O que David Bowie pode ensinar para as empresas e para os empreendedores

Estadão

01 Fevereiro 2013 | 06h30

Estadão PME
Divulgação
Divulgação
Empresário pode aprender com lançamento do artista

Fazer uma mudança radical mesmo quando a estratégia escolhida mostra-se acertada. A manobra é arriscada. Nem mesmo multinacionais com musculatura reforçada pagam para ver o impacto de uma ação de grande porte sem antes assegurar, com uma infinidade de pesquisas, de que o resultado será positivo e rentável. A máxima é tão engessada que a simples quebra do ciclo de garantias e certezas provoca inquietação coletiva. Principalmente se a ousadia for protagonizada por um astro da música como David Bowie, e não por uma instituição corporativa como a Microsoft ou a Coca-Cola.
Na manhã do dia 8 de janeiro o mundo foi surpreendido por Bowie com o lançamento do single The Next Day, o primeiro depois de uma década de reclusão — e, por parte dos fãs, a presumida aposentadoria de David. Em seguida, o anúncio de que um novo disco estava pronto e previsto para ser lançado em março. Um espanto mundial, levando-se em consideração que durante dois anos o músico trabalhou em um novo produto sem que qualquer informação sobre o disco vazasse na imprensa. Tudo isso em plena era dos smartphones potentes, do compartilhamento em redes sociais e de um mercado musical que agoniza por salvação desde a popularização da internet.

Operação sigilosa
Estrategista bem sucedido em outras fases da carreira, David Bowie demonstra em seu ressurgimento, mais uma vez, a capacidade de lidar com o que grandes potências corporativas ainda não conseguiram. Suas atitudes colocam em cheque os manuais de administração e marketing. E, ao fazer isso de forma peculiar, ele comprova todo seu potencial empreendedor.

“Nós nunca vimos isso antes. Uma verdadeira lenda soltando o anúncio, a música, as fotos, tudo em um piscar de olhos”, disse Tim Ingham, editor da revista Music Week em entrevista ao The Guardian. “A falta de informações aumentou o impacto. Tratando-se de um ‘produto’ como esse, com o peso que o nome dele tem para a música, ele (Bowie) voltou como uma tempestade na mídia de forma que nenhum outro artista conseguiu nos últimos anos”, avalia.

A forma discreta como lidou com a produção do novo trabalho e manteve o seu regresso em segredo é resultado de experiências anteriores. Como um bom administrador, o artista dividiu a informação com poucas pessoas. O produtor Tony Visconti, alguns músicos, seu gerente de negócios, Bill Zysblat, e Corrine Schwab, assistente e leal amiga.

Nem mesmo sua gravadora, a Sony Music, estava sabendo do projeto. Rob Stringer, presidente de um dos braços da companhia – e uma das pessoas mais poderosas da indústria fonográfica mundial – só tomou conhecimento do que estava sendo feito pouco antes do lançamento do single, quando foi convidado pelo artista a ir até o estúdio onde as gravações estavam sendo realizadas.

“Ele tem o respaldo que grandes nomes da música têm. Às vezes, alguns artistas ficam anos trabalhando em um disco. O Guns n Roses fez isso com o álbum Chinese Democracy. A gravadora (Universal) não pressionava porque sabia que quando eles entregassem o disco seria bom. Com o Bowie acontece o mesmo”, comenta o produtor musical e também empresário Rick Bonadio, dono do estúdio Midas.

Ao convencer a equipe a manter sigilo por quase dois anos, Bowie promoveu a união do grupo e o alinhamento dos propósito. Além, claro, de estar cercado de profissionais qualificados que o ajudaram a manter o projeto em segredo.

Menos é mais

O artista não fez estardalhaço, não gastou fortunas com a divulgação do trabalho e ainda assim conseguiu provocar um estrondo na imprensa especializada ao lançar a música no dia do seu aniversário, 08 de janeiro. O single virou assunto e Bowie, novamente, voltou a estampar jornais, sites e revistas do mundo inteiro. A tática de pouco barulho usada pelo astro surpreendeu até a gravadora. Quando questionado sobre como seria o trabalho de relações públicas para anunciar o seu retorno, diz o Guardian, Bowie teria dito a Stringer que não haveria. “Nós vamos liberar a música no dia 8 e é isso é tudo”.

Para analistas de marketing, a abordagem descontraída e simples teve um efeito positivo e o músico demonstrou sabedoria ao usar a fama. “Quantas vezes ao longo dos últimos 10 anos você viu fotos dele? Ele deve ter sido fotografado por paparazzis três ou quatro vezes no máximo. E ele não é um recluso. Ele apenas é visto quando quer ser visto”, disse uma fonte próxima ao cantor à versão americana da revista Rolling Stone.

Marketing à sua maneira
Lançamentos surpresa são democráticos. Todos ouvem ao mesmo tempo e ninguém é beneficiado pela antecedência. “A maneira como você vende a sua marca é tão importante quanto o que você diz sobre isso”, avaliou ao The Guardian Rachel Miller, especialista em marketing.

Além disso, David Bowie não esqueceu o principal: seus “clientes”. Ao usar o seu site para divulgar informações sobre o lançamento e não as redes sociais, plataforma escolhida por empresas e a maioria das personalidades públicas, Bowie conseguiu um impacto maior junto aos fãs. “Quando uma marca está constantemente atuando nas mídias sociais tudo o que ela diz ganha o mesmo peso e mensagens importantes podem ser ignoradas”, explicou Rachel.

Ao mesmo tempo em que correu por fora da curva, o artista não ignorou as inovações tecnológicas. Pelo contrário. Em pouco tempo, anunciou o lançamento de um aplicativo onde os fãs poderão recriar a arte da capa de seu novo disco, The Next Day, utilizando fotos pessoais que postam no Facebook.

Não é possível dizer que a abordagem tranquila de David Bowie vai interferir positivamente nas vendas do disco que será lançado em breve. É impossível, também, avaliar se essa era a sua real intenção. Para fãs devotos, não trata-se de uma ação interesseira com foco em dinheiro. Para eles, é apenas mais uma das facetas do artista.

Mais conteúdo sobre:

David Bowie