O mágico piano de Thelonius Monk

Estadão

19 de novembro de 2011 | 22h17

João Marcos Coelho

O pianista Thelonious Sphere Monk (1917- 1982) foi vítima preferencial dos conservadores e dos pobres de espírito. Quando surgiu na cena jazzística, na virada dos anos 30/40 em Nova York, com seu piano dissonante, feito de silêncios e melodias angulosas, fugindo do virtuosismo como o diabo da cruz, provocou um tsunami nos bem-comportados.

Sua figura bizarra reforçou o preconceito: gorros dos mais variados tipos, introvertido, roupas extravagantes; costumava até dançar no palco desajeitadamente enquanto parceiros improvisavam.

Chamaram-no de incompetente, que não sabia tocar piano. Jamais estudou música. Estas foram as desqualificações mais frequentes. Irônico, lamentava, nas raras entrevistas: “Hoje não consegui encontrar os acordes errados no piano”. O calvário durou 15 anos, com direito a prisões por porte de drogas, alcoolismo pesado e cassação de sua carteira profissional de músico.

Mas a maré mudou a partir da segunda metade dos anos 50, sobretudo com o reconhecimento europeu. Aí, as acusações domésticas transformaram-se em elogios ao “excêntrico gênio” (na verdade, ele tinha transtorno bipolar, hoje se sabe).

THELONIOUS MONK ENSAIANDO COM PHIL WOODS E CHARLIE ROUSE EM 1959. REPRODUCAO DE IMAGEM DO LIVRO JAZZ, A HISTOYU OF AMERICA'S MUSIC, DE GEOFFREY C. WARD E KEN BURNS.

Foi eleito o “sumo sacerdote” do bebop e chegou à capa da Time em 28 de fevereiro de 1964. Curtiu naquela década o clímax de sua vida e carreira. Viveu incensado dali em diante até o silêncio permanente. Emudecido nos últimos sete anos de vida, enclausurado no apartamento da baronesa de Koenigswater, de frente para o Rio Hudson, morreu em 1982 após sofrer um AVC.

O CD Melodious Monk, recém-lançado pelo selo Summit no mercado internacional, transporta o universo originalíssimo de sua criação para a chamada música de câmara erudita. Preserva a beleza essencial de suas melodias (daí o título do CD) e a riqueza harmônica que as emoldura. E mostra que ninguém surge pronto do nada, como a mídia o “vendeu” ao mundo.

Assim, ao contrário do que reza a lenda, Monk estudou piano sim. E piano clássico, durante 24 meses, entre os 11 e os 13 anos, com o judeu austríaco emigrado Simon Wolf. Este vendia caro suas lições de piano porque assegurava ter estudado com Alfred Megerlin, um dos spallas da Filarmônica de Nova York.

Na verdade, Thelonious estudou com Wolf desde os 4 anos, por cima dos ombros da irmã Marion, a escolhida pela família para ter instrução musical sistemática (não havia dinheiro para pagar aulas para os dois). Mais: Simon era músico clássico. Fez Thelonious estudar peças de compositores como Chopin, Beethoven, Bach, Rachmaninov, Liszt e Mozart (Chopin e Rachmaninov eram seus preferidos).

Sua produção total não chega a 80 temas, que ele retrabalhou e recriou incessantemente ao longo de sua carreira. Nisso, tem certa semelhança com João Gilberto e sua obsessão pela reinterpretação permanente de um punhado de clássicos da música popular brasileira.

A formação do CD Melodious Monk dispensa bateria e percussão. Os instrumentos são basicamente o trompete de Kim Pensyl e o piano de Phil DeGreg. Em algumas faixas há convidados como Rusty Burge no vibrafone, Rick VanMatre no saxofone e Doug Richeson no contrabaixo.

Os temas já são diamantes de 18 quilates, mas Pensyl e DeGreg, as cabeças pensantes do disco, os valorizam ainda mais. Em duo, “adocicam”, aparam as asperezas de Reflections e constroem contrapontos levíssimos em sua mais conhecida composição, Blue Monk.

Nas demais faixas, misturam de várias maneiras os três convidados. Na célebre Monk’s Dream, tema que marcou a estreia de Monk na Columbia em 1962, o trompete de Pensyl contrasta sutilmente com a poderosa mão esquerda de DeGreg.

Une-os o delicado vibrafone de Rusty Burge. Acertadamente, o sax-tenor de Rick VanMatre assume o comando na antológica Ruby, My Dear, enquanto o convicto contrabaixo de Doug Richeson abre os trabalhos em Straight No Chaser.
O detalhe mais marcante talvez esteja no refinamento dos improvisos, tão bons que parecem escritos previamente.

udo isso sem esquecer que as composições de Monk são em geral temas dissonantes, que não entram redondos nos ouvidos; acordes rascantes como ossos quebrados, ritmos completos, acentos deslocados, mudanças bruscas de dinâmica, hesitações, silêncios inesperados. Enfim, uma deliciosa e moderníssima estranheza que até hoje fascina e seduz quem se aproxima dessa música genial.

O celebrado Whitney Balliett (1926-2007), um dos mais agudos e elegantes críticos que o jazz já possuiu, titular da revista The New Yorker por quase meio século, entre 1954 e 2001, definiu de modo iluminado e em pouquíssimas palavras a música de Thelonious Monk: suas composições são “improvisações congeladas” e suas improvisações são “composições… derretidas”.

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