O lado pessimista do quinteto Kaiser Chiefs

Estadão

26 de novembro de 2011 | 16h31

Pedro Antunes

O grupo britânico Kaiser Chiefs previa uma revolta. “Vejo as pessoas ficando mais excitadas, não é muito bonito, eu digo/Andar pela cidade é um tanto assustador”, canta Ricky Wilson. O cenário de I Predict a Riot, single de 2004, lançado no disco de estreia do grupo, Employment, do ano seguinte, parecia digno de uma ficção pós-punk dos cinemas. Na canção, um garoto apanha por ter olhado torto para um policial, um sujeito de terno ataca o interlocutor por um táxi, garotas correm nuas pelas ruas à procura de trocados para comprar camisinhas.

Passaram-se seis anos, e a revolta, de fato, aconteceu. Londres tornou-se um ambiente de guerra entre população e policiais, em agosto deste ano, após uma passeata inicialmente pacífica, que acabou se tornando uma faísca na pólvora. Grupos de todos os lados se revoltaram.

“Percebíamos isso no Reino Unido há tempos. Algumas pessoas precisavam fazer com que o país acordasse e voltasse a ser o que precisava ser”, diz Nick Baines – ou Peanuts, como é chamado –, por telefone, ao JT. Tecladista da banda, Peanuts disse que, na ocasião da revolta, estava em Istambul (Turquia). O vocalista do grupo, Ricky Wilson, caminhou pelas ruas de Londres e foi ajudar a limpar a bagunça toda.

O Kaiser Chiefs é mais do que a banda de Ruby, canção, aliás, que pouco traduz o espírito engajado das letras do quinteto inglês. E suas previsões, agora, vão mais além com o novo disco The Future is Medieval, lançado por aqui pela Universal Music. Um disco com temática pessimista, que teve uma estratégia de lançamento no exterior que derrubava todo o conceito do disco como algo único, ouvido do começo ao fim. E o melhor é que ele não perdeu a força. A mensagem continuava ali, não importasse a ordem das músicas.

No site da banda, em julho, era possível ouvir um minuto das 20 músicas inéditas para o disco que seria o sucessor do controverso Off With Their Heads, de 2008. O fã poderia, então, fazer uma seleção de dez músicas e montar sua ordem de preferência. Era uma versão personalizada e única de The Future is Medieval por sete libras (algo como R$ 21 na cotação atual). Cada seleção do fã poderia ser compartilhada entre os amigos e, se escolhida, ele ganharia uma libra.

FOTO: Danny North / Divulgação

“Tivemos essa ideia há 18 meses, quando conversávamos sobre as ideias que levariam a esse novo álbum”, conta o tecladista. “No fim, queríamos logo lançar as músicas. As pessoas pediam sempre mais, sempre buscando por coisas novas.” Segundo ele, o conceito do álbum ainda é muito aberto. “As pessoas gostam, claro, de ouvir um disco inteiro, do começo ao fim, mas elas podem eventualmente baixar uma música e outra. Não queremos que as pessoas se sintam presas ao formato tradicional do disco.”

Aqui no Brasil, os fãs terão a oportunidade de comprar só a versão de 13 músicas, escolhida pela banda, mas é possível fazer um teste ativando o shuffle (o botãozinho de embaralhar as faixas), do seu tocador de CD. As canções do disco foram selecionadas antes que o site entrasse no ar, evitando que a banda acabasse por optar pelas mais populares. “São as favoritas da banda”, garante Peanuts. “Vamos fazer uma edição especial com as músicas deixadas fora.”

A versão final do disco ainda traz a modelagem moderna do new wave que o consagrou. As letras, antes mais cotidianas – como dos também ingleses do The Kinks nos anos 60, cujas temáticas falavam diretamente do dia a dia do proletário britânico –, agora trazem mais desilusões amorosas. Ricky Wilson não tem medo de cantar a verdade. O disco soa sombrio, e os teclados e sintetizadores de Peanuts alternam entre riffs violentos ou outros mais clássicos, com arpejos básicos.

O som é retrô e dançante. Na desesperadamente solitária When All is Quiet, Wilson canta, em falsete: “Pense em mim/Quando tudo estiver em silêncio/Pense em mim”. A psicodélica Man On Mars parece ter saído de um disco do camaleão David Bowie, mas a razão é simples: ela, Little Shocks e Starts With Nothing foram produzidas por Tony Visconti, cuja assinatura está em 11 discos de Bowie.

Na última vez em que esteve aqui, no festival Planeta Terra de 2008, Peanuts tocou um dia depois de fazer uma cirurgia de retirada de apêndice. “Todos foram muito simpáticos. Espero voltar ao Brasil em breve.” No show daquela ocasião, ele se apresentou sentado numa cadeira de rodas. Isso, ninguém do Kaiser Chiefs previu.

 

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