O melhor heavy metal nacional em português tem nome: Carro Bomba

Estadão

10 Agosto 2011 | 06h44

Marcelo Moreira

Você compraria um CD de uma banda chamada Carro Bomba? Infelizmente neste caso “não” não é uma repsosta aceitável. Se o Korzus e Matanza dominaram a cena no ano passado com “Discpline of Hate” e  “Odioza Natureza Humana”, respectivamente, este ano é a vez do Carro Bomba e do Dr. Sin – “Carcaça” e “Animal”, respectivamente.

“Carcaça” é uma pedrada na cabeça do headbanger nacional. Nunca uma banda brasileira que canta em português tinha atingido um peso tão grande nas músicas e tinha alcançado uma timbragem tão forte e limpa nas guitarras, que estão na cara. E tudo isso sem recorrer tanto aos manjados temas de sempre no hard rock brasileiro – mulheres, bebidas, zoeira, bebidas, carros, bebindas, mulheres…

“O som pesado sempre foi a nossa característica, sempre buscamos aprimoramento e pesquisamos novos timbres. ‘Carcaça’ é resultado de muito trabaoho em estúdio, mas principalmente tambpem de muita pesquisa para achar exatamente o que queríamos”, diz o baixista Fabrizio Micheloni, um dos fundadores. Estão ainda na formação o vocalista Rogério Fernandes, o guitarrista Marcello Schevano e o bateria Heitor Shewchenko.

Na entrevista a seguir, Micheloni conta como o quarteto atingiu um grau de qualidade em “Carcaça” bem acima do que o rock pesado nacional está acostumado a atingir:

O novo álbum está bem mais pesado do que “Nervoso”. É impressão minha ou se trata apenas de uma questão de produção diferente?

Fabrizio: É a consolidação da sonoridade do Carro Bomba. O “Nervoso”, até certo ponto, serviu como refêrencia para que partíssemos para algo maior. 

 Ainda falando da produção, o que mudou em relação aos álbuns anteriores? O som está mais limpo, mais na cara. Foi essa a intenção? 

Fabrizio: A nossa intenção é ficarmos cada vez mais pesados e nos superarmos a cada álbum, e a produção é um dos fatores cruciais para que isso aconteça. Logo, ela deve acompanhar a evolução da banda.

Fazer som pesado em português ainda é uma novidade por aqui, ainda que tenhamos exemplos como Golpe de Estado, Baranga, Garotos Podres, Raimundos e vocês mesmo. Como tem sido a resposta do público em relação a isso? 

Fabrizio: O público está aumentando gradativamente e, o principal, interagindo cada vez mais. É uma galera bem variada; você encontra até crianças em shows em que os pais podem levá-las. E muitas delas cantam as músicas, como aconteceu recentemente no Centro Cultural SP, onde tocamos junto com a Baranga com a casa lotada! 

Uma das reclamações que ouço de vez em quando a respeito das letras de bandas nacionais pesadas que cantam em português é que os temas se limitam, basicamente, a carros, bebidas, sacanagens em geral. É um rótulo que tentam sempre colar no Matanza, no Motorocker e até mesmo no Bando do Velho Jack. É possível tentar escapar destes clichês? O público está preparado para uma mudança de teor?

Fabrizio: Lógico que é possível, o Bomba mesmo é um exemplo. Se você for honesto no que escreve e souber como expressar isso, sempre existirão pessoas que irão se identificar com sua arte, seja ela qual for.

 Pelo menos três músicas rendem clipes bem interessantes, desde que baseadas nas próprias letras. Já há alguma previsão de gravação?

 Fabrizio: Temos algumas idéias, mas nada concreto ainda.

Como se deu a participação de Vítor Rodrigues, do Torture Squad, na música “Tortura”? O estilo thrash-death dele não ficou “extremo” demais para a proposta do Carro Bomba?

Fabrizio: Tivemos essa idéia primeiramente porque a música permitia e também pelo seu próprio título, obviamente. Os caras do Torture são brothers nossos, então ficou fácil. O Vitor curtiu pra cacete cantar em português, a química rolou legal e a música é foda!!! 

Capa do CD 'Carcaça'

Nos álbuns anteriores os trabalhos de guitarra tinham nítida influência de AC/DC e Motorhead, na minha opinião, e no novo trabalho um estilo mais thrash bay area está mais evidente, mais rápido e com timbragem mais bem definida. Essa mudança é definitiva?

Fabrizio: Como eu disse; o lance é nos superarmos, e as coisas simplesmente vão rolando. Já estamos trabalhando músicas novas, ainda mais desgracentas. 

Como foram os shows no Chile neste ano? As letras em português foram bem recebidas?

Fabrizio: Foram do Caralho! A galera pirou no “Thrash’n’Roll” do Bomba, como eles mesmos definiram nosso som. 

Recentemente o vocalista Thiago Bianchi, do Shaman, lançou um manifesto na internet criticando o público brasileiro de heavy metal pelo pouco apoio dado às bandas nacionais e reclamando da falta de união de uma suposta cena de rock pesado que existe no Brasil. Nós, do Combate Rock, nos posicionamos contra essa choradeira. O que vocês pensam a respeito? Falta mesmo? O público só valoriza os gringos ao comprar CDs e ingressos para shows? 

Fabrizio: Esse lance do público não valorizar é relativo. Claro que há uma multidão de paga-paus dos gringos, mas o fato é que a maioria das pessoas não vai atrás de informação, mesmo com a internet, então acabam por nem saber que existem bandas boas pra caralho ralando nas trincheiras. As bandas brasileiras que trabalham incessantemente estão bem calejadas e os músicos cada vez melhores. Estamos abrindo espaço na marra mesmo, sem estrelismos. Esse cara aí do Shaman é uma piada, não sabe sequer grafar os nomes das bandas corretamente…além disso, ao ver uma simples foto dele, não há como levar um cara desses a sério…