O Lollapalloza na mira dos fundamentalistas evangélicos

Estadão

04 de abril de 2013 | 06h50

Marcelo Moreira

Aos poucos, simpatizantes saem às ruas, ainda em pequeno número, para apoiar o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), o ser mais execrado no Brasil atualmente por presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados mesmo tendo declarado no passado recente que é contra os homossexuais, além de palavras pouco elogiosas e de teor racista contra negros. Ainda são manifestações tímidas, mas estão ocorrendo.

Até que demorou para que os fundamentalistas evangélicos que pertencem ao que há de mais lamacento na história da humanidade em termos de comportamento se manifestarem, e o rock não ficaria de fora da mira deles.

Na última terça-feira, dia 2 de abril, em pleno centro de São Paulo, cinco jovens bem vestidos faziam um ato rápido e até discreto de apoio ao deputado mais retrógrado e desqualificado da atualidade. Algumas pessoas olhavam com curiosidade aqueles moleques na praça da República; meia dúzia parou para ouvir o que os arautos do atraso e estupidez.

Um rapaz com a camisa do Pearl Jam olhou a menina bonita, de óculos, pregando de forma serena, e começou a rir. Um dos companheiros logo vomitou em “defesa” da amiga. “Vai rindo, adorador de gays. E aproveita bem, que ano que vem não tem mais Lollapalooza ou qualquer porcaria de festival de rock. Toda essa indecência e lixo vai deixar de existir porque vamos limpar tudo.”

Como num passe de mágica, os poucos que tiveram interesse viraram as costas e deixaram os garotos falando sozinhos. A quantidade de estultícies foi demais até mesmo para pessoas que eventualmente poderiam concordar com as ideias medievais da galerinha da seita preconceituosa.

Nem me dei ao trabalho de me informar de qual segmento esdrúxulo do ramo evangélico eles representavam. Esse tipo de gente preconceituosa, racista e retrógrada merece o esquecimento e ser confinada no limbo em que ainda se encontram. Mas é ingenuidade imaginar que o rock não atrairia a atenção das seitas fundamentalistas estapafúrdias, assim como ainda atrai a ira dos segmentos mais retrógrados e radicais do cristianismo derivados do catolicismo.

Infelizmente os garotos são parte de uma parcela de gente religiosa que não aceita o diferente, o contrário, opiniões de outras pessoas. É gente que exige o impensável, que as pessoas vivam segundo os “ensinamentos” da seita da qual fazem parte. Não respeitam os direitos dos outros como a imensa maioria da população respeita os deles. É apenas uma parte dos evangélicos que vive na Idade Média, mas o chato é que esse contingente parece estar aumentando.

Rapidamente a permanência do deputado na comissão da Câmara está transcendendo os limites do debate de direitos humanos para chegar à liberdade de expressão, opinião, imprensa e até cultural.

A presença desse ser inominável na comissão de direitos humanos é o princípio de uma ofensiva medieval liderada pelos segmentos retrógrados e jurássicos dos evangélicos para minar o estado laico. Não vão conseguir, mas toda a atenção é necessária para impedir essa gente de avançar.

Os dinossauros evangélicos – que, sem querer, também estão representado a idiotice do fundamentalismo de outras religiões – detestam a liberdade de expressão. Acham que o mundo tem de existir de acordo com seus preceitos e dogmas medievais, onde não há espaço para homossexuais, mulheres modernas, avanço da ciência e liberdade cultural e pessoal.

Essa gente tem medo do rock, tem medo de que pessoas possa opinar e desmontar a farsa em que vivem, não suportam ouvir que pregam mentiras e que acreditam em papai noel, não aceitam ser contrariados e confrontados quando os argumentos caem após cinco segundos de discussão minimamente séria. É claro que a “ameaça” ao Lollapalooza e a outros festivais é ridícula, mas é uma amostra do que os alucinados gostariam de fazer caso um dia tenham algum tipo de poder.

E o mais lamentável é que esses dinossauros, arautos da estupidez, têm o apoio expressivo de eleitores que não se importam em ser ludibriados pela maioria das seitas evangélicas, não estão nem aí se estão sendo vítimas de estelionato intelectual (no mínimo).

Esses eleitores acham cômodo não pensar e acreditar na ladainha mentirosa da maioria dos pastores mais preocupados com dízimos, senhas de cartões de débito, com o mármore importado do maior dos templos e do novo jatinho que a “igreja” está comprando.

Que as boas bandas de white metal e rock cristão do Brasil, como Oficina G3, Eterna e muitas outras iluminem o cérebro dessa gente mergulhada nas trevas, e que continuem passando suas mensagens de paz e tolerância. O fundamentalismo e o fanatismo religioso – seja qual for o credo ou religião – não vão vencer. Entretanto, fiquemos alertas.

Hoje zombamos de moleques cegos pelo fanatismo que querem banir o rock, mas corremos o risco de que mais Felicianos consigam se eleger e influenciar o Parlamento para acabar com as liberdades e empestear o país com seus preconceitos sociais, raciais, culturais e todo o lixo que acompanha a sua retórica medieval.

Tudo o que sabemos sobre:

Lollapalooza

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: