O rock nacional é o verdadeiro vencedor do Prêmio Multishow

Estadão

05 Setembro 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

A velocidade da ascensão do Prêmio Multishow como o principal da música brasileira é inversamente proporcional ao nível de qualidade das “atrações” premiadas – abaixo de zero. E quem ganha com isso, por incrível que pareça, é o rock. Com o predomínio de artistas abomináveis de gêneros musicais desoladores, a presença ínfima de roqueiros é fato a ser comemorado, pois preserva o rock de ser contaminado pela mediocridade de parcela expressiva da chamada “música nacional”.

O rock é o grande vencedor do Prêmio Multishow por conta de sua ausência. Em um evento onde o “grande nome” é uma funkeira (???) chamada Anitta, cujo único mérito é não ter mérito, é ser apenas uma armação marqueteira das mais rasteiras – para não falar nas mesmas coisas ruins de sempre do sertanejo e do pagode -, estar bem longe é um grande negócio.

Mesmo entre os roqueiros a coisa não foi das melhores no evento. Concorrendo como melhor vocalista, estava Di Ferrero, do NX Zero, um cantor fraco de uma banda fraca, que conseguiu perder para uma das pérolas do comercialismo extremo – ou seja, de baixa qualidade – para o intragável Luan Santana. O Rappa, se é que pode ser considerado rock, perdeu como melhor grupo para o inacreditável Sorriso Maroto (?!?!?!?!?).

O Prêmio Multishow mostrou a falência total do que se pode chamar de música pop no Brasil em termos de qualidade. Com um sistema de votação popular e depois o de um júri especializado para tentar filtrar e equilibrar a disputa, ainda assim não consegue fugir do shows de horrores que tomou conta do evento.

Em uma época em que prêmios como esse, ou o finado Video Music Awards da MTV ou mesmo o APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) pouco ou nada acrescentam à carreira artística, outras discussões são pertinentes, como o verdadeiro acesso à divulgação maciça de artistas com mais conteúdo e qualidade, por exemplo. Eventos de premiação dominados pelo mercado privilegiam a música artificial de artistas artificiais, como a fabricada Anitta, ou os de qualidade (e conveniência) altamente questionáveis, como outro funkeiro, Naldo.

Rap de Emicida? Difícil imaginar. Criolo? Seu rap só será mais aceito e sair da periferia do “verdadeiro” showbiz quando aumentar a dose de samba e MPB e diminuir a do próprio rap. Rock? Só coisas inofensivas como os emos NX Zero, CPM 22 e Restart, de preferência acoplados com números de vendas inflados por pesada campanha de marketing, em dose inversamente proporcional à qualidade do trabalho.

O rock sai vencedor por estar longe de um evento que nada acrescenta artisticamente, ao contrário de não muito tempo atrás. Medalhão por medalhão, é melhor aturar “divas” como Caetano Veloso e Gilberto Gil do que gente como Zezé di Camargo e Luciano, Sorriso Maroto, Luan Santana, Paula Fernandes e zumbis semelhantes. Pelo menos Caetano e Gil tiveram relevância em parte importante da história sociocultural brasileira, e de terem feito algum trabalho de reconhecida qualidade.

Alguns críticos, mesmo presentes como jurados ao evento, cravaram que o Multishow decretou a verdadeira morte do rock comercial, com certidão de óbito e tudo. É um grande equívoco. O evento ocorrido nesta semana no Rio de Janeiro só ajudou o rock como um todo, e creio que até mesmo o fortaleceu, dependendo do ponto de vista.

Em outra visão, na verdade, o pop rock como o conhecemos nos anos 80 e 90 está morto há pelo menos três anos, e isso pode ser constatado mensalmente com a publicação do hit parade da revista Billboard Brasil Top 100. Mês a mês é possível verificar que, entre as 100 músicas mais ouvidas no Brasil, apenas quatro são de pop rock, e geralmente ocupando lugares abaixo do 60º lugar. É o índice do mercado brasileiro com maior credibilidade na medição de audições musicais, levado a cabo pela empresa Crowley/Multimedia.

Na edição de setembro, com Josh Homme, do Queens of the Stone Age na capa, na principal categoria – Brasil Hot 100 Airplay -, a situação piorou um pouquinho: só três rocks entre as 100 mais ouvidas – isso, é claro, se considerarmos O Rappa como rock, aliás o mais bem colocado dos três, em 30º com a música “Anjos (Para Quem Tem Fé)”. Jota Quest, depois de meses e meses, saiu da lista. Charlie Brown Jr, com a última música composta pelo falecido vocalista Chorão – “Meu Novo Mundo” – e NX Zero completam a “enorme” lista do rock no Top 100 principal da Billboard Brasil.

O Rappa, melhor ‘roqueiro’ no ranking da Billborad Brasil (foto: DIVULGAÇÃO)

Ignorando o Prêmio Multishow, o pop rock nacional talvez só tenha o retorno às raízes para voltar a brigar pela preferência de um público pouco disposto a sair do comodismo, a ousar buscar algo minimamente diferente, com um conteúdo musical e lírico minimamente aceitável, fora das melodias pobres e letras anêmicas do pagode e do sertanejo.

Nem é o caso de achar que trabalhos autorais e diferentes, como o de Arnaldo Antunes (ainda que pese certo pedantismo em sua obra) possam arrebatar corações e mentes – até que poderia, já que Antunes é um Bob Dylan na comparação com o o que se vê no topo das paradas e das emissoras de rádio.

O pop rock de qualidade hoje assusta o que sobrou do mercado fonográfico e requer mais atenção do público em geral, que demonstra claramente que não quer prestar a atenção em nada, caso contrário artistas inomináveis como Anitta e Luan Santana e toda a sorte de sertanejos rasteiros não estariam dominando o Top 100 da Billboard Brasil.

Se a banda Raimundos, por exemplo, surgisse neste exato momento ficaria relegada para sempre ao “sub-underground”, ao lado de bandas ótimas que fazem rock pesado com letras acima da média, cheias de pancadas, ironia e bom humor, como Baranga, Carro Bomba, Golpe de Estado, Matanza e Tomada.

Quem ousa fazer algo diferente no pop rock, como O Terno, Pedra, Fábrica de Animais, Vespas Mandarinas, entre outros, que ousam criar arranjos e letras um pouco mais sofisticados, também tem chance zero de romper a barreira da mediocridade imposta pelo que sobrou do mercado musical.

Qualidade, ainda que mínima, fica em segundo plano.Depois da efêmera febre emo, as pseudo-bandas do subgênero foram descartadas, e prevalece cada vez mais o “potencial de vendas”, ainda que por míseras semanas, e a capacidade de adaptação ao que está “fazendo sucesso no momento”.  Claro que o rock nacional está morto e sepultado neste cenário. Entretanto, mesmo abaixo da sepultura, ainda é possível ver algum futuro.

Ainda hoje é possível ver críticos resmungado sobre a suposta falta de ousadia do rock nacional atual, que teria perdido a “capacidade de se renovar” e a “capacidade promover grandes rupturas”. Grandes equívocos, em minha opinião. Em termos histórico-culturais, só houve duas rupturas no pop nacional: o tropicalismo e a pop rock dos anos 80.

Esperar que haja “ruptura”, ainda que estética, em um tempo de relativa estabilidade político-econômico-social e com a pulverização da cultura em diversos segmentos, é o mesmo que achar que o mundo viverá brevemente nova convulsão geral como a ascensão do comunismo, entre 1917 e o final da década 30 do século XX, ou a queda do Muro de Berlim, em 1989. Não vai ocorrer tão cedo.

Ousadia? É só procurar com um pouco de paciência no underground. Algumas bandas citadas acima são exemplos. Nada revolucionário, que vá mudar o mundo como o punk rock, mas são artistas que fazem trabalhos consistentes e de qualidade, milhões de vezes superior ao que domina o mercado hoje, e que lamentavelmente jamais verão a luz do sol fora do microcircuito roqueiro a que pertencem, seja por falta de interesse do que restou da estrutura musical-fonográfica, seja por falta de interesse do público em geral, que tem mais o mesmo apreço pela cultura como antes, como sugerem alguns analistas.

As perspectivas musicais não são muito animadoras para o rock nacional, que deverá continuar vivendo de espasmos, em pequenas brechas em um mundo dominado pelo pior dos sertanejos, pagodeiros e funkeiros. Ao menos o gênero evitou ser chamuscado no Prêmio Multishow. Estar ausente do evento foi provavelmente a maior vitória do rock nacional dos últimos cinco ou dez anos.