O que podemos esperar do 'novo' Black Sabbath

Estadão

14 de novembro de 2011 | 17h00

Marcelo Moreira

A novela da volta do Black Sabbath acabou e parece que muita gente bestá realmente feliz, embora o anúncio da volta, na última sexta-feira, não tenha causando uma grande comoção. Nem deveria, já que os boatos de retorno estavam rolando pela internet desde o primeiro semestre e ganharam força quando um repórter do jornal inglês Birmingham Post colocou inadvertidamente o conteúdo de uma conversa sigilosa com o guitarrista Tony Iommi na internet em julho.

Ozzy Osbourne, Tonny Iommi, Geezer Butler e Bill Ward se apresentaram juntos pela última vez na cerimônia de abertura do “Rock And Roll Hall Of Fame”, de 2006, em que foram premiados.

Ao contrário do que aconteceu em 1997, o mundo não parou na última sexta-feira com o anúncio do retorno da formação original e clássica do Black Sabbath. Além de um novo álbum com músicas inéditas, o grupo pretende engatar uma turnê mundial a partir do meio do ano que vem.  O último álbum de estúdio do Black Sabbath é “Forbidden”, de 1995, com Tony Martin nos vocais. e somente Iommi da formação original.

Os boatos correram de maneira mais intensa na internet a partir de junho passado, quando o guitarrista Tony Iommi encerrou todos os compromissos do projeto beneficente WhoCares, que mantém ao lado do vocalista Ian Gillan (Deep Purple). Em algumas entrevistas, deu pistas de que poderia haver novo trabalho ao lado do vocalista Ozzy Osbourne – com ou sem Black Sabbath.

Os rumores ficaram mais fortes no final de julho, quando “fontes” não identificadas declararam a dois jornais ingleses que Iommi e Ozzy teriam se encontrado três vezes em julho e que o retorno do Black Sabbath era iminente, o que acabou se confirmando na noite de terça-feira em Londres.

A notícia foi recebida com certa indiferença no meio musical, embora o mundo do heavy metal esteja em festa. Há 14 anos, o retorno da formação principal do grupo – Ozzy, Iommi, o baixista Geezer Butler e o baterista Bill Ward – foi a notícia do ano, movimentando milhões de dólares em merchandising e eventos paralelos à turnê mundial que se seguiu.

Todo o catálogo da banda foi relançado em CDs remasterizados, até mesmo os da fase sem Ozzy. O ponto alto foi o lançamento de um CD duplo ao vivo, “Reunion”, no final de 1998, com duas músicas inéditas de estúdio gravadas com aquela formação – as primeiras gravações do quarteto original desde o álbum “Never Say Die”, de 1978.

Formação original e clássica dso Black Sabbath nos anos 70: Iommi, Ozzy, Butler e Ward

As duas faixas, “Psycho Man” e “Selling My Soul”, foram gravadas no piloto automático, sem ânimo e sem a menor vontade – tanto que Iommi admitiu em 2000 que Ward não tocou bateria na segunda música, sendo o produtor Bob Marlette se encarregou de adicionar um instrumento eletrônico simulando o instrumento.

Sem entusiasmo, vale a pena?

O entusiasmo mediano com a confirmada volta do Sabbath recoloca a questão: o mundo realmente precisa de mais uma reunião de veteranos, ainda que sejam supercraques como o Black Sabbath?

Fiz essa pergunta em 1989 e 1996 quando The Who resolveu retomar as atividades. Sempre é maravilhoso ver gigantes do rock de volta à ativa, mas em alguns casos o cheiro de armação e de falta de espontaneidade fica evidente. Foi o caso do Who nas duas oportunidades – e o mesmo se deu com o Queen com Paul Rodgers, com o Bad Company atual e com o Thin Lizzy de 2011, entre muitos outros.

Quando Tony Iommi anunciou que voltaria a compor com Ronnie James Dio e Geezer Butler para o lançamento de uma coletânea dos anos do vocalista na banda, todo mundo ficou com um pé atrás.

Dio cantou com a banda depois que Ozzy saiu, em 1979. Ficou de 1980 a 1982, para um breve retorno entre 1992 e 1993. Musicalmente deu muito certo nas duas passagens, com a criação de obras-primas, mas a parceria sempre terminou em trauma, com acusações mútuas de traição e sacanagem.

A mágica de Ronnie James Dio

Mas eis que a química ressurgiu em 2006 quando Iommi, Butler e Dio gravaram três músicas novas para a coletânea “Black Sabbath – The Dio Years”. As músicas eram poderosas e de excelente qualidade.

Imediatamente veio a ideia de chamar o baterista Vinnie Appice e reviver o Black Sabbath da fase Dio e armar uma turnê mundial. Ozzy chiou, ainda que de forma sutil, e o Black Sabbath mudou de nome para Heaven and Hell – álbum e música homônimos, de 1980 e símbolo maior da fase Dio.

 

Black Sabbath em 1992, na turnê de lançamento de ‘Dehumanizer’: Butler, Dio, Iommi e Appice. Essa também foi a formação do Heaven and Hell, criado em 2007 e que acabou em 2010 com a morte de Dio

“Cansamos de esperar Ozzy decidir o que queria fazer. Aí, de repente, ele diz que estava gravando novo álbum solo. Tomamos o nosso caminho”, disse Iommi em 2007 em entrevista à Guitar Player norte americana.

A nova parceria com Dio rendeu duas turnês mundiais, com passagem pelo Brasil, dois DVDs maravilhosos e um álbum de músicas inéditas, “The Devil You Know”. “Essa volta era o que faltava para que possamos terminar o que foi interrompido duas vezes em 1982 e em 1992”, afirmou Dio em 2009 a este jornalista, durante sua passagem pelo Brasil.

Pela terceira vez, os planos foram interrompidos. No fim de 2009 Dio descobriu o câncer no estômago que o mataria em abril de 2010, aos 67 anos. Mal foi enterrado, e recomeçaram os boatos de que o Black Sabbath original voltaria a se reunir.

Feridas a serem curadas

E como ficam as feridas da última turnê? Ninguém toca no assunto. Bill Ward é realmente um problema, já que sua saúde frágil inspira cuidados. Um baterista reserva deverá ser contratado, como na turnê de 2003-2004. O mesmo Vinnie Appice seria o mais cotado.

 

Depois de um hiato de 18 anos, a formação clássica se reúne para uma turnê histórica em 1997, que rendeu um CD duplo ao vivo

Outra questão é a pouca flexibilidade de Ozzy em relação ao repertório. Na última turnê, o Black Sabbath tocou as mesmas dez músicas em todos os shows, o que desagradou muito Geezer Butler.

Na época o vocalista sofria para conseguir redecorar as letras e fazia questão de não cantar mais do que dez músicas nem de permitir trocas no repertório – sem falar em seus frequentes problemas de saúde, que provocou a sua substituição em um show na Áustria, em 2004, por Rob Halford, do Judas Priest.

O que mais pegou, entretanto, foi a posição ocupada pelo Black Sabbath no Ozzfest 2004, que acabou sendo a turnê mundial da banda naquela época.

Iommi nunca escondeu que não engoliu o fato de Ozzy Osbourne fechar o evento todas as noites cantando músicas de sua carreira solo, após a apresentação do Black Sabbath. Ou seja, estava mais do que claro que Ozzy era a maior atração, mais importante do que o grupo que criou em 1968. Apesar dos protestos e das reclamações, Iommi nunca conseguiu dobrar Sharon Osbourne, esposa e empresária de Ozzy.

Como essa questão será encarada? As reações são imprevisíveis, em se tratando de Black Sabbath. O fato é que há muita coisa contra esse retorno, e infelizmente as “ondas negativas” partem do lado do vocalista.

Seja como for, mesmo que não seja memorável, se rolar mesmo, será interessante ver como se comporta o Sabbath no palco e em estúdio em 2011. Se ficar ruim, ainda assim será melhor do que 99,5% do existe no mercado hoje em dia.

Tudo o que sabemos sobre:

Black SabbathGeezer ButlerTony Iommi

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: