O mangue beat terminou com a morte de Chico Science – e não deixou saudade

Estadão

02 de fevereiro de 2012 | 17h00

Marcelo Moreira

Indignação barata contra qualquer coisa costuma ser bastante engraçada – e fica mais engraçada quando o indignado fica cada vez mais bravo se for alvo de piadas e gargalhadas por conta de sua “indignação”. E isso vale para todos os pseudointelectuais que adoram fazer discurso de boteco com teses sobre o nada.

Um desses resolveu fazer um discursinho desprovido de nexo em uma reunião de amigos em São Paulo não muito tempo atrás. Os amigos, todos eles, são roqueiros de bom gosto, e muito bem informados sobre o gênero, desde o classic rock até o metal mais extremo.

Só que um amigo de um amigo, desses que acham que estudar na USP é passaporte imediato para a intelectualidade, resolveu que iria dar uma aula de música e cultura aos “pobres ignorantes” após saber – e ficar indinado – que eu era o autor de dois textos no Combate Rock criticando o grunge e os Mutantes.

O cidadão, um daqueles revoltadinhos de shopping, não conseguiu terminar o palavrório por conta das gargalhadas gerais que provocou ao bradar que Kurt Cobain (Nirvana) e Chico Science (Nação Zumbi) eram gênios e que o tal mangue beat pernambucano tinha a mesma importância para o Brasil que o movimento grunge.

Isso me faz lembrar que 2012 marcará os 15 anos da morte de Science em um acidente estúpido de carro perto da divisa entre Recife e Olinda, em Pernambuco. Com certeza, assim como no caso dos 20 anos do grunge, surgirão textos e mais textos exaltando o tal movimento e o artista.

Eu até concordo na comparação entre grunge e mangue beat, só que em relação à falta de qualidade. Músicas ruins, bandas ruins, músicos com talento insuficiente, ou que o usam para fazer coisas ruins – exceto pelo guitarrista Lúcio Maia, que mostrou saber tocar o seu instrumento de modo satisfatório. Igualzinho ao movimento de Seattle, tanto que o mangue beat não durou, para a sorte de nossos ouvidos.

DIVULGAÇÃO – FRED JORDÃO

Chico Science não era um moleque perdido e sem noção do que ocorria no mundo. Era jornalista por formação e um homem inteligente. Suas entrevistas sempre eram interessantes e rendiam por horas e horas.

Ao mesmo tempo, era um cara simples, de hábitos comuns e desprovido de qualquer estrelismo asqueroso. Só que, diante de sua inquietude intelectual, achava que era realmente um revolucionário – embora nunca tenha reivindicado só para si os louros do sucesso momentâneo obtido pela Nação Zumbi.

O fato é que o mangue beat até foi novidade em um cenário de pobreza extrema na música pop nacional em meados dos anos 90, quando apenas os Raimundos mostravam um sopro de qualidade e inovação.

Só que ser uma novidade nem sempre basta. É preciso fazer música boa, e não apenas misturar um monte de coisas com barulhinhos eletrônicos irritantes em cima de letras sem pé nem cabeça.

O caráter supostamente revolucionário e a aura de suposta intelectualidade que envolvia Science, a Nação Zumbi e outras bandas semelhantes atraiu a atenção de grupelhos de pseudointelectuais em várias partes do Brasil, geralmente de esquerda, que abraçaram esses artistas como se fossem o máximo da contestação e o farol que iluminava o futuro da música pop brasileira.

A morte de Science antecipou o desmoronamento de um “movimento” que na verdade nunca existiu de fato. Foi soterrado por uma atração pré-fabricada, como os Mamonas Assassinas, e pela honestidade e simplicidade do rock pauleira dos Raimundos.

Capa do CD ‘Afrociberdelia”, de 1996, da Nação Zumbi, ainda com Chico Science

Assim como o grunge, o mabgue beat não passou de um suposto movimento passageiro, que não deixou saudades, a não ser em gente que se contenta com pouco.

Chico Science e o mangue beat tiveram alguma repercussão em meados dos anos 90, e talvez até mereçam alguma menção em enciclopédias musicais – provavelmente no rodapé de uma página, não mais do que isso.

Uma formação recente da Nação Zumbi

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