O primeiro disco da banda do resto de nossas vidas

Estadão

28 de abril de 2013 | 07h10

Regis Tadeu – publicado originalmente no site Na Mira do Regis

Faz 50 anos que um disco simplesmente derreteu o cérebro de toda uma geração de moleques espinhudos e garotas com hormônios em ebulição vulcânica, fazendo a massa liquefeita escorrer pelas orelhas. Meio século de um tempo que nunca foi o que deveria ter sido justamente por conta deste álbum, gravado por quatro sujeitos vestindo terninhos de fino corte e com cortes de cabelos um pouco mais compridos que o padrão vigente na época. Meio século que seria completamente diferente caso as canções contidas em Please Please Me não tivessem vindo ao mundo pelas mãos habilidosas de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e o produtor George Martin.

Nem é preciso comentar a respeito do conteúdo musical deste álbum espetacular. Só quem viveu em Saturno nos últimos 652 anos desconhece a deliciosa qualidade de cada uma das canções incluídas nele. Não é a respeito disto que quero escrever aqui. O que me interessa – e ainda impressiona – é o impacto que isto teve em nossas vidas.

Eu tinha apenas três anos de idade quando este disco foi lançado na Inglaterra. Não sei ao certo em que ano ele chegou ao Brasil, já que datas eram informações que não eram colocadas nos álbuns daquela época em nosso país. Lembro bem que comecei a gostar da banda quando descobri alguns compactos escondidos no fundo de uma gaveta na sala lá de casa. Em uma época sem qualquer meio de obter alguma informação, um garoto pastava muito até descobrir alguma coisa…

Só cheguei até Please Please Me por conta de minha saudosa mãezinha – a adorável e imortal Dona Irene -, que comprou para mim no Natal de 1970 uma vitrolinha portátil e o referido LP, que venha embalado em uma capa plástica que anos mais tarde descobri se chamar “capa sanduíche”. Junto com o primeiro LP do Black Sabbath importado que minha mãe havia comprado alguns meses antes, este disco dos Beatles fez a massa encefálica dentro de minha cabeça dar piruetas por meses a fio. Foi o tempo em que minha vida começou a ser definida…

Escrevo isto porque tenho certeza que todo mundo tem um disco ou música que transformou a vida em algo muito diferente do que estava planejado. Para melhor ou pior, não importa. Só que cada canção de Please Please Me bateu tão forte do espírito de minha geração que demorou muito tempo para a gente se tocar que várias canções do LP não eram dos Beatles e sim de outros artistas, como “Anna”, que era de um cantor de country soul chamado Arthur Alexander, “Chains”, que havia sido gravada anteriormente pelas The Cookies, e a própria “Twist and Shout”. Nada disto importava perante o assombro e o arrepio que percorria a nossa espinha quando ouvíamos o LP de ponta a ponta, hipnotizados com a audição de algo que parecia ter vindo de outra galáxia.

O mais incrível é que, neste exato momento em que escrevo estas palavras, Please Please Me está rolando no som aqui de meu apartamento e continua a provocar as mesmas sensações que tive aos dez anos de idade. E é exatamente o que define uma obra-prima musical: ela jamais envelhece. Torço para que o meu espírito tenha o mesmo destino…

Faça um favor a si mesmo e a sua família: hoje à noite, reúna seus filhos em volta do equipamento de som e ponha este disco para tocar, da primeira à última faixa. O sorriso que irá se instalar nos rostos da garotada não vai ter preço…

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