O pop rock nacional sumiu do mercado

Estadão

19 de setembro de 2011 | 06h28

Marcelo Moreira

O pop rock brasileiro sumiu. Não há vestígios dele nas poucas lojas de CDs e DVDs que sobraram, nas lojas virtuais e nas emissoras de rádio – que são mais raras ainda na difusão de tal segmento. Quando muito, o que se vê no dial das FMs e no comércio são os velhos heróis dos anos 80, que ainda vendem razoavelmente bem. De resto, esterilidade total – não há nem mesmo mesmo uma única banda ou artista novo da área que chame a atenção.

Mas a situação fica cada vez mais assustadora quando se observa a enorme lista de atrações do Rock in Rio 2011 é se tenta uma breve comparação com o evento inaugural, de 26 anos atrás: não existe mais pop rock nacional na segunda década do século XXI.

A organização do megaevento decidiu apostar, nos vários palcos da edição de 2011, no tiro certo. Estão lá os ícones da geração dos anos 80, como Titãs, Roberto Frejat (Barão Vermelho), Capital Inicial, Jota Quest, Marcelo D2 (ex-Planet Hemp), Cidade Negra (??????) e Skank, entre outros – todos os citados com no mínimo 15 anos de carreira, na maior parte do tempo bem-sucedida. Tiveram que chamar até mesmo a nova reencarnação dos Mutantes, um grupo fundado há quase 45 anos.

Pitty , Marcelo Camelo (ex-Los Hermanos) e Detonautas são atrações secundárias e também estão há uns bons dez anos na estrada – e já viveram dias bem melhores, tanto em termos de mercado como de criatividade. Ou seja, falta novidade no segmento pop rock para atrair público.

Capital Inicial em ação no SWU de 2010; com quase 30 anos de carreira, é uma das "grandes" atrações do rock nacional no Rock in Rio 4 (Foto: Flavio Moraes / Fotoarena)

O jeito foi chamar NX Zero e Gloria para tocar no palco principal – atrações que, por si só, não necessita maiores comentários e expõem de forma dramática a crise que assola o rock brasileiro. De novidade mesmo, digna de nota, temos o interessante Móveis Coloniais de Acaju e a banda de rock pesado Matanza, que não é novata, pelo contrário.

Nada contra a participação de um grande número de bandas e artistas consagrados e com anos de carreira. A questão não é essa. O que chama a atenção é que a nova geração do pop rock, a rigor, está representada mesmo, para valer, apenas com NX Zero (que tem dez anos de carreira, mas despontou um pouco mais tarde) e Gloria, duas bandas que, gostem ou não, se encaixam no “perfil” emo. Cadê o rock nacional de qualidade que esteja despontando?

A comparação com o Rock in Rio I, de 1985, é covardia. Havia todo um contexto político e social dos mais interessantes na época e, de certa forma, houve um despertar cultural jovem que teve a música como sua principal expressão. E os organizadores, à época, tiveram sensibilidade para perceber o momento e, dentro do possível, convocaram os principais expoentes daquela geração que nascia.

Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho foram as grandes atrações do rock nacional emergente que se apresentaram naquela edição. Fizeram shows elogiados, dentro dos parcos limites técnicos e de tempo concedido aos artistas brasileiros. As duas bandas estavam no auge.

 

O ótimo Matanza: ao menos um representante do rock pesado brasileiro cantado em português no Rock in Rio 4; sua escalação foi uma grande surpresa...

Houve espaço até mesmo para o pop mais rasteiro e comercial, como nos casos de Blitz e Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, que também desfrutavam de sucesso na época e se tornaram parte importante da cena.

E o que falar então do time de bandas importantes – boas ou ruins – que também faziam bastante sucesso, vendiam muito e tocavam bastante no rádio? Titãs, Ultraje a Rigor, Ira!, Inocentes, Plebe Rude, Capital Inicial, Lobão e os Ronaldos, Legião Urbana, Léo Jaime, Mercenárias, Metrô… Isso para não falar no rock pesado e no punk rock, como Dorsal Atlântica, Ratos de Porão, Garotos Podres…

NX Zero, mesmo com dez anos de carreira, é uma das poucas encarnações do "novo" pop rock nacional no Rock in Rio (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Não dá para comparar, tanto em qualidade como em quantidade. O pop rock sumiu em 2011 e está restrito, pelo menos aos olhos de parcela importante do mercado, às bandas emo, como Gloria, NX Zero, Fresno, Restart e os sumidos CPM 22. Os medalhões e os veteranos bons de vendas ainda reinam e deverão reinar por um bom tempo.

Mas aí um amigo dono de selo musical me faz a provocação: se o Móveis Coloniais de Acaju conseguiu, por que os outros não conseguiram? A pergunta é pertinente, e deve ser respondida pelos integrantes do Móveis. Qual foi o segredo?
A banda pertence a um circuito alternativo de pop rock e tem certo prestígio neste segmento, mas não muito mais do que bandas com trabalhos – interessantes ou não – que tiveram alguma repercussão, como Cachorro Grande, Vanguart, Macaco Bong, Anjo Gabriel, Ludov e mais algumas outras – para não falar no pequeno mas efervescente cenário do rock pesado em português, com Pedra, Carro Bomba, Tomada, Bando do Velho Jack, Baranga, Cracker Blues e Motorocker.

Todas têm o mesmo cacife, mas apenas o Móveis e Matanza triunfaram. Boas bandas, mas sem espaço em rádios e incapazes de formarem uma “cena”, de formar um cenário digno de ser chamado de novo rock ou pop rock nacional. A menos que haja um cataclismo cultural, permanecerão no underground – e com cada vez menos chances de participar de um Rock in Rio. Estaremos condenados por mais um bom tempo a escutar nas rádios que sobraram as mesmas velhas canções de Legião Urbana, Paralamas, Skank e Cazuza…

 

Móveis Coloniais de Acaju, única banda verdadeiramente alternativa do rock nacional que tocará no Rock in Rio 4, o que demosntra a a crise de falta de talentos no segmentop (FOTO TIAGO QUEIROZ/AE)

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