O jazz e o erudito de Bobby McFerrin

Estadão

28 de agosto de 2011 | 07h10

Pedro Antunes *

É dele o hino para combater qualquer depressão, Don’t Worry Be Happy. Uma canção que transborda felicidade e boas energias. Basta assoviar a introdução que uma boa sensação emana pelo corpo. Mas nem mesmo seu autor está sempre sorridente. Ou despreocupado.

O jazzista inglês, radicado em Nova York, Bobby McFerrin, de 61 anos, nem sempre está de bom humor. “Não tem ser humano que seja feliz sempre”, disse McFerrin, por telefone, ao JT, da sua casa, na Filadélfia (EUA). Ele tocou em julho, em São Paulo, no Via Funchal, abrindo a quinta edição da Série Jazz All Nights.

É, no mínimo, irônico que o músico não goste particularmente do seu maior sucesso, lançado em 1988, com o qual ganhou o Grammy de Melhor Canção no ano seguinte e que atingiu o topo das paradas da americana Billboard.

Ele também não sabe explicar muito a razão do sucesso da música. “Acho que foi o momento em que a canção foi lançada. Havia muita tensão no ar e o pensamento positivo da música ajudou as pessoas a passar pelos problemas”, diz. “Mas eu não estava triste quando a compus”, completa.

 Não é que McFerrin não goste de Don’t Worry Be Happy, apenas não quer ser lembrado somente por ela. Ele é um músico competente e premiado demais para essa simples avaliação. Tem dez prêmios Grammy na estante, vendeu 20 milhões de cópias, somando a venda de seus 18 discos. Ou seja, lembrá-lo por apenas uma canção não deixa de ser leviano. Um pecado frente a um músico capaz de encantar com canções à capella, interpretando até a bela Ave Maria, de Bach. 

“Não vou ao Brasil desde 1985 ou 86, nem lembro direito. Estou realmente emocionado. Desejo que essa espera toda valha a pena”, confessa. Pelo telefone, a voz que chega é pausada e um pouco sussurrada. McFerrin é calmo e exala tranquilidade.

No palco, ele prima por despertar esse mesmo sentimento. “Gosto de deixar o público relaxado. Quero que eles participem bastante do show, cantem comigo. Isso é muito importante para o que eu faço”, afirma. Para isso, ele tem na sua carteira de truques algo que parece mágica. É capaz de transformar a voz do público num instrumento tocado por ele.

É possível encontrar, no Youtube, vídeos em que McFerrin pula, de um lado para o outro, subindo e descendo na escala pentatônica, indicando qual é a nota que deve ser cantada pelos presentes. E, acredite, dá muito certo. “É uma outra forma de fazer com que as pessoas participem”, diz. A técnica foi criada há 15 anos.

 “É impressionante como o cérebro responde naturalmente aos padrões da música. Em todos os lugares do planeta, as pessoas entendem isso”. No palco, ele se torna uma espécie de regente. “Devo fazer isso em São Paulo, sim”, adianta o músico.

Sujeito de dreadlocks e barba já grisalha, McFerrin preza pelo bom entretenimento no palco. Não que faça demasiadas preparações antes de começar alguma apresentação. O mais importante, para ele, nos minutos que antecedem os shows, é rezar.

 “Não que eu seja religioso, ou algo do tipo. Eu me vejo muito mais como uma pessoa espiritualizada”, diz. “Não sei se Jesus Cristo, quando veio ao mundo, queria criar uma religião. Mas reconheço a importância do bem-estar espiritual para se manter são”.

De formação clássica – é filho de Robert McFerrin, um dos primeiros barítonos negros de prestígio, falecido em 2006 -, o músico encontrou no jazz uma forma de extravasar seu ideal de liberdade musical. Passeia por ambas, a rigidez do erudito e o improviso do jazz, com facilidade. “Estudo música desde pequeno. Mas, além da clássica, ouvia muito jazz em casa. Depois, cresci e passei a escutar mais R&B, pop e rock”, diz, revelando o ecletismo musical.

Com uma extensão vocal de quatro oitavas e a capacidade de enganar o ouvinte, como se estivesse cantando duas notas ao mesmo tempo – “É um truque. Oo que faço é criar um som com as cordas vocais e outro com os lábios”, diz –, Bobby McFerrin ainda se considera tímido. É avesso aos holofotes. “Não fico muito confortável nessa situação”, conta. Mas, a cada apresentação, ele é o foco das atenções. É preciso lidar com isso. Ou, como alguém já cantou, “don’t worry, be happy”.

* Colaborou Felipe Branco Cruz

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