O rock encontra a sinfonia em noite mágica

Estadão

05 de março de 2013 | 06h36

Marcelo Moreira

Músicos eruditos não assimilam bem a passagem de uma obra de Beethoven para um arranjo de um artista como Jimi Hendrix, por exemplo. Costumam torcer o nariz na execução e a fazem de formas burocrática, quase mecânica. Isso não acontece com os instrumentistas da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Após a introdução da 5ª Sinfonia de Beethoven, emendaram com gosto e curtindo o clássico “Roll Over Beethoven”, de Chuck Berry, que encerrou mais uma apresentação da série “Rock Sinfônica”.

A banda recebeu novamente o ótimo trio paulistano de hard rock Dr. Sin no último domingo em show de gala no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. O projeto surgiu por iniciativa do maestro Marcos Sadao, que queria dar um tratamento orquestral a clássicos do rock, contando a história do gênero passando por todas as fases. Bandas sinfônica e de rock foram acompanhadas novamente com a narração de Kid Vinyl, cantor e radialista.

O ponto principal do projeto teve um ponto de vista didático: transformar clássicos do rock em “movimentos” de um concerto, tornando um pouco mais palatável a um público não muito acostumado com guitarras e baterias em volume alto, além da presença de Kid Vinyl narrando nos intervalos a história do rock.

O local foi mais do que apropriado para o evento, um grandioso auditório com pinta de anfiteatro, acústica perfeita e público engajado e atento, compreendendo a importância e o objetivo da “Rock Sinfônica”. Os instrumentistas eruditos deram um show à parte, não só executando suas partes com perfeição – era o mínimo desejado – mas interagindo com as obras que foram apresentadas. Na verdade, estavam curtindo bastante.

Foto: Zelda Melo, repórter da TV GLOBO entrevista DR SIN para SPTV durante DR SIN & ROCK SINFONICA ontem no Auditorio Ibirapuera
Dr. Sin para o ensaio para uma entrevista à TV Globo – Edu Ardanuy perdeu o começo da entrevista…

Depois de um medley instrumental com os primórdios do rock, com destaque para “Jailhouse Rock”, de Elvis Presley, e “Rock Around the Clock”, de Bill Haley, a banda sinfônica entrou de cabeça no mundo dos Beatles e dos anos 60, tocando um medley com “Help/Here, There and Everywhere/Yellow Submarine/Eleanor Rigby/Let It Be” e emendando outro com “Satisfaction” (Rolling Stones)/”Light My Fire” (The Doors)/”Purple Haze” (Jimi Hendrix)/ “Blowing in the Wind” (Bob Dylan).

A apresentação ganhou peso e energia coma entrada no palco da banda convidada, o Dr. Sin, que revelou bom entrosamento com a sinfônica. A avassaladora “Kashmir”, do Led Zeppelin, teve a sua exuberância e imponência multiplicadas por dez com o som potente e cristalino dos músicos eruditos, com o baixista e vocalista Andria Busci sabiamente evitando os arroubos originais do cantor Robert Plant e interpretando as música com a reverência que a obra exige.

O Black Sabbath foi lembrado com “Changes”, a bela balada que ganhou uma roupagem excêntrica, mas bela, com os instrumentos de sopro realçando a beleza de passagens antes dominada por uma camada de teclados.

A grande surpresa da noite foi a interpretação impecável de um medley com três músicas de The Who – “Who Are You”/”See Me Feel Me”/”Pinball Wizard”. Obras complicadas de serem executadas à primeira vista, ganharam arranjos incríveis, que destacaram os elementos sinfônicos da ópera-rock “Tommy”, casando perfeitamente com o evento. Aqui Andria Busic ousou mais, e cantou de forma mais rasgada e agressiva, com resultando muito interessante.

Em seguida, foi a vez do tecladista Rodrigo Simão, que acompanha o trio Dr. Sin por mais de 20 anos, levantar a plateia com uma bela homenagem ao tecladista e maestro Jon Lord, do Deep Purple, morto no ano passado. Ele reproduziu de forma emocionante trechos de “Pour Elise”, peça de Ludwig van Beethoven, que Lord sempre usava como introdução para a abertura triunfal do hino “Perfect Strangers”, do próprio Deep Purple, música executada em seguida.

Outra surpresa surge com a execução de “Comfortably Numb”, do Pink Floyd, uma música sinfônica por excelência. Os vocais ficaram a cargo do baterista Ivan Busic, que mostrou potência e bom timbre fazendo as duas vozes, ao mesmo em que tocou perfeitamente esse hino do rock progressivo. Parecde que o guitarrista Edu Ardanuy não quis ficar para trás e foi muito bem no solo final da música, acrescentando pequenas alterações de muito bom gosto.

A parte final do evento foi mais festiva, destacando músicas mais alegres e contagiantes, o que levou o maestro Marcos Sadao a ensaiar alguns passos durante a maravilhosa “rock’n’rfoll All Nite”, do Kiss, e em outro hino do rock, “We Will Rock You”, passando por uma interpretação convincente de Kid Vinyl em “Do You Remember Rock’n’Roll Radio?”, dos Ramones. A noite terminou com “Roll Over Beethoven” e “Smoke on the Water”, do Deep Purple, com direito a um naipe de metais arrasador, além de uma música do Dr. Sin, a linda “Pray for Tomorrow”, que ganhou arranjos do músico Alexandre Dalóia, integrante da banda sinfônica.

Duas horas foram pouco. O lotado auditório pediu mais, muito mais. Só que há um grande problema: ainda não existe nova data para que o evento seja repetido. Imperdoável…

 

Veja aqui reportagem interessante realizada pela TV Globo e exibida no Bom dia São Paulo desta segunda-feira.

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