O 'novo' álbum de Tommy Bolin, com a ajudinha de 'amigos'

Estadão

12 de junho de 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

O rapaz magrelo e descontraído entrou no estúdio em Los Angeles como quem entra em um boteco para pedir café. Sua guitarra estava em um case (estojo) todo riscado, denotando certo desleixo e até mesmo relaxo. Nem parecia que o cidadão estava ali para mostrar que poderia ser o substituto de Ritchie Blackmore no Deep Purple.

Por insistência do vocalista David Coverdale, o restante da banda tinha aceitado fazer uma audição com Tommy Bolin, norte-americano que já tinha tocado com a obscura banda Zephyr e com a James Gang.

Bolin, por sua vez, não ficou nem um pouco empolgado com a chance de tocar com o Deep Purple. Sua praia era outra, mais ligada ao funk setentista e ao pop sofisticado. Conhecia pouco o trabalho da banda inglesa de rock pesado e nunca tinha sido entusiasta da técnica de Blackmore.

Tommy Bolin: virtuoso, genial e transtornado

De personalidade forte e autossuficiente, tocou o que quis na audição e mostrou-se nenhum pouco deslumbrado pelo fato de estar ali, para irritação do tecladista Jon Lord e encantamento do baixista e vocalista Glenn Hughes.

Após certa hesitação, Bolin foi finalmente confirmado como guitarrista da banda, após Lord e o baterista Ian Paice terem, a contragosto, aceitado algumas “exigências” do novato para entrar na banda, como a possibilidade de manter uma carreira solo paralela e de ter músicas suas obrigatoriamente nos álbuns do Deep Purple.

Bolin foi o dínamo que a banda precisava para se reerguer após a saída de Blackmore, seu grande mentor e líder incontestável, mas que estava perdendo a mão e o controle para a dupla Coverdale-Hughes, cada vez mais obcecados pelo funk americano. Com a omissão de Lord e Paice, decidiu sair, abrindo espaço para ascensão e queda de Tommy Bolin.

O novo integrante do Deep Purple era uma espécie de Joe Bonamassa dos anos 60 em termos de produtividade. Entre 1974 e 1975 gravou dois álbuns solo – “Private Eyes” e “Teaser” – e deixou diversas gravações engavetadas ou inacabadas. Pois alguém finalmente abriu esse baú para editá-las.

“Tommy Bolin and Friends – Great Gypsy Soul” é o álbum que sai agora nos Estados Unidos. Dos “amigos” que o título do álbum sugere, só Glenn Hughes realmente o conheceu pessoalmente. Os demais convidados são músicos importantes do rock e do blues que, de alguma forma, foram influenciados por Bolin e pelo Deep Purple.

Participam músicos do calibre de Peter Frampton, John Scofield, Derek Trucks, Brad Whitford (Aerosmith), Steve Lukather (Toto),Steve Morse (Deep Purple) e Joe Bonamassa, além de Glenn Hughes. A iniciativa do projeto é de outro monstro da música norte-americava: Warren Haynes, guitarrista do Gov’t Mule e do Allman Brothers, que produz e também toca.

Mergulhado nas muitas fitas de rolo de gravações, Haynes fez um trabalho admirável de arqueologia musical e recuperou canções inacabadas, ou mesmo apenas trechos, para dar um toque sutil de acabamento de qualidade e transformá-las em músicas de verdade, melhorando a qualidade da gravação original da guitarra e da voz de Bolin para que pudesse receber os instrumentos adicionais quase 40 anos depois.

Além de músicas inacabadas, há novas versões para pequenos clássicos, como “Wild Dogs”, gravada em “Come Taste the Band”, do Deep Purple, com Bolin nos vocais.  No álbum deste ano, Hughes assume brilhantemente os vocais, com arranjos competentes e uma condução muito interessante da guitarra de Bolin. “Great Gypsy Soul” é o melhor tributo já lançado ao guitarrista que revolucionou o som do Deep Purple – e que, por ironia, ajudou por enterrar a banda.

Glória, fracasso e morte

A formação do Deep Purple daquela época, chamada Mark IV, durou pouco mais de um ano, mas foi intensa enquanto durou, graças ao estilo vigoroso e completamente diferente que Bolin imprimiu, alterando completamente o som da banda, como pôde ser constatado no único álbum da formação, “Come Taste the Band”.

A banda implodiria em abril de 1976. A personalidade forte de Bolin bateu de frente com Lord e Paice, ao mesmo tempo em que o guitarrista e seu novo melhor amigo, Glenn Hughes, se afundavam nos excessos de álcool e drogas.

O mergulho no inferno resultou na morte do guitarrista em dezembro de 1976 em Miami, vítima de overdose de vários tipos de drogas após ter feito um show solo abrindo para Jeff Beck.

 

 

 

 

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