O que restou do Creedence volta ao Brasil

Estadão

16 de março de 2012 | 17h00

Bento Araújo – especial para o Estado de S. Paulo

Bandas clássicas norte-americanas de rock têm algo em comum.  Seria uma espécie de maldição ou puro mimo?  O Eagles, por exemplo, dizia que só voltaria a se reunir caso o “inferno congelasse”.  Reuniram-se em 1994, e para comemorar o inusitado acontecimento, lançaram um álbum apropriadamente batizado de Hell Freezes Over. Mas até que foi fácil.

Para os três integrantes vivos do Creedence Clearwater Revival o buraco é mais embaixo.  Antes de eles se reunirem no mesmo palco novamente, os pântanos da Louisiana vão mesmo ter que congelar.

O racha, que denota acrimônia há décadas, pode ser considerado o mais prolongado divórcio que o rock já conheceu.  De um lado está John Fogerty, o patrono ditador – compositor, vocalista, guitarrista, líder e faz-tudo – que possui um dos mais valiosos legados do gênero.  Do outro estão o baixista Stu Cook e o baterista Doug Clifford, dois tiozinhos boa-praça, que cumprem seu papel de acompanhantes sem falar mal de ninguém, ou melhor, sempre falando mal de Fogerty.  Nunca foram capazes de liderar algo maior do que uma banda cover.

Cada um deles é aquele tipo de sexagenário simpático, que toma cerveja sem álcool e paquera cocotinhas pelo mundo todo, moças com idade de suas netas, que sabem a letra de trás pra frente de hits como Proud Mary e Have You Ever Seen The Rain?

Cook e Clifford estão voltando ao Brasil com seu Creedence Clearwater Revisited para shows em SP (25 de março no Credicard Hall) e no Rio (18 de março).  Tentam reviver as glórias do passado com um sósia vocal de Fogerty, um repertório acachapante e a pompa de poder afirmar que pelo menos no Brasil se apresentam para um público muito maior do que a meia dúzia de gatos pingados que foram ao show de Fogerty no ano passado.  Sim, o fim do mundo está próximo, e maluquices desse naipe não param de acontecer.  Mas vale a pena assistir ao time incompleto, sem Fogerty?

“O nosso time, o do Creedence Clearwater Revisited, está completo e isso é o que importa.  Estamos juntos há mais de 17 anos e creio que a banda está atravessando a sua melhor fase até agora”, diz o baixista Stu Cook ao Estado, que continua: “Atualmente, nossa banda honra e celebra a música original do CCR de um modo muito mais fiel do que Fogerty.  Com o passar dos anos, os fãs têm afirmado que querem escutar a música executada no palco assim como era executada nos discos, então é assim que fazemos”.

Creedence Clearwater Revisited

Claro, os monstruosos hits do CCR são maiores do que qualquer picuinha entre seus integrantes, e falam mais às massas do que qualquer nome de integrante do grupo.  Se você quer ouvir boa música, bem executada, e se sua maior preocupação da noite é se a cerveja está realmente gelada, o show vale a pena.  Caso contrário, é melhor rezar para Fogerty voltar ao País (o que é quase impossível depois do fiasco de público no ano passado) ou assistir a qualquer DVD dele no conforto de sua poltrona.

Já os fãs que se preocupam com o lendário legado da banda dos anos 1960, e nem tanto com a temperatura da cerveja, e têm o sonho de ver Cook e Clifford reunidos com Fogerty, é bom saber que ele, milagrosamente, declarou que fez as pazes com o passado e está aberto a receber propostas para uma volta.

Cook é mordaz em sua resposta: “Esse ‘interesse’ de Fogerty não significou entrar em contato conosco.  Uma coisa grandiosa como essa envolveria alguma comunicação entre os integrantes originais, o que nunca aconteceu.  Na verdade quando esse papo surgiu, nosso empresário entrou em contato com o representante dele, que disse que Fogerty não estaria interessado numa reunião.  Não tenho ideia porque ele deu essa declaração sobre estar aberto a uma reunião, talvez isso de alguma forma tenha trazido algum benefício a Fogerty.”

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