O metal ajudando a aproximar Turquia e Israel

Estadão

11 de abril de 2012 | 06h45

Marcelo Moreira

O rock pode não salvar o mundo, mas é uma arma inteligente e poderosa para demolir a hipocrisia e o cinismo da política internacional. Esse é o recado que a banda de heavy metal israelense Orphaned Land deu ao mundo ao receber, de forma surpreendente, uma distinção do governo turco conhecido como Friendship and Peace Award.

A Turquia foi por mais de duas décadas o único país de maioria muçulmana a manter relações diplomáticas normais e totais com Israel. Na verdade, era a única nação do Oriente Médio que não era inimiga do Estado judeu.

A situação se deteriorou quando um comboio liderado por um navio turco, tripulado por ativistas internacionais de direitos humanos de vários países, tentou furar um bloqueio naval um posto pela marinha israelense para evitar que chegasse à Faixa de Gaza, um dos territórios da Palestina, país que ainda busca reconhecimento internacional para sua independência e que vive sitiado por Israel em suas duas porções – a outra é a Cisjordânia.

Supostamente, o navio de bandeira turca cheio de ativistas pretendia enviar remédios e alimentos a várias comunidades de Gaza em maio de 2010. Israel impôs um bloqueio naval justamente para impedir que a embarcação chegasse à costa palestina, alegando que era uma medida para evitar o tráfico de armas.

Barco turco Mavi Marmara, invadido por soldados israelenses em maio de 2010 (FOTO: AP)

Ignorando as ordens de retornar a Malta, ilha de onde partiu, o navio turco seguiu em frente e acabou abordado por soldados israelenses que atacaram por helicóptero e lanchas.

O comboio de barcos organizado pela ONG Free Gaza era formado por seis navios, transportando mais de 750 pessoas e 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a faixa de Gaza. O ataque deixou dez mortos e 30 feridos, nenhum deles israelense. O governo turco respondeu cortando relações diplomáticas com Israel, situação que permanece.

Ignorando o agravamento da questão política no Oriente Médio e entre os dois países, a banda israelense, a melhor banda de rock do Oriente Médio ao lado do conterrâneo Melechesh, agendou uma pequena turnê pela Turquia no começo deste ano, tocando em cidades grandes, como Istambul e a capital, Ancara, e em cidades menores do interior.

A boa receptividade surpreendeu, até certo ponto, os integrantes do Orphaned Land, que praticamente lotaram todas as apresentações. Tal fato chamou a atenção do governo turco, que decidiu agraciar o grupo com a honraria.

O primeiro-ministro Recep Erdogan, no poder desde 2003 e que foi eleito por uma coalização de partidos liderado pelo seu, Partido da Justiça e Desenvolvimento (de orientação islâmica), por meio do assessor especial Husein Tigcu, informou que o Orphaned Land é um exemplo de como a cultura pode aproximar povos e ajudar na busca pela paz permanente.

“Desde o princípio lutamos pela paz e pelo respeito entre as pessoas e nações, pela convivência pacífica entre as grandes religiões do mundo, o que nos tornou uma banda bem vista e respeitada, mas fomos surpreendidos pela honraria concedida pelo governo turco. Fomos a Ancara e recebemos uma taça com as bandeiras de Israel e Turquia, além dos símbolos do judaísmo e do Islã, carregados pela pomba da paz”, afirmou o vocalista Kobi Farhi ao site de usa gravadora, a Roadrunner Records.

Com letras politizadas e muitas vezes de protesto, o Orphaned Land cresceu muito em popularidade em todo o Oriente Médio, ainda que permaneçam restrições em alguns países da região por conta de ser um grupo israelense.

Criada em 1991, conseguiu realizar uma bem-sucedida mistura de folk com heavy metal, abusando de elementos regionais e instrumentos típicos de música árabe e judaica. Alguns temas apresentam também trechos em hebraico e árabe. Frequentadora assídua de festivais de metal na Europa, tem como principais álbuns “Mabool”, de 2004, e “The Never Ending Way of ORWarriOR” (2010).

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