Os 20 anos do blues pesado do Gov't Mule

Estadão

03 de julho de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

Hard blues. Isso existe? Sim, e quem inventou foi a banda norte-americana Gov’t Mule, provavelmente a maior novidade da música daquele país surgida nos anos 90. Um guitarrista fantástico e experiente, um baixista grande e de mão pesada e um baterista insano, mas preciso como um relógio. E o trio surpreendeu com uma excitante mistura de blues e rock, algo tão importante quanto o surgimento de Stevie Ray Vaughan nos anos 80.

O Gov’t Mule completa 20 anos de surgimento cada vez mais forte, mais versátil e mais interessante. Nasceu de dentro dos míticos Allman Brothers, veteraníssima banda de southern rock norte-americana. Amicíssimo do líder, o vocalista e tecladista Gregg Allman, Warren Haynes, rodado músico sulista, aceitou tocar na banda no final dos anos 80, mas começou a ficar incomodado coma a falta de espaço para suas composições e para cantar.

Excelente guitarrista base e com um feeling blueseiro assustador, começou a gestar uma carreira solo ainda em 1990, com a bênção do amigo. Sua Warren Haynes Band, no entanto, só conseguiu lançar um álbum em 1992, com “Tales Of Ordinary Madness”, sem grande repercussão com a sua mistura de rock, conuntry, folk e blues.

Irritado com a recepção fria de seu álbum e cada vez mais frustrado com os Allman Brothers, decidiu radicalizar: queria extravasar todas as suas influências em um som diferente, característico e pesado, calcado no blues. Chamou o companheiro de Allman Brothers Allen Woody, exímio baixista, e um conhecido distante, mas muito bem recomendando, o baterista maluquete Matt Abts.

Os primeiros ensaios do trio em 1993 deram tão certo que tudo foi acelerado: os primeiros shows, as primeiras gravações e as primeiras turnês, além da inevitável saída dos músicos dos Allman Brothers, mas sem ressentimentos – Warren Haynes voltaria a ser um dos guitarristas fixos do grupo em meados dos anos 2000, ao lado do pupilo Derek Trucks, sobrinho do percussionista Butch Trucks. Derek sempre manteve uma carreira solo desde que tinha 17 anos de idade.

Formação atual da banda: da esq. para a dir., Danny Louis (teclados), Matt Abts (bateria), Warren Haynes (guitarra e vocais) e Jorgen Carlsson (baixo) (FOTO; DIVULGAÇÃO)

Mesmo com o projeto crescendo rápido, a banda mesmo só percebeu o potencial do que estava acontecendo em 1994, quando finalmente foi batizada de Gov’t Mule, uma abreviação de Government Mule, alusão ao decreto do governo norte-americano do século XIX que oferecia ajuda a todo americano que quisesse colonizar o oeste do país –  com verbas para comprar uma mula e um pedaço de terra.

A velocidade com que as coisas aconteciam, entretanto, não foi suficiente para lançar um CD antes de 1995. Mas foi a melhor coisa que  ocorreu ao trio. “Gov’t Mule”, lançado em meados daquele ano, foi uma pedrada e considerado entre os dez melhores do ano de quase todas as revistas de rock e blues dos Estados Unidos.

O álbum definiu o hard blues, com músicas muito pesadas, com baixo com timbre grosso e “gordo” e bateria forte e marcante. Frequentemente o trio esbarrava no hard rock setentista, com muito peso e melodia, como na faixa “Mr. Big”, original da banda inglesa Free. Ou então na pesadíssima “World of Difference”.

O blues tradicional apareceu com “Mother Earth” e seu peso absurdo, com uma levada de guitarra típica de Jimmy Page (ex-Led Zeppelin). O jazz aparece nas suingadas “Mule” e “Rocking Horse”.

Com sucesso crescente, virarma referência para uma série de artistas norte-americanos e seus shows se tornaram imensas jam sessions, com a presença constante de estrelas do rock. De tão gente boa que são considerados, ninguém consegue recusar um convite para gravar.

Basta ver a constelação de baixistas convidados para tocar nos projetos “Deep End I” e “Deep End II”, lançados após a morte de Woody. Os dois álbuns, cada um duplo, contam com um baixista diferente em cada faixa. tocara, entre outros, Chris Squire (Yes), Jack Bruce (ex-Cream), John Entwistle (Who), Jason Newsted (então no Metallica), Roger Glover (Deep Purple), entre muitos outros, além do guitarrista James Hetfield na música “Drivin’ Rain”.

O substituto definitivo de Woody foi Andy Hess, conhecido músico de estúdio, mas também com passagens importantes na estrada com bandas de rock e jazz. Junto com ele veio Danny Louis, tecladista com larga experiência no meio musical do leste americano. Hess seria substituído seis anos depois por Jorgen Carlsson.

Como quarteto, o Gov’t Mule ganhou em técnica e expandiu os horizontes, apostando mais no jazz, no rhythm and blues e até mesmo no reggae. Tais influências ficaram patentes nos CDs “Déja Voodoo” (2004) e “HIgh and Mighty” (2006).

Os fãs em geral começaram a chiar com os experimentalismos – que cultminaram no álbum de remixes e músicas inéditas com tratamento reggae “Mighty High” (2007) e o grupo resolveu voltar às origens. Andy Hess, considerado muito técnico e jazzístico, deixa a banda para a chegada de Jorgen Carlsson, que tem o boues como uma das principais influências.

Prolífico em registrar shows, é possível comprar no site da banda milhares deles, em qualquer lugar do mundo. Existem também os álbuns ao vivo, um melhor do que o outro. “Live at the Roseland Ballroom” é de 1996, e “Live With a Little Help From Our Friends” é um CD duplo sensacional lançado em 1998 – na versão de luxo, é um CD quádruplo.

“Mullenium” é outra pérola, lançado em 2010, mas contendo o último concerto de ano novo de Allen Woody, na virada de 1999 para 2000. O mais recente lançamento ao vivo é “The Georgia Box”, com três CDs duplos gravados naquele estado norte-americano, considerada a casa da banda.

Com mão grande e timbre “gordo”, foi o baixista ideal para reeditar o clima de blues pesado dos anos 90. Os fãs agradeceram.

Como curiosidade, o Gov’t Mule tocou em São Paulo em 1996, no festival Nescafé Blues, na casa que então se chamava Palace. Quem assistiu não esquece o trio de caipiras simplórios fazendo um som à la Led Zeppelin, mais lento, mas muito pesado e suingado.

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