O recheado baú de Bruce Springsteen

Estadão

03 de fevereiro de 2011 | 08h28

Jotabê Medeiros

Panela velha é que faz comida boa. A máxima sertaneja caiu como uma luva para Bruce Springsteen no lançamento desse disco duplo The Promise (Sony Music). “O que você tem nas mãos é um velho novo disco, as sessões perdidas de música que poderiam/deveriam ter sido lançadas após Born to Run (1975) e antes da coleção de canções que se tornou o lendário Darkness on the Edge of Town (1978)”, escreve Bruce Springsteen.

São 21 canções nunca ouvidas antes, gravadas em sessões febris no lendário estúdio Record Plant, em Nova York, e que o próprio Bruce define como influenciadas pelo punk rock. The Boss e sua E Street Band estavam no auge, tinindo.

“No verão passado, antes de lançar esse disco, eu voltei várias vezes para ouvir essa música que eu tinha abandonado uns 30 anos atrás. Era como revisitar velhos amigos que vinham esperado meu retorno para fechar um ciclo que tinha sido abruptamente interrompido”, conta Springsteen.

Bruce Springsteen em ação no Hyde Park, em Londres (FOTO: DIVULGAÇÃO)

The Promise é um discaço. Abre com uma versão rock de Racing in the Street (que parte do clássico truque da balada pianística e que vai sendo engolida por uma gaita dylanesca) e segue adiante com versões nunca lançadas do clássico Because the Night (de Patti Smith), Fire (baixo fenomenal) e Rendezvous.

 A canção-título, The Promise, é orquestrada, com um seminal arranjo de cordas. “Isso não é uma carta fraca do baralho. The Promise é uma grande experiência para os ouvidos”, disse o produtor, ao lado de Springsteen, Jon Landau.

Bruce Springsteen viaja com notável personalidade e sinceridade do pop (Someday We’ll Be Together) ao soul (The Broken Hearted). Enfia uns metais de jukebox de beira de estrada em Gotta Get That Feeling, no limite entre o brega e o chique. Um certo tempero de punk à Clash tempera Outside Looking In. Todas as canções foram mixadas pelo velho parceiro de Springsteen, Bobby Clearmontain.

Há alguns excessos típicos da época em certas canções, como o solo de sax interminável (e dispensável) de One Way Street. “Potência, foco e austeridade eram meus objetivos.

 Música dura para gente em circunstâncias duras. Enquanto a banda tocava Darkness no Paramount Theater no inverno de 2009, eu senti que minha seleção original de canções sobreviveu aos anos e continua a representar a compatibilidade das opiniões de um jovem muitos anos atrás”, escreveu Bruce. “As canções também me fazem sentir muito bem dentro da jornada do homem adulto que eu faço dentro de mim”.

Baladas como Candy’s Boy mostram a pegada lírica de Bruce em seu melhor, uma crônica americana de hotéis baratos, solidão, amizades sólidas, estradas que não levam a lugar algum. O disco 2 é ainda melhor que o primeiro. Springsteen também fazia boa música para os salões, para dançar, como Ain’t Good Enough for You, na qual a voz dele tinha ainda alguma coisa da juvenília que era a folk music da época. It’s a Shame tem guitarras rascantes, vintage.

A revisitação a esse período de feérica produção musical de Darkness on the Edge of Town começou em meados do ano passado, quando Springsteen levou ao festival de cinema de Toronto, o Toronto International Film Festival, o documentário The Promise: The Making of Darkness on the Edge of Town, dirigido por Thom Zimny.

Na época, ele já anunciava que, no Natal, sairia esse álbum. “ Voltamos no tempo e finalizamos uma letra ou duas, ou uma harmonia ou duas, mas mantivemos praticamente intacto aquele material.”

Springsteen na ultima turnê norte americana, em 2009

O resto do material que registra o período está num DVD, gravado de um concerto em Houston em 1978, e outro DVD com cenas de 1976 a 1978, e ainda uma performance que foi filmada em 2009 em Astbury Park.

“Ecos de Elvis, Dylan, Roy Orbison, o canto pleno das baladas rockabilly de cantores dos anos 50 e 60 ao lado de meus artistas favoritos de soul e de Phil Spector transpassam tudo”, conta Springsteen. “Conforme folheio meu velho caderno de notas de mais de 30 anos, vejo um homem jovem movido a ambição, uma cultura local floreada por uma imaginação povoada de filmes B, e determinado a ser um compositor de rock’n’roll”.

Na carreira, Bruce Springsteen gravou 24 discos, ganhou 19 Grammy e um Oscar (por Streets of Philadelphia, de 1994). É um gigante da música americana. “Se a consciência de nossa nação tem uma trilha sonora, essa trilha é a voz de Bruce Springsteen”, escreveu o Los Angeles Times. Essa rouca voz da consciência americana se encontra hoje com 61 anos, sem parecer fatigada de lutar boas lutas.

Putas, imigrantes ilegais, deserdados de toda ordem o interessam. “Todas as canções são sobre pessoas cujas almas estão em perigo. Eles têm algo comendo por dentro. Alguns vão fazer a travessia com sucesso e outros vão ter um fim trágico”, disse certa vez, sobre um de seus discos, Devils and Dust.

No final de todos os agradecimentos do álbum, Bruce Springsteen faz um agrado geral aos fãs, “que deram seu coração para nossa música nessa jornada de 37 anos que fizemos juntos; nos vemos na estrada”. Será que já não é hora de pensar seriamente em trazê-lo para nosso lado da estrada?

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