O som espinhoso do Cactus

Estadão

30 Abril 2011 | 08h21

Márcio Paula Moraes – Laboratório de Temas

A banda durou muito pouco tempo, de 1970 a 1972, mas enquanto esteve na ativa brilhou e produziu importantes álbuns para a história do rock’n roll.

Formada de uma derivação de músicos vindos também de outras bandas como o Vanilla Fugde, Buddy Miles Express, a formação original do Cactus era composta por Carmine Appice (bateria), Tim Bogert (baixo), Rusty Day (vocal) e Jim McCarty (guitarra). McCarty era da cidade de Detroit (EUA), e muito ligado ao blues – gênero que deu ao Cactus uma grande semelhança com o Led Zeppelin.? 

O som do Cactus oscila entre o rock bruto como em Parchman Farm e o blues como na deliciosa faixa No Need To Worrry, ambas as músicas do primeiro álbum homônimo da banda, lançado em 1970. Dado curioso é que a capa deste disco foi censurada no Brasil pelos censores militares, pois eles entendiam que a foto que ilustrava a capa a capa fazia apologia ao sexo, a um pênis, e foi considerada inapropriada. Foi preciso refazê-la para que o disco fosse comercializado no país.

'Cactus', de 1970, o primeiro álbum

Em vários momentos o Cactus se assemelha ao Led Zeppelin. Talvez até por uma obsessão americana de ter sempre alguma banda que fizesse frente às inglesas. Vale lembrar que o foi com esse espírito que surgiram outras bandas (muito boas por sinal), como o Grand Funk e o Monkees, essa descaradamente produzida pelos meios midiáticos americanos para ser a opção americana aos Beatles. A banda até teve bons momentos enquanto durou seu programa de tevê na década de 60, nos Estados Unidos, mas francamente, compará-la com Beatles é covardia!

A identificação do Cactus com as bandas inglesas era latente, não só com o Led. Em vários momentos de Oleo, a banda faz lembrar o período dos anos 60 dos Rolling Stones, principalmente a gaita, soprada por Rusty Day, comum nas músicas stoneanas.

'One Way...Or Another', o segundo álbum do Cactus

Diante de uma onda avassaladora do rock inglês nas décadas de 60 e 70, parecia que a regra era se alimentar de fontes sadias, e as bandas americanas para fazer frente às inglesas, que arrebentavam pelo mundo afora, era mesmo tentar fazer igual aquilo que estava dando certo. Ao procurar esse assemelhamento com o Led Zeppelin e incutir elementos do blues à sua música o Cactus passou a integrar o grupo de bandas que vinha trabalhando esses conceitos há muito tempo.

O segundo álbum (One Way… Or Another) lançado em fevereiro 1971 também foi muito bem aceito pelo público e mídia, mas dava sinais que a banda carecia de genialidade para criar. Nele consta um grande sucesso de Little Richard, de1956, Long Tall Sally (também gravada por Elvis Presley). No mesmo ano, em outubro, o Cactus se arriscaria com seu terceiro e último álbum com a formação original completa, Restrictions.

Já sem o guitarrista bluesman Jim McCarty, a banda lançou Ot ‘n’ Sweaty (1972), que dispensa comentários, uma vez que, meses depois a banda se dissolveu.

Em 2006, envelhecida, a banda se reuniu e lançou seu quinto e último álbum, Cactus V, porém com quase todos os integrantes da formação original, trata-se de um belo álbum, mas desprezado pelos próprios fãs da banda que preferem o som antigo. O vocalista Rusty Day morreu aos 36 anos apenas, em junho de 1982.

Cactus foi uma das poucas bandas americanas que entrou para a história do rock num dos períodos mais difíceis, pois para fazer frente ou igualar-se às bandas inglesas não era tarefa fácil, era preciso ser bom muito, mas muito bom. E o Cactus era.

Márcio Paula Moraes é professor e jornalista. Edita o blog Laboratório de Temas (www.laboratoriodetemas.com).

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