O injustiçado Tim Owens dá outra volta por cima

Estadão

22 de setembro de 2010 | 08h19

Marcelo Moreira

Outro dia citamos aqui no Combate Rock o cara mais azarado do mundo, o baterista Pete Best, despedido dos Beatles em agosto de 1962. No mês seguinte, o grupo começou a gravar os primeiros singles com Ringo Starr, e todos sabem onde o quarteto inglês foi parar.

Tim “Ripper” Owens não é um cara azarado, mas com certeza é um dos mais injustiçados do rock. Mas aos poucos começa a ter o seu trabalho e sua qualidade reconhecidas pelos amigos e por músicos em geral. O vocalista é a voz que domina o projeto Charred Walls of the Damned, mais um supergrupo que surge em 2010.

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Richard Christy, ex-baterista dos Death e Iced Earth, comediante e membro do programa Howard Stern, é o mentor do projeto. Admirador de Owens desde os tempos deste no Judas Priest, deu um tempo em suas atividades principais e reuniu em estúdio o cantor, o monstro das quatro cordas Steve DiGiorgio (Iced Earth, Testament, Death, Autopsy) e o produtor e guitarrista Jason Suecof (Trivium, Chimaira).

Metal de primeira, com som gordo, vocais gritados e urrados e muita habilidade instrumental. O quarteto cometeu uma obra-prima do rock pesado. Lançado na Europa pela Metal Blade, deve sair em versão nacional pela Die Hard Records, uma das bandeiras do heavy metal no Brasil.

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O cantor Tim Owens, ex-Judas Priest

E porque Owens é um injustiçado? Afinal ele realizou seu sonho… Cantava em uma banda obscura, Winter’s Bane, e em outra que fazia de vez em quando covers do Judas Priest, banda venerada pelo vocalista. Ao mesmo tempo, Owens dava duro em vários empregos paralelos, entre eles o de vendeder do CDs em uma loja.

Um dia um DVD do Winter’s Bane com alguma coisa da banda cover chegou às mãos do guitarrista Glenn Tipton, do Judas Priest. A banda estava prestes a escolher o alemão Ralf Scheepers (ex-Gamma Ray) como susbstituto de Rob Halford, mas mudou de ideia e muito rapidamente chamou Owens para um teste. Imediatamemnte foi confirmado como novo vovalista e ganhou o apelido “Ripper”, uma música do próprio Judas.

A trajetória de sonho do fã que virou o cantor da banda idolatrada virou filme produzido por George Clooney, “Rock Star”, com Mark Wahlberg e Jennifer Aniston – o roteiro mudou no meio do caminho, já mudou tanto que, no fim, Clooney disse que apenas se “baseou” na história de Tim Owens.

Foram oito anos de de ótima convivência, dois CDs de estúdio, dosi ao vivo e dois DVDs. A banda até que não fazia feio nas vendas, mas a sobra de Rob Halford continuava pairando sobre o Judas Priest – afinal nem a carreira solo nem a a da banda eram estouros de venda.

Os rumores já era fortes em Los Angeles, onde Halford morava. Owens nunca admitiu, mas esperava a qualquer momento uma ligação de Tipton em meados de 2003 informando a volta da formação clássica. E o telefonema aconteceu em agosto daquele ano, pouco depois de o empresário ter convocado Owens para começar a gravar o novo CD em outubro.

Houve ressentimento, até porque a situação foi chata e pouco profissional, apesar de todo o cuidado que Tipton e KK Downing, o outro guitarrista do Judas, tiveram ao “consolar” Owens.

Mesmo abatido, Tim “Ripper” Owens seguiu em frente. Participou de vários projetos, criou sua própria
banda, o Beyond Fear, extremamente pesado, e acabou convidado a entrar no Iced Earth, ótima banda de heavy metal liderada por Jon Schaeffer, substituindo uma lenda, Matt Barlow.

Mesmo com um trabalho de qualidade e elogios da crítica para “The Glorious Burden” e “Framing Armaggedon”, Schaeffer e o Iced Earth nunca se recuperaram da saudade deixada por Barlow, que virou policial e assistente jurídico em Nova York. Além do mais, Barlow é cunhado de Schaeffer.

A parceria com o Iced Earth durou pouco e terminou de forma igualmente injusta e chata, com um telefonema frio e grosseiro de Schaeffer. A resposta de Owens foi “Perpetual Flame”, excelente álbum de Yngwie Malmsteen ao qual emprestou a voz em 2008, e o o seu primeiro álbum solo, “Play My Game”, de 2009, que obteve um sucesso maior do que o mais recente do Iced Earth, “The Crucible of Man (2008)”, já com Matt Barlow de volta.

O Charred Walls of the Damned é a terceira prova de que Tim Owens foi injustiçado e a terceira prova de que a sua volta por cima é mesmo para valer. O novo trabalho mais do que comprova isso.

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