O vazio pleno de Patti Smith

Estadão

17 de junho de 2012 | 15h00

Jotabê Medeiros

“Banga”, primeiro disco de canções originais de Patti Smith em 8 anos (desde Trampin’, de 2004), tem canções dedicadas a Amy Winehouse e Johnny Depp. A capa é uma citação de um disco seminal de Neil Young, After the Gold Rush. Há referências intelectuais ao cineasta Tarkovsky e aos escritores Gogol e Bulgakov. Também tem como convidados o lendário guitarrista do Television, Tom Verlaine, e mais Jack Petruzzelli e os filhos de Patti, Jackson e Jesse Paris.

Quem não conhecesse Patti Smith, pensaria que ela está em busca de turbinar sua música com alguns nomes hypados, mas é uma doce ilusão. É na canção-título, Banga, pontuada por uivos caninos, que está a chave da coisa.

Ela conta que se viu frente à canção-título após ler The Master and Margarita, romance do russo Mikhail Bulgakov. No livro, um cão senta-se junto a Pôncio Pilatos e dialoga com ele. Ela então desenvolveu seu tributo “ao cachorro mítico que esperou 2 mil anos para merecer uma canção”.

Banga se converteu numa visionária junção de sua condição atual (de mulher cujos amores e cujas batalhas todas foram vividos e vencidas), artista em busca do equilíbrio entre o caos de suas memórias e a elevação espiritual de sua vitória. Johnny Depp toca guitarra na faixa. O disco é um emaranhado de referências, especialmente literárias. “As duas coisas que constantemente me inspiram são livros e viagens”, conta a cantora.

Poeta, memorialista premiada, fotógrafa, compositora, cantora, ativista, Patti Smith ao mesmo tempo dispensa aditivos em sua arte. Já foi homeless em Nova York, conforme contou no livro Só Garotos.

 Já se recusou aos principais rituais do comércio e da segurança artística. Ela transforma o excesso em essência. Gravado com sua banda de costume (o guitarrista Lenny Kaye, o baterista Jay Dee Daugherty e o baixista Tony Shanahan), no estúdio Electric Lady Studios (o mesmo onde ela gravou sua obra chave, Horses, o disco de estreia, de 1975), Banga parece um portal do tempo, entre passado e futuro de Patti.

O álbum surgiu durante uma viagem de Patti Smith à Itália (ela aparece no último trabalho de Jean-Luc Godard como ela mesma, no navio, na produção Filme Socialismo). Ela e seu guitarrista, Lenny Kaye, tiraram alguns fotos da viagem, e essas fotos são o ponto de partida do disco. “Ficamos naquele navio de cruzeiros para 3 mil italianos, fomos à Turquia, Alexandria, Grécia. A viagem é a coisa, não o filme de Godard”, ela ponderou.

A viagem é a coisa. Por isso incluir no novo álbum uma reflexão sobre a viagem de Américo Vespúcio ao Novo Mundo em 1497 (Amerigo), um rock para o povo do Japão após os terremotos do ano passado (Fuji-San), uma balada em memória da cantora Amy Winehouse (This Is the Girl) e um acalanto meditativo sobre arte e natureza (Constantine’s Dream), assim como uma canção de aniversário para seu amigo Johnny Depp (Nine).

Os japoneses experimentaram não somente um terremoto, mas um desastre nuclear”, justifica Patti, sobre Fuji-San, que funciona como uma moderna canção de protesto, menos exacerbada no discurso, mais ponderada no formato, uma quase balada.

“Essa é a garota que berrou para ser ouvida”, canta Patti Smith, no tributo a Amy Winehouse, solene homenagem de fundo pianístico para as belas garotas que pintaram os olhos apenas com um rastro de lápis negro, e que tornaram seu o vinho da casa.

Há outra musa trágica sendo homenageada, a atriz de O Último Tango em Paris, Maria Schneider, na canção Maria. E a música Constantine foi inspirada num cartão-postal que continha uma figura de um conquistador de Dimitri Levas. Patti se alimenta de um universo que, assim como a projeta adiante, está fundado em estruturas sólidas de sua própria marca criativa. É um dos seus melhores discos.

Mosaic ela define como “uma canção de amor universal”, cantada com um lamento de Patti ao fundo, criando uma sensação de abstração que ela sugere equiparar a uma incursão da deusa Diana pela floresta, em busca de sua caça.

“O problema maior hoje é a insinceridade, e a espécie humana está ameaçada. Um dia, todo esse nosso meio ambiente vai entrar em colapso, e não vai adiantar debater conceitos. Nós, como seres humanos, temos a responsabilidade de passar por cima de tudo isso, pela sobrevivência do planeta. Eu sou, apesar de tudo, otimista”, diz Patti.

April Fool (referência ao dia 1.º de abril, o Dia da Mentira), com a guitarra minimalista de Verlaine, o tom crepuscular, parece uma conversa circular de Patti com sua própria produção. Lembra um dos grandes poemas de Patti, no livro Witt, de 1973, que dizia: “Abril é o mais cruel dos meses, etc.

O que resta? Os ossos de Brian Jones, os amigos de Jim Morrison, a bandana de Jimi Hendrix”. Sobrou ainda Patti Smith, que é um exército inteiro sozinha.

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