caixas de e-mail) e uma série de obras audiovisuais em parceria com sua mulher.

O lado músico, no entanto, continua falando alto, e a linguagem básica e despretensiosa de Between the Times é fruto de um interesse renovado pela simplicidade da canção e de suas roupagens folk e alternativas. “Fiz o disco quando a banda estava em recesso, antes do problema da Kim e do Thurston vir à tona”, conta Ranaldo por telefone, de Halifax, Nova Escócia, quando o repórter pergunta se suas ensolaradas excursões resultam de uma saudade do Sonic Youth. “Queria fazer um disco acústico, mas as canções tomaram proporções maiores, saímos em turnê, e acabamos fazendo outro com a banda que está na estrada. Este sai em outubro, mas já incluímos a música nas apresentações”, completa.

A amplificação de Between The Times and the Tides, originalmente um disco acústico, aconteceu quando Ranaldo juntou-se a Steve Shelley, baterista do Sonic Youth, John Medeski, do trio Medeski Martin & Wood, e Nels Cline, guitarrista do Wilco – entre outros. São todos parceiros de outros projetos, que contribuem à precisão veterana do disco. O processo de composição, entretanto, foi improvisado, sem diretrizes, e guiado por um reencontro com o violão, um approach que destoa dos outros discos de Ranaldo, em que explora sons abstratos e gravações ambientes.

“Enquanto planejava Between the Times, redescobri o violão aos poucos. Muito do prazer de compor está em descobrir ou redescobrir algo. Arriscar uma nova afinação, ou tocar o material com a banda para ver o que acontece”, diz. Diferentes formas de afinar a guitarra são marcas registradas do Sonic Youth, que longe de serem teóricos, compuseram memoráveis canções em meio às digressões vanguardistas. Para Ranaldo, trocar a afinação traz um frescor à música, como reembaralhar uma série de cartas para enxergar um jogo de tranca de outra forma. “Às vezes você troca uma afinação, ou toca em um novo instrumento, e encontra uma canção imediatamente por causa da mudança”, diz.

No violão, em modo solo, isto funciona assim como aconteceu no Sonic Youth, por três décadas. “Nosso trabalho com a guitarra sempre foi de manipular os sobretons da música através da microfonia e das texturas do volume alto. Com o violão, isto acontece da mesma forma, mas em uma escala muito mais íntima. As tonalidades são mais claras e limpas. Há um intimismo que eu realmente prezo em termos de poder sentar na varanda e dedilhar alguma coisa”, conta. A capacidade de compor um disco inteiro pensando em um instrumento e jogar tudo fora ao entrar no estúdio retrata a flexibilidade criativa de Lee Ranaldo. No caso de seus interesses multidisciplinares, o fluxo se dá de forma simbiótica entre música, filme e poesia.

“Meu trabalho bebe de diversas fontes, e estas fontes se alimentam”, reflete o artista, que acaba de encerrar uma residência artística na Nova Escócia. “Por exemplo, o resultado das performances tende a ser extremo. São ideias que eu e minha mulher dividimos há muito tempo, ideias que vem de filmes e do uso de palavras em uma forma drástica, confessional, como em um diário. É abstrato mas também é bem pessoal. E isso acaba influenciando as letras das canções”, explica.

Aos 57 anos, casado e com três filhos, Lee Ranaldo permanece ativo em uma era que enxerga sem o ressentimento comum entre roqueiros veteranos. “Quando comecei, não era pela grana. Ficamos famosos, a indústria ficou saturada por um tempo, havia muito dinheiro, mas isso acabou. Mesmo assim, ainda é possível ganhar dinheiro com shows porque voltamos para o velho modo dos menestréis itinerantes. E, por um lado, isto é bom. Hoje em dia há tantas bandas novas que isso torna algumas delas mais marginais. A dificuldade de chegar a um número grande de pessoas contribui para uma comunidade underground e para a criatividade destas bandas”, diz.

AGENDA

– Lee Ranaldo and the Dust
O guitarrista toca seu último discoBetween the Times and the Tides junto a Steve Shelley, parceiro do Sonic Youth. Em entrevista, prometeu canções de um novo disco, fruto de sua convivência com a banda, que será lançado em outubro (dias 18, 19 e 20 do 07, no Sesc Araraquara e no Sesc Pompeia).

– Lee Ranaldo e Leah Singer: Sight Unseen
Na semana seguinte, nos dias 23 e 24, Ranaldo mostra uma de suas colaborações audiovisuais com sua mulher, Leah Singer, no auditório do Sesc Pompeia. A performance inclui uma guitarra pendurada em movimentação circular, que emite ruídos em frente a uma série de imagens de vídeo concebidas pelo casal.

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