O punk não matou ninguém – uma grande mentira na área musical

Estadão

16 de fevereiro de 2012 | 06h48

 Por uma coincidência fortuita, encontrei este texto no site Whiplash, o melhor sobre rock em língua portuguesa. No último final de semana, em um encontro de amigos, o tema punk x rock em geral surgiu devido a uma afirmação de um pretenso crítico musical em um programa de TV sobre como o movimento liderado pelos Sex Pistols supostamente teria enterrado o que hoje chamamos de classic rock. Claro que isso é uma enorme bobagem, pois o punk morreu rapidinho, enquanto o rock progressivo, por exemplo, está vivo e gerando cada vez bandas  legais – Flower Kings, Spock’s Beard, Glass Hammer, Magenta, Magic Pie, só para citar algumas. O texto abaixo, publicado no interessante blog Consultoria do rock e republicado pelo Whiplash, coloca as coisas os seus devidos lugares. (Marcelo Moreira) 

 
Marco Gaspari – Consultoria do Rock

Faz de conta que você está lendo isto em novembro de 1986.

Muita gente considera 1976 o ano zero do punk rock. E, claro, o último suspiro do rock progressivo. Em 26 de novembro daquele ano, um meteoro chamado SEX PISTOLS caiu na superfície de Londres e varreu da face da Terra todos os pomposos dinossauros de calça boca de sino e capa de lantejoulas. Para algumas bíblias do catecismo roqueiro, foi o maior serviço prestado ao bom e velho e rock ‘n’ roll.

Bom, passados dez anos do efeito “Anarchy in the UK” e aproveitando que a poeira radioativa levantada por tal meteoro já foi absorvida pela atmosfera da mídia, embora muitas matérias no mundo inteiro estejam comemorando com fogos excessivos a primeira década desta importante revolução musical, fica a pergunta: o punk realmente matou o rock progressivo? Considerando a Inglaterra como a cena do crime e examinando todas as evidências posteriores, eu diria, enfaticamente, que não. Não só o punk não matou o progressivo (como exploraram de forma sensacionalista as revistas NME, Melody Maker, Sounds e outros representantes menores da imprensa musical marrom de sua majestade), como o prog passou por um de seus períodos mais dourados justamente nos anos em que imperou o punk rock.

Senão vejamos: em 1977, o ano imediatamente após o lançamento de “Anarchy in the UK”, que viu o SEX PISTOLS arrebatar o primeiro lugar nas par”adas com o LP “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols e o THE CLASH assinar um contrato milionário com a CBS e ver seu álbum de estreia emplacar um 12° lugar (só para citar duas bandas), vários grupos progressivos fizeram grandes turnês pela Inglaterra promovendo o lançamento de seus álbuns, todos Top 10 nas paradas britânicas: PINK FLOYD com “Animals”, YES com “Going For The One” e GENESIS com “Wind & Wuthering”. Ainda nesse ano o VAN DER GRAAF GENERATOR lançou “The Quiet Zone/The Pleasure Dome”, o GENTLE GIANT lançou “The Missing Piece”, o JETHRO TULL lançou “Songs From the Wood” (13° lugar na Inglaterra) e o ELP lançou os dois volumes de “Works” (o primeiro alcançou o 9° lugar).

Só que isso não estava nas páginas da imprensa musical londrina. Para ela, essas bandas jurássicas simplesmente não existiam mais, pois a vitória do proletariado punk sobre a burguesia progressiva foi esmagadora. O que os arautos da imprensa roqueira não previam é que antes mesmo do final da década o punk não mais se sustentaria nas suas propostas originais, passando a misturar seus três acordes com os mais variados ritmos (aquela coisa que os músicos progressivos chamavam de fusion, hehe…), e o PINK FLOYD cometeria um dos álbuns de maior sucesso de todos os tempos: “The Wall” (1979).

Os anos 80 também começaram de pernas para o ar. Caso contrário, como explicar o som do chamado pós-punk inglês: SIOUXSIE & THE BANSHEES cada vez mais parecida com o CURVED AIR, o ULTRAVOX ressuscitando os primeiros anos do ROXY MUSIC, o CABARET VOLTAIRE sampleando o HAWKWIND, o SIMPLE MINDS sendo produzido por STEVE HILLAGE, o WIRE tocando uma música de 15 minutos em uma sessão do programa do radialista John Peel, e John Lydon, veja só, não escondendo mais sua admiração juvenil pelo VAN DER GRAAF GENERATOR e as bandas de krautrock. O rock progressivo, por outro lado, dava o ar de sua graça em todos os níveis: o Rock in Opposition do HENRY COW (depois ART BEARS) influenciava várias bandas do underground inglês, o KING CRIMSON voltava com tudo, lançando o primeiro álbum de sua trilogia colorida, e as paradas oficiais começaram a recepcionar as bandas de neo-prog como o MARILLION, UK, IQ, PENDRAGON, TWELFT NIGHT, AFTER THE FIRE e PALLAS. Havia espaço até mesmo para o surgimento de um supergrupo progressivo, o ASIA, que juntou John Wetton, Geoffrey Downes, Steve Howe e Carl Palmer, todos eles Lázaros redivivos do progressivo setentista.

Pois é, neste mês fazem 10 anos que o punk matou o rock progressivo. A imprensa inglesa continua insistindo em enfatizar isso e ainda insistem em ignorar os grupos progressivos. E mesmo assim, sem nenhuma repercussão na mídia e mortinho da silva, o prog insiste em desmenti-la e continua respirando, aguardando pelo próximo meteoro, quem sabe um mais eficaz desta vez.

 

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