O Rappa volta com mais energia, mas algo está fora do lugar…

Estadão

15 Setembro 2013 | 16h08

Thiago El Cid Cardim – site Whiplash

Quando a canção “O Horizonte é Logo Ali” abre o novo disco d’O Rappa, “Nunca Tem Fim”, com uma levada venenosa de guitarras e a voz de Falcão distorcida por uma série de efeitos eletrônicos, já fica claro: este é, talvez, o disco da banda com a produção mais esmerada e ambiciosa, nas mãos do conceituado Tom Saboia. A tradicional mistura de rock e reggae do grupo ganha tons eletrizados aqui, um belo naipe de metais ali. É realmente tudo muito bonito, esteticamente. Mas…

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…por algum motivo, o resultado final parece soar plástico demais, um tanto sem espírito. Nem estou me referindo aqui à falta de Marcelo Yuka, seu principal letrista, cuja saída de fato deixou um rombo na carreira dos caras. Mas acho que ainda é mais do que isso. A produção parece ter lhes tirado uma boa dose da autenticidade que fica explícita em “Rappa Mundi” (1996), uma vivacidade, uma originalidade que soa natural, experimentações que soam verdadeiras. “Nunca Tem Fim”, seu primeiro de inéditas em cinco anos, parece robótico, uma belíssima estátua paralisada e sem vida.

O exemplo mais claro é “Cruz de Tecido”, talvez a mais comentada canção do disco. A música tem letra esforçada e um tema inusitado, mas que faz sentido para o histórico de letras sociais do grupo: a impunidade no caso da queda do avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em 2007. Mas o resultado final é tão óbvio que chega a ser cansativo, e poderia estar em qualquer um dos discos anteriores da banda. Acaba se parecendo, em estrutura e sonoridade, com uma espécie de irmã-gêmea de “Minha Alma”, justamente um de seus maiores sucessos.

O mesmo pode ser dito dos dois primeiros singles, “Anjos” (sobre a fé, com direito até a citações à Bíblia) e “Auto-Reverse” (com uma típica mensagem de superação para o brasileiro mediano, que rala um bocado), que parecem sair do repertório-padrão dos caras, como que feitas à base de um template único, de uma linha de fabricação. É muito pouco para um coletivo de músicos que sempre provou não ter medo de ousar, de tocar com parceiros do axé, heavy metal, forró e punk rock, sem exceções, sem preconceitos, tudo em nome da boa música.

Justiça seja feita, no entanto, já que o disco tem lá alguns momentos que merecem destaque – como o empolgante refrão de “Doutor, Sim Senhor”, que mescla uma pegada pesada de guitarra com uma interessante camada de metais, gerando um resultado bastante convidativo. Numa linha mais sutil, enquanto o vocalista Marcelo Falcão canta as mazelas típicas do povo brasileiro em uma ótima interpretação, os metais criam um clima poético na igualmente intensa “Sequência Terminal”. E a faixa final, “Um Dia Lindo”, além dos versos incidentais de “Praia e Sol”, samba-rock do veterano Bebeto, traz a participação especial dos vocais incisivos de Edi Rock, dos Racionais Mcs. A mistura gera uma canção quase que de auto-ajuda, mas que funciona bem – o suficiente para se ficar imaginando como ela seria impactante ao vivo.

Talvez Marcelo Falcão e seus parceiros devessem, numa próxima bolacha, experimentar mais desta simplicidade. Reunidos, cada um com seu instrumento, nos quatro cantos de um estúdio caseiro de gravação, cantando juntos, livres e desimpedidos. Depois de cinco anos sem lançar nada, eles demoraram apenas nove meses para forjar “Nunca Tem Fim”. Talvez um pouco mais de tempo tivesse ajudado a amadurecer um pouco mais a obra. Talvez um pouco mais de sujeira ajudasse a tornar a mensagem mais limpa. Mereceria.

Line-up:
Marcelo Falcão – Vocal
Alexandre Menezes (Xandão) – Guitarra
Lauro Farias – Baixo
Marcelo Lobato – Teclados

Tracklist:
O Horizonte é Logo Ali
Auto-Reverse
Boa Noite Xangô
Cruz de Tecido
Fronteira (D.U.C.A)
Anjos (Pra Quem Tem Fé)
Doutor, Sim Senhor!
Sequência Terminal
Vida Rasteja
Um Dia Lindo (Participação Especial Edi Rock)

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