O 'mito' Raul Seixas, ainda tomando pancadas – e com toda a razão

Estadão

29 de agosto de 2011 | 06h36

Marcelo Moreira

Depois de cinco anos revi um bom amigo da época de faculdade no último final de semana. Ricardo Macedo é um administrador de empresas que trabalha em uma empresa distribuidora de bebidas em Capinas e é um fã de rock pesado. A primeira coisa que lhe pergunto antes mesmo de indagar sobre família, mãe, pai, etc.: “Está tudo bem com seu irmão?”

Ele abre um sorriso grande e não hesita: “Ele bateu no Raul mais uma vez”. É um alívio saber disso. O irmão, apenas por parte de mãe e que não terá o nome revelado pois o processo judicial em questão ainda está correndo), vocalista de uma boa banda de hard rock e de covers nos anos 90 no interior paulista, ficou por muitos anos senso assombrado pelo fantasma de Raul Seixas.

Fazendo um show intimista e acústico em um bar de bom nível em uma cidade da região de Campinas nos anos 90, o irmão de Ricardo Macedo e sua banda (extinta, mas que também terá o nome preservado pelos mesmos motivos), foram incomodados por mais de 4o minutos por um grupo de bêbados com o indefectível “toca Raul”.

O cartaz que anunciava o show no bar e no jornal local não deixava dúvidas: banda de hard rock faz acústico e covers de artistas do estilo.

O que a princípio parecia uma brincadeira inocente e depois leve provocação se tornou um inconveniente, pois, de alguma forma, alguém da plateia tratou de fazer chegar á banda que o grupo de bêbados estava falando sério: queriam mesmo ouvir alguma coisa de Raul Seixas – e não somente uma música.

A banda tentou ignorar, mas os cidadãos começaram a incomodar a tal ponto que o barulho que faziam obrigou a uma interrupção do show, com direito a uma intervenção de dois seguranças.

O mais exaltado do grupo de quatro imbecis, aos berros, gritou: “Quero ouvir Raul! Toca Raul, porra! Quero ouvir e vocês vão tocar!”

 

A capa do LP 'Abre-te Sesamo': o fantasma de Raul Seixas ainda assombra em pleno século XXI

Não acreditando na baixaria que ocorria, o irmão vocalista de Macedo, muito irritado, fez algum gracejo sobre Raul Seixas e sobre a encheção tradicional a que muitos músicos são submetidos.

O bêbado infeliz ficou furioso e se desvencilhou da segurança e avançou no palco para agredir alguém da banda. Acabou tomando uma pancada de pedestal de microfone no rosto e caiu cambaleando no chão. Tentou se levantar e fez menção de tentar novo ataque, conseguindo se soltar novamente dos seguranças. Mal teve tempo de olhar para o palco e tomou novo golpe com o pedestal e desabou.

O resultado é que o cidadão, machucado, se achou no direito de processar criminalmente a banda, o vocalista e o bar por ter sido “agredido covardemente enquanto se divertia”.

Filho de um rico comerciante da cidade que um dia fora vereador e figura conhecida na área por frequentes confusões (nada muito grave, apenas arruaças e brigas sem consequência), moveu dois processos, e perdeu os dois em todas as instâncias. Tanto o bar como o vocalista arrumaram testemunhas de sobra sobre o que rolou.

Quando encontrei Ricardo Macedo, o irmão tinha acabado de “bater” pela terceira vez em Raul Seixas – a primeira nas pancadas contra o bêbado, e depois as duas vitórias na Justiça. O advogado do agredido prometeu recorrer das decisões no Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde certamente sofrerá novas derrotas.

A pequena história me motivou a fazer alguns breves comentários sobre Raul Seixas, morto há 22 anos e que estaria fazendo 66 se estivesse vivo. Involuntariamente (ou não?) se tornou alvo de ira ou ao menos de irritação de muita gente que não suporta mais o asqueroso “Toca Raul!”.

Músico razoável e cantor nem tanto, teve o grande mérito de cair de cabeça no rock and roll primeiro do que todo mundo neste país tropical e de avançar até onde nenhum artista brasileiro na época ousou.

 

Alguns fãs relembraram os 22 anos da morte de Raul Seixas em encontro no Teatro Municipal de São Paulo, em 21 de agosto (EVELSON DE FREITAS / AE)

Seixas era radical e culto, tinha estofo para se mostrar contestador sem ser revolucionário. Tinha jeito e coragem (ou inconsequência) para ser provocador como Chico Buarque foi em algumas de suas letras.

Se os Secos & Molhados chocavam e posavam de transgressores por conta das maquiagens e posturas de palco, Seixas e seu jeitão de hippie deslocado mostrava que ia muito mais além na transgressão com o mergulho fundo no rock e nos aditivos ilícitos – em vários momentos ao lado do amigo doidão e letrista ocasional Paulo Coelho.

O problema é que Raul Seixas foi o único a fazer isso, a fazer rock realmente em uma era dominada por uma música popular supostamente de protesto mas que pouco ou nada serviu de alento, ao menos culturalmente.

Era a mesma MPB engessada de sempre, calcada na canção e no samba, com ecos da bossa nova encardida e plagiada do jazz norte-americano e na farsa do Tropicalismo, envolto em pseudo-intelectualismo barato.

Raul foi muito mais além do que qualquer um em sua época, e tem méritos por isso. Se é que existiu alguma forma de transgressão nos anos 70, época de chumbo do regime militar, essa transgressão era Raul Seixas.

E o músico baiano teve a sorte grande de ter sido o único a fazer isso de forma tão intensa, e usou o rock, o melhor instrumento para esse tipo de transgressão (ou suposta transgressão). E grande parte de sua fama decorre justamente disso, da falta de concorrentes à altura.

Por conta disso, o mito Raul Seixas – artista radical, maldito, marginal – se sobrepõe à real qualidade de sua obra musical, que nunca passou de mediada. Sua melhor música é no máximo razoável.

É milhões de vezes superior ao de qualquer artista que achava que fazia rock na época, como Secos & Molhados e os intragáveis Mutantes, mas ainda assim não passava de razoável.

Raul Seixas e Marcelo Nova nos anos 80: vocalista do Camisa de Venus não curtia Raul quando garoto, mas se aproximou dele e engatou uma interessante parceria, que acabou com a morte de Raul em 1989

Suas músicas se tornaram trilha sonora da contracultura e de certa pseudo-intelectualidade de esquerda por ser palatável e adaptável aos lugares comuns dos discursinhos chatos e vazios de estudantes equivocados.

Era a trilha sonora perfeita para ambientes pseudo-políticos infectos, como centros acadêmicos de faculdades – a maioria de quinta de categoria – e botecos de pinga nas proximidades das mesmas faculdades. E, com certeza, 85% dessa gente que se apropriou da obra de Raulzito ignorava por completo o significado das letras – e, dependendo da música, acho que até o próprio autor desconhecia.

Resumindo: Raul Seixas é mais um artista superestimado e cujo mito é muito maior do que a qualidade de sua obra. E o mito ainda tem mais força do que se imagina, pois ainda é capaz de impregnar duas gerações após a sua morte com “sua mensagem”.

Não creio que era esse o destino que o músico baiano imaginava para o seu legado: virar trilha sonora de gente equivocada e com pouca bagagem intelectual de um lado; de outro, de se tornar sinônimo de chatice e inconveniência com o bordão “Toca Raul!”.   Ele merecia isso? Talvez sim, a julgar pela chatice de muitas de suas músicas.

 

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