O rock vive aqui – em São Paulo

Estadão

15 de junho de 2011 | 07h13

Pedro Antunes

“Esta foi mais uma noite daquelas que a gente passa de bobeira tentando aliviar a dor do coração / E grita por um socorro, mas ninguém consegue lhe ouvir”, canta o cearense Fernando Catatau, em Noite Daquelas, acompanhado de uma guitarra. São versos falados, confessionais.

A música só foi lançada em 2005, com o segundo disco da banda fundada por ele, o Cidadão Instigado, chamado Cidadão Instigado e o Método Tufo de Experiências. Mas ela faz parte de uma safra de composições pré-Cidadão, criadas quando Catatau veio se aventurar em São Paulo pela primeira vez, aos 23 anos.

Ficou de 1994 a 1995, morando no Bexiga. Ainda naquele ano, ele viveu no Rio de Janeiro. Em 1996, voltou para a sua cidade, Fortaleza, precisando de trabalho. Foi quando fundou o Cidadão Instigado.

A essência da banda vem desse período em que Catatau esteve em terras paulistanas. Foram tempos de solidão. “Lidar com a vivência solitária, de um cearense que vem para São Paulo, as minhas impressões… Tudo isso moldou o que o Cidadão é hoje”, diz o guitarrista de 39 anos.

Integrantes da banda Mombojó (FOTO: CLAYTON DE SOUZA/AE)

 Atualmente, o músico mora na Pompeia. Ele voltou à capital paulista em 2001, mas os tempos eram diferentes. Um ano depois, o Cidadão Instigado debutava com o disco O Ciclo da Dê.Cadência e Catatau também acompanhava Otto em turnês pelo Brasil. As marcas da primeira tentativa de morar aqui estão presentes até no trabalho mais recente da banda – o disco Uhuuu! –, como na música Escolher Pra Quê. “Sempre quis morar aqui”.

No cenário musical brasileiro, underground ou mainstream, São Paulo surge como uma espécie de Meca do rock nacional. Bandas de várias partes do País procuram a capital em busca de espaço, reconhecimento e divulgação.

A oportunidade aqui, dizem eles, é maior do que nas suas cidades de origem. Para os novos grupos, a vinda para cá pode representar a diferença entre ser uma banda de fundo de garagem e percorrer o Brasil fazendo shows. Em busca dessa segunda opção, o Vanguart e o Mombojó vieram, de Cuiabá e Recife, respectivamente.

Idas e vindas

Hélio Flanders, 25, vocalista do Vanguart, lembra que a vinda para SP foi gradual. “Viemos primeiro em 2005, para um show. No ano seguinte, passamos 6 meses morando aqui. Depois, vimos que precisávamos nos mudar, em definitivo”.

Nesse período de idas e vindas, os integrantes da banda – Hélio (vocal e violão), David Dafré (guitarra), Reginaldo Lincoln (baixo), Luiz Lazzaroto (teclado) e Douglas Godoy (bateria)– ficavam no apartamento de um amigo, na Consolação. “Foram tempos loucos”, lembra Lincoln, 24.

“Vínhamos para cá com um show marcado e fazíamos quatro. Até que percebemos que não poderíamos mais morar fora de São Paulo”. Com o disco de estreia – Vanguart – nas malas, eles vieram morar em definitivo na capital paulista, em 2006.

Banda Vanguart

A adaptação, porém, não foi das mais fáceis. Em Cuiabá, eles estavam sempre juntos, se encontravam com frequência. Aqui, a chegada afastou os amigos. “Não conseguíamos nos reunir. Quando percebemos isso, vimos que deveríamos ficar próximos”, diz Lincoln.

Hoje, todos moram na zona oeste. Sair da casa dos pais acarreta uma série de responsabilidades. Entre elas, a de cozinhar a própria comida. “As refeições viraram uma desculpa para a gente se encontrar, tocar, tomar uma cerveja”.

Quando se mudaram para São Paulo, em 2007, os cinco integrantes do Mombojó tinham de 20 a 25 anos e dois discos lançados: Nadadenovo (2004) e Homem-espuma (2006). “No Recife, a demanda de shows é muito sazonal. Aqui, tem show quase todo dia”, conta o guitarrista Marcelo Machado, 26.

Influenciados pelos amigos da também recifense Nação Zumbi – que há 10 anos moram em São Paulo –, eles resolveram tentar a sorte. Mas a mudança foi adiada pelo falecimento de um integrante do grupo, em 2007. “Já pensávamos em nos mudar para cá. Mas esse golpe nos fez adiar essa ideia. Viemos de vez no final de 2007”, diz Marcelo.

Nessa nova rotina, morando sozinhos e longe dos pais, os músicos lançaram o terceiro disco, Amigo do Tempo, no ano passado. Para facilitar a adaptação, criaram uma espécie de comunidade de músicos do Recife, na região da Pompeia. “Sempre nos encontramos, marcamos um churrasco”, conta Marcelo.

Por mais que São Paulo seja um pólo, nem sempre a adaptação é fácil. As oportunidades podem não aparecer como o esperado. Guitarrista do Cidadão Instigado, Régis Damasceno, 39, teve a sua primeira experiência em 2002, quando a banda lançou o primeiro CD.

Ele morava com Catatau – companheiro de banda e seu amigo desde a adolescência –, num quartinho de empregada, num apartamento na Lapa. Ficou só até o fim do ano e voltou para Fortaleza.

Pitty ao vivo no Circo Voador, no Rio de Janeiro (Caroline Bittencourt / Divulgação)

“Não fizemos a quantidade de shows que a esperávamos. Morar em São Paulo é muito caro”, diz. Com o lançamento do segundo disco, a banda começou a aparecer mais. Novos shows surgiram e o guitarrista decidiu voltar para cá. Com jeito caladão, Damasceno percebeu que precisava conseguir se adaptar a São Paulo.

 “Eu tinha de fazer coisas simples, conhecer mais pessoas do meu ramo. Sou meio anti-social. Esse foi o meu erro em 2002”, diz ele, que hoje mora na Vila Madalena.

Espaço para todos

Vir para São Paulo também representa o abandono do rótulo de uma banda local. A cidade forma um epicentro musical e cultural, no qual culturas e sonoridades se misturam. Aqui, há espaço para todos: a psicodelia do Cidadão Instigado, o rock do Mombojó, o folk do Vangauart, o blues-rock dos gaúchos do Cachorro Grande, o punk de Pitty.

Quando começamos a vir para cá, em 2004, já tínhamos a ideia de não ser uma banda de uma cidade”, conta o guitarrista Marcelo Gross, 37, do Cachorro Grande. “Queríamos ter um rock universal. E São Paulo é perfeita para isso”.

Em 2005, quando lançou o terceiro disco, Pista Livre, a banda havia acabado de ser contratada pela gravadora Deckdisc, que instalou os integrantes do grupo num flat, na Rua Augusta, quando a cena roqueira ainda começava na região.

“Sempre quis morar aqui. São Paulo não é feita só por pessoas daqui”. O músico gaúcho gostou tanto de viver na região da Augusta que até hoje mora por lá. Há 7 anos vivendo em São Paulo, Gross não sabe dizer como a mudança para cá influenciou na forma de compor e criar do Cachorro Grande, que lançou dois discos desde a mudança: Todos os Tempos (2007) e Cinema (2009). “Acho que temos algumas músicas com a cara da cidade. Uma coisa mais caótica. Mas não sei dizer como isso se deu. É inconsciente”.

Assim como o Cachorro Grande, a cantora baiana Pitty, 33, mora há 7 anos no centro da cidade. Ela vê uma influência musical adquirida com a vida em SP. Mas também não sabe identificar em que ponto.

“Desde que cheguei, pude vivenciar uma espécie de diversidade maior e aceitação do meu estilo de vida, que é muito comum aqui”, explica. “Vim a trabalho, mas decidi ficar por uma total identificação com o ritmo e as cores da cidade. Aqui, eu me sinto em casa”. A afinidade não se restringe ao meio musical. “Sou mais da noite do que do dia. Não sou muito de Sol, praia, correr na orla, essas coisas”.

Num processo tão introspectivo como é o de compor, uma mudança drástica de rotina e vivência tem fortes consequências. Em certos casos, como o da carioca Bárbara Eugênia, 30, nascida em Niterói, é o estopim para a carreira musical.

 “Fui embora / Larguei tudo que fomos / Sonhos que construímos / A casa que sonhamos”, canta ela, na talvez mais confessional canção do seu disco de estreia, Journal de BAD, lançado no ano passado. Em 2005, Bárbara, então casada, se separou do marido e escolheu São Paulo para recomeçar a vida. “Tinha amigos que moravam aqui. Cheguei no susto”, lembra.

Curiosamente, a carreira musical não estava mais nos planos dela, tradutora por formação. “Tinha duas músicas do disco, mas nunca encontrei ninguém para trabalhar comigo no Rio. Desisti. Em São Paulo, passei a conhecer novos músicos e produtores. Tudo começou a rolar”, conta. Hoje, ela mora num apartamento na Vila Madalena. E, apesar da saudade que diz sentir das paisagens do Rio, se mostra feliz com a vida que leva na capital brasileira do rock.

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