O retorno dos mangueboys do Mundo Livre S/A

Estadão

08 de março de 2012 | 00h22

Pedro Antunes

Tudo parece ter mudado desde o tempo do Caranguejos com Cérebro, um manifesto que escancarava o movimento manguebeat para o Brasil, em 1992. O documento, redigido por Fred ZeroQuatro, vocalista e letrista do Mundo Livre S/A, um dos grupos expoentes do Recife, traduzia a prolífica cena musical da cidade como o rico ecossistema do manguezal. Sua banda, Nação Zumbi, Eddie, Mestre Ambrósio e Querosene Jacaré desceram para o Sudeste.

O manguebeat teve sua importância reconhecida e agora ZeroQuatro direciona as suas atenções para as novas tecnologias, a ética na internet e a pirataria. Desde 2004 sem um disco de inéditas, o Mundo Livre S/A interrompeu o silêncio com Novas Lendas da Etnia Toshibabaa, um disco maduro, com ótimos elementos de teclado alucinógeno e letras incisivas saídas da criativa imaginação de ZeroQuatro.

Somos apresentados a um futuro (distante?) pós-apocalíptico. A humanidade, quase extinta, se vê numa contraditória relação com a tecnologia: escravidão e culto. Hoje, amanhã e sábado, o público do Sesc Pompeia será apresentado ao fantástico mundo criado pelos mangueboys depois de dois anos maturando as 11 canções registradas no disco, com prensagem e distribuição da Coqueiro Verde.

O álbum, que entre os muitos nomes havia sido até chamado de Durar é Viver, como a canção homônima que também saiu dos planos da banda, teria um tom comemorativo para os 25 anos do grupo. Se lançado em 2009, como planejado. “Não conseguimos fazer tudo a tempo. Mas isso foi bom, porque as músicas hoje estão bem diferentes de quando começamos a gravar”, diz ZeroQuatro.

Depois do disco O Outro Mundo de Manuela Rosário (2004), considerado um trabalho complexo, veio o EP Bebadogroove, com sete canções, no ano seguinte. Uma prévia do que viria a ser o novo trabalho da banda. No mesmo ano, eles tiveram a música Meu Esquema (aquela: “Ela é meu treino de futebol/Ela é meu domingão de sol/Ela é meu esquema/Ela é meu concerto de rock’n roll/Nação, minha torcida gritando gol/Minha Ipanema”) lançada em Portugal, depois Itália, Suíça e Holanda.

Em 2008, a banda lançou a coletânea Combat Samba, com a inédita Estela (A Fumaça do Pagé Miti Subitxxy), que viria a ser o embrião de todo o novo folclore dos seres humanos como indígenas em um mundo tecnológico. O tal cacique das lendas da etnia toshibabaa. “Não era intencional, mas, no fim, percebemos que as canções seguiam essa linha, falavam de tecnologia”, diz ZeroQuatro.

Mas as musas ainda estão presentes em canções como Ela é Indie, Eduarda Fissura do Átomo e O Varão e a Fadinha, com a doce participação de Silvia Machete nos vocais. Tudo numa linguagem jocosa, sacana de ZeroQuatro, acompanhado de seu tradicional cavaquinho. “Nunca tive uma turma para me ensinar o que eu poderia ouvir. Então, ouvia de tudo”, conta ele. E, por isso, o Mundo Livre S/A faz jus ao nome: música sem barreiras, sejam elas físicas ou imaginárias. ::

CRÍTICA: Um disco entre o sacana e o consciente
Difícil saber em que momento Fred ZeroQuatro falará sério ou vai tirar sarro. O disco Novas Lendas da Etnia Toshibabaa se inicia com um samba-rock ecológico à la Jorge Ben Jor (uma referência constante para o vocalista ZeroQuatro).

A participação de BNegão dá ainda mais peso ao caráter educacional da música: “O desperdício de água, além de ser uma agressão à natureza, é muito deselegante e cafona”, diz a letra.

Mesmo com esse discurso engajado, a linguagem de ZeroQuatro é divertida. E, quando ele se desprende disso, atinge seu melhor. É o caso de Ela é Indie, que conta a história de um mangueboy que se apaixonou por uma moça fã de música alternativa, cheia de referências. Sobrou até para o vocalista do Pavement (banda americana idolatrada pelos indies) Stephen Malkmus. Obviamente, a moça não dá bola para o rapaz.

Quanto à sonoridade da banda, o tecladista Léo D., que substitui Bactéria, é um grande pesquisador. Trouxe novos timbres, como os da banda alemã Kraftwerk. Mais texturas para a salada de frutas musical da banda.

DIVIRTA-SE
Mundo Livre S/A.
Sesc Pompeia. Choperia (700 lug.).
Rua Clélia, 93.
Telefone: 3871-7700.
Hoje, amanhã e sábado, às 21h30.
Ingressos: R$5 a R$20.

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