O rock está muito mais vivo do que sempre esteve

Estadão

16 Julho 2012 | 12h00

Julio Maria

O senhor de barbas brancas e tatuagem no braço cruzando o mundo em uma Harley Davidson continua indomável. Seu nome é Rock and Roll e sua data de nascimento é imprecisa.

A mais próxima da realidade indica o ano de 1951, quando Ike Turner e os Reis do Ritmo, com vocal do saxofonista Jackie Brenston, gravaram a faixa Rocket 88, o primeiro registro da história com guitarras elétricas que seguia o formato de blues mais acelerado, que o tempo batizaria malandramente com um nome que remetesse às vontades sexuais irreprimíveis sentidas no momento em que ele soasse.

Se o fato se confirmar – a gravação ocorreu mesmo no ano indicado, mas não se sabe com exat   idão se há outra antes  –  o senhor da Harley possui hoje 62 anos de idade. Pouco para quem fez o que ele conseguiu fazer nos cinco continentes – uma reforma comportamental e artística que mudaria o modo de ser do Planeta.

As décadas que seguiram viram o menino crescer fazendo barulho. Nos anos 50, o rock and roll de uma geração de topetes que seria conhecida mais tarde como rockabilly fez nascer o conceito comercialmente viável da adolescência, e sua consequente revolução econômica.

Na passagem para os 60, baixaria no corpo de um homem branco chamado Elvis Presley para derrubar da cadeira quem ainda acreditasse que aquilo era como o blues, uma música menor e exclusiva dos negros. Ainda nos 60, entraria para a política com um moleque despenteado chamado Bob Dylan criando letras que esfregavam a realidade social dos desfavorecidos no rosto de seus governantes, sem perder a ternura poética.

Quando os 70 vieram, o rock conhecia as drogas e as usava para se libertar ainda mais de um mundo de guerras entre nações e pobreza de espíritos.

Eram dias de psicodelismos e Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band. Em uma nova passagem de bastão, dos 70 para os 80, o rock tatuou os braços e colocou coturnos para bater a cabeça contra a vida que seus pais gostariam que ele tivesse. Ganhou o nome de punk e saiu de casa.

 Na decorrência dos 80, já era mais maduro quando começou o namoro com uma moça culta mas de poucos amigos chamada música eletrônica e, com ela, teve vários filhos. Com saudades de uma época em que dizia mais o que pensava, voltou à garagem nos 90 e ligou seus pedais de distorção para sentir a selvageria de uma fase em que o chamavam de grunge.

Nos anos 2000, os médicos o diagnosticaram com um mal incurável. Senhor Rock não passaria daquela década, em que parecia só respirar quando lembrava do passado. Até que uma segunda revolução o tirou da UTI. Assim que a internet chegou com suas crias, o paciente desenganado recebeu um transplante de medula e começou tudo de novo.

Nunca se fez nem se ouviu tanto Rock and Roll como neste 2012. E mesmo quem não gosta dele precisa reconhecer sua presença. Se você usa jeans, tênis, tinge os cabelos, usa tatuagens, se apaixona, tem filhos, diz o que pensa e tem de vez em quando um vontade danada de mudar o mundo, você tem que parar por dez segundo e cantar parabéns para este cara que te deu tudo isso. No dia de seu aniversário, o Rock And Roll está mais vivo do que nunca.