Obra-prima de Marvin Gaye é relançada

Estadão

13 de agosto de 2011 | 23h00

Bento Araujo – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

Crimes e pobreza nas grandes metrópoles, ecologia, guerra, drogas, falta de emprego – a temática de Marvin Gaye em What’s Going On permanece atual como nunca. O frescor e o teor humano de sua obra continuam intactos, como demonstra a ‘super deluxe edition’ que acaba de ser lançada no mercado internacional pela Universal.

São dois CDs que trazem o disco original remasterizado, 14 faixas inéditas, outtakes, demos, versões mono, jams instrumentais e outras preciosidades da época. Além do impecável livro contido neste boxset, a menina dos olhos dos colecionadores e completistas é um elepê, trazendo o rejeitado Detroit Mix original de What’s Going On.

Berry Gordy, o todo poderoso da Motown, fez de tudo para arruinar um dos maiores clássicos da soul music. Enquanto isso, Marvin, um dos nomes mais importantes do selo, lutava por liberdade criativa. Para demonstrar seu descontentamento cultivou barba e deixou de lado os terninhos impecáveis.

A inesperada e trágica morte de Tammi Terrell, sua parceira musical, sacudiu Marvin em 1970, assim como o convívio com seu irmão, recém chegado dos horrores do Vietnã. Era preciso repensar a vida, a carreira.

Unir o ideal e a visão hippie daquele árduo tempo com o estilo mais polido e careta da Motown era missão para poucos. Quando Marvin comunicou Gordy sobre o seu desejo em lançar um álbum recheado de canções de protesto, algo que refletisse as rupturas da sociedade norte-americana, o clima fechou.

Usar temática bicho grilo com camadas de orquestrações e vozes seria um fracasso, algo estranho demais às fãs de Gaye até aos hippies que vinham curtindo as guitarras psicodélicas dos últimos discos dos Temptations.

What’s Going On acabou sendo lançado em maio de 1971 nos EUA e em setembro do mesmo ano na Europa. O título era uma homologação, não uma questão. Marvin sabia de tudo. Questionar seria desnecessário. Seu ar observador na capa do disco remete pura indulgência – uma chuva gelada cai em seu rosto moldado pela gola do casaco.

O criativo balanço entre as preocupações pessoais e públicas de Gaye em forma de disco foi uma afronta, já que a Motown estava acostumada a singles de sucesso e muitos dólares. Aqui, as canções eram grudadas umas nas outras.

 Longas, ratificadas, exigiam redobrada atenção do ouvinte. Foram executadas com maestria ímpar por session players da Motown, um dream team que incluía veteranos dos Funk Brothers como James Jamerson e Bob Babbitt no baixo, Joe Messina e Robert White nas guitarras, Earl Van Dyke no piano e Jack Ashford na percussão.

Marvin, influenciado pelos sopros divinos de Lester Young, cantou de maneira mais relaxada, libertina, quase desregrado em sua conduta. Brincou ao sobrepor magistralmente suas próprias vozes. Produziu tudo sozinho e entregou um arquivo zipado para Gordy, que rejeitou o lançamento de imediato. Marvin insistiu, e nessa confusão, quase um ano se passou até What’s Going On finalmente chegar às lojas.

Quarenta anos depois, as comemorações não param. Amanhã acontece em Los Angeles um super concerto chamado Global Soul, onde Stevie Wonder, Rickey Minor, Sharon Jones, Janelle Monáe, Grace Potter, Charles Bradley e muitos outros celebrarão os 40 anos de What’s Going On.

Não é à toa que quando estava trabalhando no disco, Gaye disse a Smokey Robinson: “Deus está escrevendo este álbum, é como se Ele estivesse trabalhando através de mim…” Será que é por isso que What’s Going On é considerado o Pet Sounds, magistral e histórico álbum dos Beach Boys, da soul music?

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