O maior azarado do mundo – ou seria fracassado?

Estadão

06 de setembro de 2010 | 18h12

Marcelo Moreira

O mais famoso fracassado do mundo. Ou o mais azarado. Ou o cara que era titular nos juniores, mas acabou em times pequenos e viu seu reserva virar titular anos depois e ser campeão do mundo (fato verídico, o jogador Harrison, titular do sub-20 do São Paulo em Copas São Paulo, mas seu reserva era Kaká…).

Qualquer uma das imagens podem ser aplicadas ao baterista inglês Pete Best. Era ele o titular das baquetas dos Beatles em 1960, quando o então quinteto começou a levar a música a sério e se profissionalizou.

Best confirmou à agência de notícias espanhola EFE que fará um show em Vitória, Espírito Santo, no dia 9 de janeiro do ano que vem, na praia de Camburi. Ela virá sozinho, em princípio, e terá músicos brasileiros como acompanhantes – entre eles, João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, e o grupo Clube Big Beatles, um dos mais conhecidos covers do Brasil.

O Clube Big Beatles trouxe ao País, em janeiro deste ano o cantor Tony Sheridan, que deu oportunidade aos Beatles em início de carreira, ainda com Best, ao escolher o grupo como banda de apoio para gravações em Hamburgo, na Alemanha, em 1960.

A fama de azarado de Pete Best na verdade encobre o fato de que ele não era um bom instrumentista, como cansam de falar em biografias Paul McCartney e George Harrison. Cara de galã e com fama de fanfarrão, o baterista era filho da dona do Casbah, onde os Beatles se apresentavam com frequência entre 1959 e 1962 – embora o Cavern Club tenha ficado mais famoso como o local “preferido” deles para tocar na cidade.

Pete Best no porão chamado Cavern Club, em Liverpool, em 1961, quando ainda era baterista dos Beatles (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Pete Best no porão chamado Cavern Club, em Liverpool, em 1961, quando ainda era barerista dos Beatles (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Apesar de esforçado, era limitado, segundo McCartney. Não transmitia segurança e não se importava muito em ensaiar e estudar para evoluir, segundo Harrison. No entanto, bateristas eram artigo raro na região de Liverpool em 1960, e bateristas razoáveis, mais raros ainda.

Por isso é que o trio John Lennon-Paul McCartney-George Harrison (o baixista Stuart Sutcliffe saiu da banda no final de 1961 para ficar na Alemanha com a namorada, uma artista plástica) não hesitou quando em meados de 1962, nas primeiras audições para a gravação do primeiro compacto, os produtores da EMI, entre eles George Martin, sugeriram a troca do baterista.

A insatisfação já vinha desde os shows nos inferninhos de Hamburgo, no final de 1961. Lennon se irritava com a indolência de Best – também um rival junto às mulheres -, enquanto que McCartney se desesperava com a falta de habilidade de Sutcliffe (que só entrou na banda porque ganhou um prêmio de artes plásticas e foi convencido por Lennon a gastar o dinheiro em um baixo e entrar nos Beatles; na verdade, não sabia tocar).

Best ensaia em sua casa, em Liverpool (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Best ensaia em sua casa, em Liverpool (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Naquela época, estavam de olho no baterista do Rory Storm and the Hurricanes, que também fazia temporadas em Hamburgo. Richard “Ringo” Starkey era um dos três melhores bateristas da região de Liverpool e gostava dos Beatles. Chegou a ser sondado no Natal daquele ano para trocar de banda, mas, segundo alguns biógrafos, decidiu ficar com Rory Storm porque este lhe pagava mais.

Mas o fato é que seis meses depois Starkey percebeu que os Hurricanes não tinha futuro e não pensou duas vezes ao aceitar o convite de Lennon, ao mesmo tempo em que Harrison ia à casa de Best para comunicá-lo da demissão.

Em setembro de 1962 o compacto simples “Love Me Do”/”P.S. I Love You” foi lançado, já com Starkey na bateria, agora conhecido como Ringo Starr.

Pete Best, por sua vez, tocava de vez em quando com grupos de Liverpool e administrava o Cavern Club ao lado da mãe. A partir de 1964, acrescenou outra ocupação: a de ex-baterista dos famosos Beatles. Passou a ganhar dinheiro para dar entrevistas e virou iuma espécie de embaixador e guia turístico de Liverpool.

Chegou a agravar álbuns ocasionais ao lado de diversos grupos de sua cidade, mas sempre tendo seu nome como o destaque, com se fossem álbuns solo. Foi o que restou ao baterista mediano e que não gostava de estudar.

Sua visita ao Brasil não passa de mera curiosidade, embora, pessoalmente, seja um personagem bastante divertido e com milhões de histórias para contar. Será que não dá para ele dar uma esticada e passar por outras cidades?

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