O pequeno livro dos Beatles, agora no Brasil

Estadão

03 de dezembro de 2010 | 08h15

Fabiana Caso – Especial para o Estado de S. Paulo

A atmosfera de uma fanfarra descolada, com Mal Evans tocando uma caixa e comandando um trenzinho humano que percorria o estúdio e incluía Marianne Faithfull e Brian Jones, foi o pano de fundo da gravação de “Yellow Submarine”. A primeira frase do livro “A Experiência Psicodélica”, de Timothy Leary, é o verso inicial de “Tomorrow Never Knows”, composta por John Lennon.

Esses são apenas aperitivos da fase psicodélica dos Beatles, entre as inúmeras histórias saborosas que os fãs poderão degustar em “O Pequeno Livro dos Beatles”, do cartunista, ilustrador e roteirista francês Hervé Bourhis.

 Ele foi lançado ontem na França pela editora Dargaud e está previsto para sair no Brasil no próximo sábado, pela editora Conrad.

Dos topetes às franjas lisas: todas as facetas estéticas e musicais do grupo são recontadas em desenhos e textos nesse livro de traços enérgicos e trajetórias que se cruzam. Ele aborda de 1940 a 2009, cobrindo desde a maternidade dos integrantes até o desenvolvimento de suas carreiras solo.

 O nascimento na cidade portuária de Liverpool (com direito a mapas); o batismo nas drogas nas noites frenéticas de shows em Hamburgo; a consagração no Cavern Club; a conquista do mundo a bordo de muitas anedotas até os discos mais obscuros de Ringo Starr dos anos de 1980 – todas as metamorfoses sonoras e comportamentais aparecem no livro que na versão francesa tem 22 cm e 160 páginas.

E entram em cena outros protagonistas dessa história: George Martin, Brian Epstein, Mal Evans, o primeiro baixista Stuart Sutcliffe, o baterista rejeitado Pete Best e Yoko Ono, é claro. “Eu procurei encontrar as histórias menos conhecidas sobre o grupo. A meta era achar o eixo certo para que não fosse apenas mais um livro sobre os Beatles”, comenta Bourhis, em entrevista exclusiva ao Estado.

O formato é o mesmo de “O Pequeno Livro do Rock”, sucesso de vendas lançado no Brasil pela Conrad em abril: a saga é contada cronologicamente, ano a ano.

Mas se o volume anterior era uma colcha de retalhos de fatos relevantes e anedotas do estilo vigoroso, o livro dos Beatles é inevitavelmente biográfico. Mais uma vez, são os desenhos e textos que recompõem a melodia da trama da banda mais célebre do mundo.

Além dos fatos verídicos, porém, cada single e álbum lançado pelos Beatles é comentado – com um toque pessoal de humor de Bourhis. “Eu vejo o livro como um filme de Robert Altman, em que os destinos dos personagens se cruzam e onde todos eles são importantes”, define.

Bourhis começou a tomar notas sobre o grupo há dois anos. Releu todos os livros sobre o assunto, assistiu DVDs, sobrepôs os fatos para escrever o roteiro e levou um ano de trabalho em tempo integral para desenhá-lo e escrevê-lo.

A fonte de pesquisa para os desenhos foram as fotos raras: mas cada uma delas corresponde exatamente ao fato narrado, em um trabalho de pesquisa criterioso. No mais, ele inclui quadrinhos de músicas que acha que parecem demais com as do quarteto de Liverpool.

Apesar de ele ter crescido ouvindo os sucessos do grupo no rádio, foi quando ganhou um livro sobre a história da banda aos 14 anos que começou o fascínio pelas metamorfoses sonoras, assim como pelo universo dos anos 1960. “Foi só então que comprei os discos. Conhecia o contexto das canções antes de ouvi-las”, comenta. Pouco a pouco, começou a colecionar discos, livros e tudo o que se relacionava com os Beatles.

Ele já perdeu a conta de quantas revistas de música tem em casa, limita-se a dizer que são centenas. Tanto as consumiu, que elabora até um ranking de revistas francesas favoritas em certos períodos: a velha Rock & Folk (de 1960 a 1970), a Les Inrockuptibles (de 1986 a 1996), a britânica Mojo (de 1990 a 2000) e, atualmente, a “afiada” Magic.

Foi a paixão por essas publicações, assim como por biografias, documentários e filmes que compuseram a base para a arquitetura dos Petit Livres. E o amor incondicional pela música.

Prêmio. Em 2002, ele recebeu o prêmio francês Goscinny, voltado a jovens cartunistas, por seu livro Thomas ou le Retour du Tabou (editora Les Humanoïdes Associés, inédito no Brasil). Mas foi com “O Pequeno Livro do Rock” que conheceu o sucesso na França.

O criativo volume foi traduzido na Itália e Alemanha, e em breve sai também na Coreia do Sul. No Brasil, o livro fez carreira: lançado pela Conrad em abril, já está na segunda edição.

Depois de usar o mesmo formato “petit livre” para escrever sobre os Beatles, a série continua. No momento, Bourhis trabalha em um terceiro volume dedicado a tema bem diferente: a política francesa. De onde veio a ideia desse formato cronológico e documental? “Eu só me dei conta depois, mas fui influenciado pelo livro de André Degaine.

Ele era um funcionário louco por teatro, e quando se aposentou, bastante idoso, decidiu contar uma história do teatro inteiramente desenhada (Histoire du Théâtre Dessinée: De la Préhistoire à Nos Jours, inédito no Brasil).”

Desenho exclusivo feito por Hervés Bourhis para o C2 + Música ( FOTO Hervés Bourhis)

Mas no começo, nem tudo foi fácil. Bourhis rodou meses atrás de uma editora francesa que quisesse publicar “O Pequeno Livro do Rock”, até ouvir um sim da Dargaud – editora tradicional de quadrinhos que publica títulos como Astérix.

 Roteirista, ilustrador e cartunista, Hervé Bourhis tem 36 anos e mora em Bordeaux. Também trabalha para jornais e revistas. Fã de música brasileira, gosta de Tom Jobim a Lenine, e tem uma adoração especial pelos Mutantes. “Espero sentir um grande energia em São Paulo e conhecer pessoas formidáveis”, diz. “E gostaria de encontrar alguns vinis que faltam na minha coleção.”

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