O lamentável fim dos grandes legados

Estadão

19 de agosto de 2011 | 06h56

Quem achou que a era dos fanzines tinha acabado se enganou. Em tempos de internet, fanzine virou uma baita revista bem feita e bem diagramada, com textos mais bem cuidados. E o melhor, tudo virtual. É o caso da surpreendente Hell Divine, sonho de vida de um grupo de fãs de heavy metal de Brasília. Com muito trabalho e seriedade, além de boas sacadas, esse pessoal, liderado por Pedro Humangous, colocou na rede a quarta edição da revista.

A iniciativa é mais do que louvável, é necessária, que pode inclusive dar o pontapé inicial para que um movimento no sentido de criar mais revistas virtuais domine o meio musical – e cultural brasileiro. Até para celebrar a iniciativa, o Combate Rock publica abaixo um interessante texto do repórter da revista Yuri Azaghal, que faz uma reflexão que já vinha sendo comentada por alguns de nossos leitores.

Yuri Azaghal*

Não é preciso dizer que não existe nada mais triste para os fãs de uma banda que seu fim. Quantos ótimos artistas encerram suas carreiras após nos presentear durante décadas com ótimos álbuns e turnês por todo o mundo?

Claro que o tempo de duração e o nível de fama variam de banda para banda, mas não é isso que importa, e sim a qualidade de seu som. Obviamente, o último show do Scorpions ficará marcado para sempre na memória dos fãs que tiveram a oportunidade de ver, pela última vez, seus ídolos ao vivo.

Com certeza, a beleza dessa despedida foi indescritível, exatamente o que os fãs esperavam de uma banda de tal porte que mostrou seu brilho por mais de quarenta anos. Porém, não é só no Mainstream que isso é uma realidade.

O underground, recheado de ótimas bandas, sofre com a perda de muitos artistas que tinham tudo para dar certo devido ao fim prematuro dessas bandas – ora por simples discussões entre os membros, ora por fins trágicos.

O Evilwar, uma banda de Black Metal de Curitiba, é o melhor exemplo. A banda começou, em 1999, e eu os conheci por meio do fantástico “Bleeding In The Shades Of Baphomet” lançado, em 2006.

A banda começou a ganhar força, porém a infeliz decisão de suicídio do baterista e líder I. Niger acabou pondo fim ao que seria um ótimo exemplo do nosso underground. E como não citar os poloneses do Yattering? Eles faziam aquele Death Metal em que você simplesmente pensava “Uau! Caramba…”.

Uma sonoridade brutal, insana, inovadora e, de repente, a banda resolve encerrar suas atividades. E o que nos sobra?
Bandas de música teen modernas que fazem um som horrível só para ganhar dinheiro rapidamente e que todos os amantes da verdadeira música gostariam que jamais tivessem existido?

Nas raras ocasiões em que ligo a televisão nos canais de praxe, me deparo com verdadeiras aberrações sonoras que muitos insistem em chamar de música, e então se torna impossível não sofrer aqueles devaneios nostálgicos ao me lembrar de Death, Sarcófago, Bathory ou Hellhammer.

Lembro-me muito bem da primeira vez que ouvi álbuns como “Leprosy”, “Rotting Christ” e “Under The Sign Of The Black Mark”; foi quando realmente tive certeza que me identificava com a música pesada e que havia mais pessoas como eu ouvindo essas mesmas bandas. A euforia era indescritível, e agora o que podemos sentir com essas porcarias de hoje?

O problema de toda boa 72 época é que ela jamais volta e quanto mais caminhamos na trilha do futuro, mais fica evidente que os verdadeiros e talentosos músicos perecem e se tornam cada vez mais raros.

No entanto, os medíocres se alastram como câncer, dominados pela ganância – claro, porque pelo tipo de público que temos hoje, qualquer porcaria melosa com três versos de letra e uma repetição infinita de dois acordes já vira um hit de sucesso, com todo o apoio da mídia.

Felizmente, ainda existem os verdadeiros fãs e músicos conscientes que estão determinados a seguir os passos dos antigos mestres e dar continuidade aos seus legados, guardando para sempre em suas almas as incríveis lembranças de lançamentos de álbuns clássicos e eternos, assim como os inesquecíveis shows.

 Não podemos dizer o que vai acontecer daqui para frente, quando mais gigantes finalmente caírem e perecerem, só podemos contar com nossas esperanças e acreditar que a nova geração da música não está totalmente perdida.

Tenho esperanças que se salve, mas por agora posso dizer que se o apocalipse é, de fato, um conceito real, ele parece estar se manifestando na música.

* Yuri Azaghal é repórter e colaborador da revista Hell Divine – http://helldivine.blogspot.com/ e www.myspace.com/helldivine

 

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