O que é blues? Pergunte a Robert Crumb

Estadão

23 de outubro de 2010 | 23h05

Marcelo Moreira

Poucas vezes vi traduzidas em palavras e desenhos com tabta fidelidade o que significa o gênero musical blues. Mestres do gênero tentaram verbalizar – Eric Clapton, Muddy Waters, Buddy Guy, Stevie Ray Vaughan, Magic Slim, John Mayall, Sonny Boy Williamson -, mas sempre faltava alguma coisa. Qualquer definição soava incompleta.

Mas eis que o escritor e quadrinista Robert Crumb conseguiu a proeza ao explicar de forma definitiva o que é blues em um livro de história em quadrinhos chamado de forma muito “original” de “Blues”.

Com 108 páginas, a editra Conrad reedita o obrigatório livro no Brasil. Nunca fui fã de histórias em quadrinhos, muito menos de Crumb e de seus traços grosseiros e de sua incorreção política inclinada à esquerda. Mas revi minha avaliação após ganhar de presente esse “Blues” apaixonante e vigoroso.

Está tudo lá, de forma simples e sincera, o surgimento, a importância, o sentimento, a beleza e todo o conceito que levou o gênero a se tornar a base de todo o rock e música pop ocidental. De forma concisa, Crumb contextualiza de forma didática porque o blues se tornou um dos pilares culturais e até filosóficos de nossa sociedade.

Nesta semana reli uma resenha bem feita deste livro no blog A Horse With No Name (apesar do nome, é em português, no endereço www.cavalosemnome.blospot.com), que, por sua vez, reproduzia o que foi publicado no excelente blog de cultura pop Scream&Yell (também em português, www.screamyell.com.br). De autoria de Marcelo Costa, resume bem a importância da obra relançada:

Além da crítica voraz de Crumb, em histórias recheadas de cinismo e diretas no queixo da juventude consumista, Blues traz as ilustrações coloridas do quadrinista para capas de discos, revistas e até filipetas de sebo e selos de vinis.

Robert Johnson é retratado com suprema maestria para a capa da revista 78 Quarterly (1988) enquanto o violinista Louie Bluie ganhou uma sensacional capa de disco: de um lado, uma bela negra seminua e do outro, ele, o demônio.

Entre os dois, o blueseiro. No entanto, nenhuma capa de disco de Crumb ficou mais famosa que a para o álbum Cheap Thrills, da banda Big Brother & The Holding Company, que contava com os vocais da então desconhecida Janis Joplin, amiga de Crumb.

Clássica é pouco para a capa do disco. A própria capa do livro foi retirada também de uma capa de disco, a coletânea Harmônica Blues, com canções dos anos 20 e 30.

Blues é, mais do que qualquer outra coisa, uma reverência ao passado, e como observou Rosane Pavam no ótimo prefácio do livro, “o passado é uma ilusão – e como ilusão precisa ser restabelecido, ou ser um homem não fará senso”.

Por baixo da veia satírica com que Crumb detona os dias atuais e se declara apaixonado pelo passado também há muita nostalgia. A crítica, no entanto, serve para chacoalhar o leitor e mostrar que as coisas que existem hoje em dia brotaram no passado e foram sendo afetadas pela cultura de massa até tomarem a forma que tomaram.

E vão continuar mudando. No fundo, bem lá no fundinho, música boa é música antiga. Se tirarmos as histórias inventadas, as roupas, o glamour, a moda e o marketing, pouco sobra de tudo que ouvimos atualmente da “melhor banda de todos os tempos da última semana”. É ali, no som do violão cru e da voz rascante que está a redenção. Nos velhos discos de vinil (discos de vinil? Meu Deus, o que é isso?) de 78 RPM. Amém.