O público foge e o metal nacional ainda busca explicações

Estadão

10 de junho de 2013 | 06h38

Marcelo Moreira

Está crescendo o número de fãs e apreciadores de rock que culpam as bandas brasileiras de heavy metal pela falta de público em seus shows no Brasil. Mesmo com o surgimento de muitos grupos bons nos últimos cinco anos, a plateia diminui cada vez mais, reforçando a preferência por shows internacionais, que neste 2013 chegou ao ápice de quase um a cada três dias em São Paulo. Qual é a culpa que estas bandas têm? O que estão fazendo de errado?

A julgar pelos resultados interessantes de bandas como Lothloryen e Shadowside, nada – pelo contrário. O Lothloryen está neste momento em sua mais importante turnê europeia, ainda tocando em casas de portes pequeno e médio, mas sempre com lotação esgotada.

Já o Shadowside é a bola da vez, sendo a banda brasileira mais bem-sucedida no exterior neste momento, ao lado do Krisiun. O quarteto de Santos acaba de voltar de uma turnê de sucesso pela Europa ao lado de Helloween e Gamma Ray, com shows lotados em casas grandes. Voltou recentemente ao Brasil e, para comemorar, agendou uma apresentação em São Paulo, a primeira completa, como atração principal da banda na capital, para comemorar o bom momento. Entretanto, mais de um mês de divulgação não foi suficiente para colocar mais do que 300 pessoas no Via Marquês.

Muita gente toma por base o sucesso da volta do Viper no ano passado, que fez uma turnê por quatro meses com shows quase todos lotados. Andre Matos, por sua vez, lotou o mesmo Via Marquês no começo de maio. Então o que acontece?

Ocorre que o metal nacional foi abandonado por seu público, e isso é um fato. Andre Matos colocou mil pessoas em seu último show, quando dez anos antes atraía 5 mil quando estava no Shaman ou no Angra. Edu Falaschi está recomeçando quase do zero com seu Almah.

O ex-vocalista do Angra e sua atual banda conseguem lotar casas como o Manifesto, mas ainda precisam remar muito para engatar uma turnê bem-sucedida no Brasil com grande carga de ingressos vendidos. O Almah é de São Paulo, onde se concentra o maior público do metal, mas se fizer um show por semana não conseguiria um terço da lotação que teria o primeiro show.

Outras bandas, notadamente as de metal extremo, precisam se unir em minifestivais esporádicos para reunir 800 pessoas em locais como Hangar110 – e precisam comemorar muito quando reúnem essa quantidade de público. Cadê o público?

A grande quantidade de shows internacionais do primeiro semestre ajudou a espalhar ainda mais a plateia. Teve atração para todos os gostos: Anthrax, Yes, Testament, UFO, Down, Twisted Sister, Vinnie Moore, Steve Grimmet e muitos mais. O preço médio destes shows foi de R$ 150. O Shadowside cobrou R$ 40 em sua “estreia” em São Paulo.

Apesar da diferença, muita gente afirma que não sobra dinheiro para as bandas brasileiras. O raciocínio é bem simples: teoricamente,  posso ver Shadowside, Andre Matos, Almah, Dr. Sin e outras a hora que eu quiser, pois estão sempre tocando por aqui. O Anthrax vem ao Brasil uma vez a cada dez anos, assim como o Testament. O Twisted Sister é capaz de nunca mais vir. Portanto, essa é a prioridade.

Faz sentido, mas não explica tudo. Jornalistas, produtores de shows e mesmo músicos cravam outra estaca no meta nacional: o público fugiu porque a qualidade caiu, tanto das apresentações como dos álbuns. Nenhuma banda brasileira, na visão de muita gente, gravou algo que prestasse no século XXI, incluindo Angra, Sepultura, Almah, Andre Matos e muitos outros.

Shadowside toca em casa lotada na República Tcheca (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O argumento não se sustenta. O Sepultura lançou o seu melhor álbum com Derrick Green nos vocais em 2011. “Kairos” é ótimo. O Angra lançou na década passada o igualmente ótimo “Temple of Shadows”, enquanto o Shaman rebateu com o bom “Ritual”. E os exemplos continuam: “Unpuzzle”, do Maestrick, é muito bom, assim como “365”, do Mindflow e “Inner Monster Out”, do Shadowside”. “Discipline of Hate”, do Korzus, é possivelmente um dos cinco melhores álbuns de rock extremo dos últimos 20 anos no Brasil. “Animal”, do Dr. Sin, talvez seja o álbum mais bem-sucedido da banda depois do álbum de estreia.

Portanto, falta de qualidade não é. Ao vivo, Krisiun faz shows cada vez melhores, assim como o Sepultura, que ganhou novo alento com a chegada do baterista Eloy Casagrande. Idem em relação ao Korzus, que anda tocando pouco ultimamente. O Dr. Sin continua atraindo sua fiel legião de fãs e tem feito apresentações irretocáveis. Falar em falta de qualidade, neste caso, soa como desrespeito e esbarra na desonestidade intelectual.

Edu Falaschi fica indignado quando ouve que a culpa pela falta de público é das bandas. “Como assim? As bandas gastam o que não tem para fazer bons CDs, camisetas, sites profissionais, tocam na maioria das vezes de graça, 90% dos shows são em lugares ruins, com som ruim, etc, e aí a culpa é das bandas? É desolador.”

Edu Falaschi

O cantor toca em uma questão importante: o amadorismo na produção de shows e na condução dos negócios ligados à música. A produção de palco e de turnês não acompanhou a evolução verificada nos estúdios. Ainda há gente muito mal preparada e ambiciosa – quando não mal intencionada – atuando em um mercado que aparentemente promete ganhos fácil e sem muito esforço.

O fracassado Metal Open Air, no Maranhão, em 2012, é um exemplo de falta de preparo e de um passo muito maior do que se poderia dar. Não só arranhou a imagem dos produtores brasileiros e da produção em geral no Brasil como pode ter ajudado a aumentar a desolação do fã brasileiro, contribuindo para a fuga do público ainda mais.

São recorrentes as reclamações de músicos a respeito das condições péssimas que encontram em todo o Brasil, inclusive em São Paulo, como bem ressaltou Falaschi. O tratamento dispensado ao público – filas intermináveis para shows pequenos, seguranças despreparados e truculentos, dificuldades na hora de comprar ingresso, preços acima do que o evento vale, locais inadequados e com péssima estrutura de som, etc – não podem ser desprezados.

Tem gente que prefere gastar R$ 200 em um show no HSBC ou no Credicard Hall contando com condições gerais no mínimo razoáveis para ver um espetáculo – que na grande maioria das vezes as duas casas oferecem. Não dá para recriminar quem pensa assim e quem evita o aperto e falta de segurança de lugares menores, como alguns bares, casas noturnas e bares/casas de show por aí.

Também não pode ser desprezado o complexo de vira-lata do Brasileiro. Parte do público ainda desconfia da qualidade das bandas brasileiras. Qualquer bandinha mediana holandesa ou sueca conta com seu público fiel no Brasil, e tem a preferência em relação aos grupos nacionais.

Ok, tudo bem, de vez em quando nomes consagrados pagam mico e tocam para ninguém no Brasil. O Morbid Angel, ícone norte-americano do metal extremo, mal conseguiu colocar 200 pessoas em sua recente passagem por São Paulo. Já o Live’n’Louder, festival com seis bandas e encabeçado pelo Twisted Sister, mal conseguiu levar 2 mil pessoas ao gigante Espaço das Américas.

Há quem diga que os dosi exemplos são indício de que o mercado está saturado de shows internacionais. Mas essa não é a regra. Até mesmo artistas veteranos há muito no ocaso das carreiras atraem mais gente, mesmo vindo sozinhos e tocando com músicos brasileiros, caso do inglês Steve Grimmet.

Alguns músicos reclamam de que falta união entre as bandas, algo que existia nos anos 80, no começo de tudo, “onde todo mundo se ajudava e torcia pelo outro”, ajudando a fomentar uma cena. Rixas entre os principais nomes do metal nacional dos anos 90 – notadamente Angra e Sepultura, e até mesmo, em alguns momentos, envolvendo o Korzus, explicariam em parte o espírito dominante no que poderia ser chamado de cenário nacional.

Não para saber até que ponto isso é verdade. Sempre houve rixa, inveja, rivalidade e competição em qualquer cena musical, de todos os estilos. Responsabilizar supostas desavenças ou mesmo a corrida pelo sucesso entre os grupos não me parece suficiente para explicar a ausência de público nos shows nacionais – até porque gente como o Shadowside nada tem a ver com isso.

Os motivos alegados são variados, mas nenhum parece suficientemente contundente para explicar o que está ocorrendo. Mesmo assim, a cada dia bandas brasileiras quem cantam em inglês e português lançam seus trabalhos em CD ou para download (pago ou gratuito).

Carro Bomba, Golpe de Estado, Uganga, Age of Artemis, Souspell, NervoChaos, Distraught, Project46 e muitos outros continuam investindo em sues trabalhos autorais, gastando dinheiro com estúdio, produção, horas e horas em composição, arte para capa e divulgação, acreditando no valor artístico do que produzem. Vale a pena?

Se observarmos a presença de público dos últimos shows, não vale. Enquanto todo mundo busca uma explicação convincente para entender a fuga de público, é necessário que haja mentes se preocupando em criar maneiras de recuperar a plateia e estimular a proliferação de shows. É necessário, no momento, convencer o fã de que apresentações de bandas nacionais valem a pena, e de verdade.

Que venham mais iniciativas como a dos integrantes do site Wikimetal, iniciativa que se torna uma das mais representativas na valorização dos grupos brasileiros e que deu um grande suporte para a volta do Viper, para a turnê mais recente de Andre Matos e para os shows de Shadowside e SupreMa.

O Wikimetal acredita na possibilidade de resgatar um público há muito afastado dos shows, mesmo com a imensa quantidade de shows internacionais, com as suposta e falaciosa falta de qualidade e das eventuais rixas e rivalidades. A filosofia deste grupo é um exemplo a ser seguido.

 

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