O mito Raul continua driblando a realidade

Estadão

04 de abril de 2012 | 06h48

Marcelo Moreira

Como não poderia deixar de ser, anda bastante concorrido o documentário “Raul Seixas – O Início, O Fim e O Meio”. A obra de Walter de Carvalho e Evaldo Mocarzel é tecnicamente boa, com roteiro competente, mas sem firulas ou invencionices. Cumpre bem o seu papel de documentário.

O problema é que saí da sessão no Espaço Unibanco, em São Paulo, achando que o tema do filme era Elvis Presley ou John Lennon. Raul Seixas é tratado como um deus, como um Pelé, alguém divino e bem acima dos mortais.

Há esforço notável, mas irritante, de tentar convencer que o cantor baiano foi um dos maiores gênios do universo. Tenta fazer dele um artista muito mais importante do que realmente foi – embora o “enfoque editorial” seja bastante compreensível e nem um pouco surpreendente, já que o documentário deixa bem claro que surgiu para louvar o artista, e apenas isso.

Seixas teve o mérito de criar um mito em torno de si, uma mística e de misterio que, por sua vez, foi responsável pelo surgimento de um culto a sua memória bastante desproporcional à qualidade de sua obra. Algo parecido com o que acontece em torno de Jim Morrison, vocalista dos Doors morto em 1971, outro artista superestimado por parte expressiva do meio cultural internacional.

O documentário consegue ser bem fiel em relação à importância cultural que o cantor teve, mas exagera demasiadamente em relação à qualidade da obra musical, que é bem menor do que o filme tenta fazer crer. Raul Seixas foi uma das figuras mais interessantes da música brasileira, tanto por suas ideias como pela sua trajetória musical, mas sua música não tem o peso que a elite cultural e a imprensa musical lhe atribuem.

Músico razoável e cantor nem tanto, Raul Seixas teve o grande mérito de cair de cabeça no rock and roll primeiro do que todo mundo neste país tropical e de avançar até onde nenhum artista brasileiro na época ousou.

Seixas era radical e culto, tinha estofo para se mostrar contestador sem ser revolucionário. Tinha jeito e coragem (ou inconsequência) para ser provocador como Chico Buarque foi em algumas de suas letras.

Se os Secos & Molhados chocavam e posavam de transgressores por conta das maquiagens e posturas de palco, Seixas e seu jeitão de hippie deslocado mostrava que ia muito mais além na transgressão com o mergulho fundo no rock e nos aditivos ilícitos – em vários momentos ao lado do amigo doidão e letrista ocasional Paulo Coelho.

O problema é que Raul Seixas foi o único a fazer isso, a fazer rock realmente em uma era dominada por uma música popular supostamente de protesto mas que pouco ou nada serviu de alento, ao menos culturalmente.

Era a mesma MPB engessada de sempre, calcada na canção e no samba, com ecos da bossa nova encardida e plagiada do jazz norte-americano e na farsa do Tropicalismo, envolto em pseudo-intelectualismo barato.

Em terra de cego…

Raul foi muito mais além do que qualquer um em sua época, e tem méritos por isso. Se é que existiu alguma forma de transgressão nos anos 70, época de chumbo do regime militar, essa transgressão era Raul Seixas.

E o músico baiano teve a sorte grande de ter sido o único a fazer isso de forma tão intensa, e usou o rock, o melhor instrumento para esse tipo de transgressão (ou suposta transgressão). E grande parte de sua fama decorre justamente disso, da falta de concorrentes à altura.

Por conta disso, o mito Raul Seixas – artista radical, maldito, marginal – se sobrepõe à real qualidade de sua obra musical, que nunca passou de mediana. Sua melhor música é no máximo razoável.

É milhões de vezes superior ao de qualquer artista que achava que fazia rock na época, como Secos & Molhados e os intragáveis Mutantes, mas ainda assim não passava de razoável.

Suas músicas se tornaram trilha sonora da contracultura e de certa pseudo-intelectualidade de esquerda por ser palatável e adaptável aos lugares comuns dos discursinhos chatos e vazios de estudantes equivocados.

Era a trilha sonora perfeita para ambientes pseudo-políticos infectos, como centros acadêmicos de faculdades – a maioria de quinta de categoria – e botecos de pinga nas proximidades das mesmas faculdades. E, com certeza, 85% dessa gente que se apropriou da obra de Raulzito ignorava por completo o significado das letras.

Resumindo: Raul Seixas é mais um artista superestimado e cujo mito é muito maior do que a qualidade de sua obra. E o mito ainda tem mais força do que se imagina, pois ainda é capaz de impregnar duas gerações após a sua morte com “sua mensagem”.

Não deixa de ser um mérito, sem dúvida. Artistas melhores e mais inteligentes dariam os dois braços para que fossem cultuados da forma como Raul Seixas é. Artistas com legados musicais mais relevantes jamais tiveram um décimo da reverência que o cantor baiano teve e ainda tem.

Neste quesito, Seixas é um fenômeno, e que vai se realimentando a cada peça laudatória que aparece para tentar convencer o mundo de sua suposta genialidade. E assim a corrida para catapultar o cantor baiano ao patamar de Elvis e Lennon continua…

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